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NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS: Marina Silva faz balanço do MMA e fala sobre candidatura ao Senado

Ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima fala sobre legado no Ministério e o trabalho pela floresta de pé: "Mobilizamos cerca de R$ 350 bilhões para a transformação ecológica do país"

Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente, discute legado, futuro em ano eleitoral e misoginia: "É preciso que os homens também, independente de ideologia, entrem nessa luta" (Leandro Fonseca/Exame)

Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente, discute legado, futuro em ano eleitoral e misoginia: "É preciso que os homens também, independente de ideologia, entrem nessa luta" (Leandro Fonseca/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 29 de abril de 2026 às 14h55.

Última atualização em 29 de abril de 2026 às 15h42.

A missão era reconstruir um ministério desmontado e mostrar que floresta em pé pode ser sinônimo de desenvolvimento. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, faz um balanço da sua gestão no mais recente episódio do videocast Negócios Sustentáveis, disponível no YouTube da EXAME — e não foge de perguntas, desde o licenciamento ambiental a candidatura ao Senado.

Entre os números que ela destaca estão a redução de 50% do desmatamento na Amazônia, de 80% no Pantanal e de 35% no Cerrado, além da queda de 75% nos incêndios no bioma e de 98% no Pantanal. Mas, para a ex-ministra, o que diferenciou essa gestão das anteriores foi a criação de instrumentos econômicos em escala para viabilizar a agenda ambiental.

"Nós saímos do Fundo Clima de algo em torno de R$ 400 milhões para R$ 170 bilhões para investimentos em sustentabilidade", afirma. No total, foram mobilizados cerca de R$ 350 bilhões para o plano de transformação ecológica — somando o EcoInvest, o Fundo Amazônia e o TFFF, o Fundo Global para Proteção de Floresta. Nos 81 municípios que mais desmatavam, a queda foi ainda mais expressiva: 62%, contra os 50% registrados na média da Amazônia.

O que ficou incompleto

Questionada sobre missões inacabadas, Silva aponta o Mapa do Caminho para o fim da dependência de combustíveis fósseis como o principal item da lista. As diretrizes que orientarão o documento já estão prontas e encaminhadas à Casa Civil, mas a conclusão do mapa em si demandará esforço interministerial e vai além de um único mandato.

"O Mapa do Caminho vai pensar quais são as novas trajetórias tecnológicas, quais são os processos de diversificação econômica, que tipo de investimento a gente precisa fazer em diferentes direções", explica.

Para ela, o cenário geopolítico atual — com a guerra envolvendo o Irã — reforça a urgência do tema: "Se nós não tivéssemos o Proálcool há 50 anos, estaríamos numa situação bem mais comprometedora."

Silva também destaca que o Brasil está entre os três países do mundo que já avançaram na construção de diretrizes para esse mapa, ao lado de França e Noruega, e que a presidência brasileira da COP30 terá a tarefa de apresentar uma proposta global tanto para o desmatamento quanto para a saída dos combustíveis fósseis.

Licenciamento e o Congresso

Um dos pontos de maior tensão do mandato foi a aprovação da nova lei de licenciamento ambiental. Para Silva, o resultado foi uma piora significativa na qualidade do processo — e um risco concreto de judicialização que pode travar obras, não agilizá-las.

"O que o Congresso fez, no meu entendimento, foi diminuir arrasadoramente a qualidade do licenciamento, criando um problema grave de judicialização que vai fazer com que as coisas fiquem paradas", avalia. Ela ressalta que, durante a gestão, o IBAMA concedeu mais de mil licenças e realizou concurso público para reforçar o quadro — cerca de 800 dos 1.509 servidores aprovados foram alocados para a área de licenciamento.

Na avaliação da ex-ministra, um dos maiores avanços do período foi a integração da pauta ambiental com outros ministérios — algo que ela chama de política transversal, não setorial. O Plano Clima foi construído com 25 ministérios. O Plano Safra foi remodelado a quatro mãos entre Meio Ambiente, Agricultura, Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e Fazenda. E o Plano Plurianual 2024-2027 trouxe uma novidade: dos 80 programas, 58 têm ações de sustentabilidade.

"Eu brincava: o Ministério do Meio Ambiente não é o ministério só de proibir o que não pode, mas de ajudar a viabilizar o 'como pode' — não só com regras e normas, mas principalmente com recursos", diz.

Senado: nome posto, decisão ainda não

Fora do ministério, Marina Silva já tem o nome colocado pela Rede para uma das duas vagas ao Senado por São Paulo nas eleições de outubro — e as pesquisas mostram que ela está bem posicionada na disputa.

A pesquisa Vox divulgada no dia 26 de abril aponta Marina Silva na liderança, com 29,7% das intenções de voto, seguida por Guilherme Derrite (PP), com 27,2%, Simone Tebet (PSB), com 26,1%, e André do Prado (PL), com 22,5% — todos dentro da margem de erro de 2,55 pontos percentuais, configurando empate técnico.

Já a pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (29) aponta Tebet na liderança com 14%, enquanto Marina Silva aparece com 12% num cenário sem Márcio França, e os dois nomes do PSB — Tebet e França — lideram quando testados juntos.

Silva ainda não se declarou candidata oficialmente e diz que o processo de construção da chapa em São Paulo segue em aberto, com Fernando Haddad liderando as conversas. A definição de quem ocupará os espaços na chapa majoritária ainda depende de negociações internas entre os partidos da federação.

Outro tema que Silva enfrentou de frente foi a turbulência interna na Rede. Segundo ela, diretórios legitimamente eleitos foram dissolvidos — e o caso já está judicializado. Ainda assim, ela descarta deixar o partido e se coloca no papel de "remanescente".

"Toda floresta nativa, quando sofre algum tipo de mudança muito dramática, precisa de remanescente para que a gente possa ressemear. É nessa situação de remanescente que eu me coloco", compara.

Misoginia e o papel das mulheres na política

Ao ser questionada sobre episódios de violência de gênero que viveu no Congresso, Silva amplia o debate. Para ela, o enfrentamento à misoginia e ao feminicídio exige tanto mudanças nos marcos regulatórios quanto uma transformação cultural profunda — e não pode ficar restrito a um campo político.

"É preciso que os homens também, independente de ideologia, entrem nessa luta para que a gente possa colocar esse debate não como coisa de direita e esquerda, mas como coisa de seres humanos", defende. Ela lembra que avanços como a lei de cotas só foram possíveis quando mulheres de diferentes partidos se uniram em torno de uma mesma bandeira — e que o mesmo movimento será necessário agora.

Confira o episódio completo do videocast Negócios Sustentáveis no YouTube da EXAME.

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