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Bacharel em Engenharia Elétrica CEFET/RJ
Publicado em 21 de outubro de 2026 às 11h00.
O 1º Leilão de Transmissão de 2027 deve marcar uma nova etapa na expansão da rede elétrica brasileira. Entre os lotes previstos estão duas soluções pouco usuais: um sistema de armazenamento por baterias contratado como parte de uma concessão de transmissão e, caso confirmado no edital definitivo, uma estação conversora VSC para a interligação Brasil–Bolívia.
A novidade principal é que o leilão testa a capacidade do modelo brasileiro de transmissão de incorporar tecnologias com características diferentes das linhas e subestações tradicionalmente licitadas.
O Lote 5, por exemplo, prevê um sistema de armazenamento de 100 MW e 200 MWh conectado à Subestação Cruzeiro do Sul, no Acre, com controle grid-forming. O uso de baterias na transmissão não é inédito, já que, desde 2023, a Subestação Registro, em São Paulo, opera um sistema de 30 MW e 60 MWh remunerado por Receita Anual Permitida (RAP).
O ineditismo de 2027 está na forma de contratação: será a primeira vez que um sistema de armazenamento será disputado como lote de um leilão de concessão de transmissão. A diferença aparece também no prazo, com os empreendimentos convencionais agora tendo concessões de 30 anos. Além disso, o lote da bateria terá duração prevista de 18 anos, refletindo sua menor vida útil e a degradação dos equipamentos.
A segunda inovação poderá estar no Lote 11, associado à interligação Brasil–Bolívia. O projeto prevê uma estação conversora back-to-back em tecnologia VSC e, se confirmada, será a primeira aplicação dessa tecnologia no Sistema Interligado Nacional.
Os grandes sistemas em corrente contínua do Brasil utilizam majoritariamente a tecnologia LCC, madura e consolidada, para transmitir grandes blocos de potência a longas distâncias. Ela, porém, depende das condições da rede em corrente alternada, e está sujeita a falhas de comutação. Esse aspecto é relevante, porque vários dos grandes elos têm suas estações receptoras concentradas na região Sudeste, formando uma configuração multi-infeed. Uma mesma perturbação pode, assim, afetar mais de um elo, e provocar a interrupção simultânea de grandes blocos de potência.
O VSC não está sujeito a esse tipo de falha de comutação e oferece maior flexibilidade no controle de potência e tensão, além de melhor desempenho em redes menos robustas. A Empresa de Pesquisa Energética recomendou essa tecnologia como solução de referência para o Bipolo Nordeste II, concebido para transportar cerca de 3 GW entre o Nordeste e o Sudeste.
Isso não significa que o VSC substitua o LCC. Mas, para haver a melhor escolha entre as soluções, será necessário considerar não apenas a quantidade de energia transportada, mas também seus impactos sobre a estabilidade e a segurança da rede.
Esse talvez seja o principal significado do leilão de 2027, por testar se o modelo brasileiro de transmissão consegue incorporar soluções diferentes para necessidades cada vez mais específicas, preservando competição, previsibilidade regulatória e segurança operativa.