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Exclusivo: uma conversa com David Lynch sobre Twin Peaks

Em conversa com Exame Hoje, David Lynch falou sobre Twin Peaks, sua paixão por café e sobre seus hábitos de meditação
 (Getty Images/Slaven Vlasic)
(Getty Images/Slaven Vlasic)
Por Ana Maria BahianaPublicado em 01/06/2017 12:44 | Última atualização em 01/06/2017 12:46Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Reportagem publicada originalmente em EXAME Hoje, app disponível na App Store e no Google PlayPara ler reportagens antecipadamente, assine EXAME Hoje.

LOS ANGELES — Se você for levar ao pé da letra as palavras do cineasta e artista plástico americano David Lynch, ele foi seduzido duas vezes pelo roteirista e produtor Mark Frost, ou seja, pela televisão. Das duas vezes a sedução envolveu café – uma das grandes paixões de Lynch, juntamente com cigarro, que nem os muitos anos de prática de meditação conseguiram eliminar – e dois restaurantes icônicos da Grande Los Angeles, a lanchonete Du-Par’s, um tradicional e popular diner no Vale de San Fernando, e o Musso & Frank’s Grill, no coração de Hollywood, ambos próximos da casa de Lynch em Mulholland Drive.

A primeira vez, em 1988, o agente que os dois tinham em comum colocou-os em contato, curiosamente, porque Frost, produtor experiente de TV (O Homem de Seis Milhões de Dólares, Hill Street Blues) estava interessado em se bandear para o lado do cinema. Na época, Lynch me descreveu o encontro como “uma coisa mágica”. “Vimos imediatamente que tínhamos algo em comum e não sei dizer exatamente o que era, mas era verdadeiro”, Lynch me disse em setembro de 1990. “Eu estava mais curioso sobre os processos da televisão do que ele pelos do cinema. Fiz tantas perguntas sobre TV que muito em breve estávamos falando em como seria lindo e mágico criar algo juntos para TV, e as ideias simplesmente fluíram sem parar. Os personagens apareceram e eram absolutamente cativantes. Foi muito simples, muito orgânico.”

De volta da longa conversa, Lynch ligou para o agente e deu o sinal verde. “Disse a ele para por a bola em campo. Ele tinha um bom relacionamento com a rede de TV ABC, e foi o primeiro e único contato que precisamos fazer.”

No final dos anos 1980 a segregação entre TV e cinema era absoluta em todos os sentidos: estética, objetivo, formato, prestígio. Um realizador da envergadura de Lynch – na época com três indicações ao Oscar e outras tantas ao Globo de Ouro – jamais sequer pensaria em trabalhar com televisão, não fosse a feliz ocorrência do agente em comum e os poderes de sedução criativa de Mark Frost.

Estreando em abril de 1990, Twin Peaks nunca foi um enorme sucesso de audiência, e resistiu bravamente por duas temporadas. Mas se tornou imediatamente uma série mega-cult, com fãs apaixonados, e um verdadeiro evento de mídia. Isso, na superfície. Em profundidade, Twin Peaks — a história mágico-realista dos desdobramentos de um crime hediondo numa pequena cidade do noroeste norte-americano, que mais do que um pouco parecida com Missoula, Montana, onde Lynch nasceu — plantou as sementes do que hoje vemos naquilo que um dia se chamou “TV”. E não apenas a infusão de talento da tela grande para a tela menor – os Soderberghs, Scorseses, Sorrentinos, Campions, Finchers e tantos outros – mas a linguagem em si. O visual e os conceitos de séries como Legion, Hannibal, American Gods, American Horror Story e The Walking Dead (entre muitas outras) não teriam lugar na TV se Twin Peaks não tivesse existido antes.

O trabalho de Lynch depois de Twin Peaks teve cumes e vales: a chuva de aclamações, indicações e prêmios para Twin Peaks e os filmes The Straight Story e Mulholland Drive, mas também a batalha pelo longa Inland Empire, que Lynch teve que divulgar no corpo a corpo, como se fosse mais um estreante indie. Não parou de criar, mas dedicou-se a outras disciplinas, como as artes plásticas —sua primeira vocação —, a música, o design de móveis e a divulgação da meditação transcendental, que pratica desde 1973.

“Eu não estava desiludido com o cinema, eu estava sem paciência para os processos e a estrutura que tinha se criado em torno do cinema”, Lynch me disse em entrevista em meados de maio. Era uma manhã de primavera perfeita em Los Angeles, e Lynch reuniu um pequeno grupo de colaboradores, os amigos e a mídia para um café da manhã nos jardins de um hotel de luxo, com café forte (escolhido por ele mesmo) e tortas variadas (outra obsessão, da qual ele também fez a curadoria) no cardápio. “E como o universo é feito de sincronicidades, Mark (Frost) me convidou para uma conversa outra vez…”

O encontro com Frost dessa vez foi um almoço, em 2012, no Musso & Frank’s. “Eu sempre tive um enorme carinho pelo mundo e os personagens de Twin Peaks, e às vezes ficava pensando o que tinha acontecido com eles nesses anos todos”, Lynch continua, degustando seu café “preto e forte como uma noite sem lua”. “Mas nunca pensei seriamente em voltar a esse universo. Mas foi aí, mais uma vez, que Mark me mostrou exatamente como fazer isso.”

Durante cinco anos Lynch e Frost trabalharam no desenvolvimento do que viria a ser Twin Peaks: The Return, que, no mercado rico e competitivo da TV dos tempos atuais, foi prontamente adquirida pelo canal por assinatura Showtime. “Tínhamos apenas uma regra, Mark e eu: sermos verdadeiros”, ele diz. “Sermos verdadeiros aos personagens e suas jornadas. E ao mistério. É importante ser fiel e verdadeiro com aquilo que é misterioso, e dar às pessoas que compartilham o mistério conosco a oportunidade de acessá-lo e compreendê-lo a seu modo.”

Por isso, Lynch diz, rindo muito — ele é uma das pessoas mais calmas e bem-humoradas que conheço — que “não vai explicar nada” do que se passa em Twin Peaks: The Return. E não explica mesmo. Pessoas se aproximam com perguntas tipo “quem é fulano?” ou “o que aconteceu na cena x” e ele apenas sorri e responde: “O que você acha que aconteceu?”

“Não faço por brincadeira”, ele me diz. “Levo este ofício muito a sério e compreendo as reações das pessoas. Sou um artista, uma pessoa que cria. Posso criar uma instalação ou o desenho de uma mesa ou uma canção com Angelo Badalamenti ou um filme. Depois vem o compartilhamento com outras pessoas. Aí a arte é de cada um.” Lynch conta que, quando o ultimo episódio da segunda temporada do Twin Peaks foi ao ar, em 1991, deixando o querido agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan, ator-muso de Lynch) aprisionado no universo paralelo da Black Lodge, um grupo de fãs foi até sua casa e, depois de um coro de vaias, encheu seu jardim com tiras de papel higiênico. “Eu compreendi. São coisas da paixão, e levo a paixão muito a sério.”

Em sua nova encarnação, agora num universo muito maior e mais competitivo de conteúdo audiovisual, Twin Peaks está repetindo sua trajetória inicial como um título imensamente querido, mas não necessariamente como um sucesso de massa. E com um perfil interessante: na TV propriamente dita a estreia da série, nos EUA, teve uma audiência de 619.000 espectadores. Mas, simultaneamente, agregou mais de 1.7 milhões de novos assinantes para as plataformas de streaming da Showtime — no Brasil, a série pode ser acompanhada pela plataforma de conteúdo Netflix.

Lynch se diz “inteiramente à vontade” no universo do conteúdo digital de distribuição domiciliar e móvel. “São plataformas. São meios de distribuição. São modos de ver. São novos instrumentos para quem cria e novas experiências para quem vê”, Lynch diz. “Toda a criação deste Twin Peaks foi pensada com relação às novas plataformas. O som, que para mim é um dos elementos mais essenciais do que faço, foi desenhado para ser imersivo, para ser ouvido em fones. Aconselho todo mundo a ver a série ou na maior TV que tiver ou num tablet, bem perto dos olhos, e sempre com fones de ouvido. Não é uma série para ser vista à distância, é para se deixar ser envolvido pela experiência.”

O cinema, ele garante, não foi abandonado. “As pessoas interpretaram mal o que eu disse. Nunca disse que não faria mais cinema. Neste momento estou fazendo este trabalho, que eu nem chamaria mais de televisão. Mas se uma ideia vier e ela me parecer uma ideia que é melhor ser expressada num filme, ela será um filme.” Pergunto a Lynch como as ideias chegam até ele, e se todos esses anos de meditação mudaram o modo como ele cria. “A meditação tem o efeito de limpar todos os processos, de me levar à paz e ao silêncio absolutos”, ele responde. “As ideias vêm depois, lucidamente. Elas vem inteiras, completas. Quanto mais eu pratico esse esvaziar da mente, mais completas as ideias surgem.”

Uma assistente veio dizer que estava na hora de partir para o aeroporto – Lynch estava indo para Cannes, onde as primeiras duas horas de Twin Peaks: The Return foram exibidas em sessão especial, e recebidas com uma longa ovação de pé. Antes que ele se vá tenho duas perguntinhas rápidas: o que ele está vendo atualmente? “Uma série incrível sobre esses dois caras que restauram carros antigos. É maravilhoso! O modo como eles trabalham, como refazem os motores, o estofamento…É brilhante! São verdadeiros artistas!” E o que aconteceu com os cinco pica-paus de madeira que enfeitavam seu escritório da última vez que o entrevistei? “Ah…. Eles se chamavam Chucko, Buster, Pete, Bob e Dan. Meus garotos! Comprei de um artesão que estava vendendo num posto de gasolina na Sunset. Eram lindos e meus chapas, meus amigões. Mas com o tempo começaram a demonstrar certos traços perniciosos de caráter. Mandei todos eles embora.”

Uma pausa e ele me diz: “Espere, tenho uma coisa para você.” Lynch foi até a mesa do bufê e voltou com uma caixa branca com um rótulo com os dizeres “Twin Peaks”. “É uma torta de cereja. São as melhores, você sabe. Especialmente com um bom café.”