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El Niño e crianças: por que o Brasil precisa agir antes da próxima emergência climática

Com a aproximação da estação mais seca na Amazônia e chuvas mais intensas no Sul, os efeitos combinados do El Niño e das mudanças climáticas podem impactar o bem-estar de milhares de crianças e adolescentes

Em situações de emergência, a atuação do UNICEF só é possível graças a recursos específicos destinados à preparação e resposta a emergências (Dean Drobot/Shutterstock)

Em situações de emergência, a atuação do UNICEF só é possível graças a recursos específicos destinados à preparação e resposta a emergências (Dean Drobot/Shutterstock)

Unicef
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Colunista

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 18h22.

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Por Layla Saad, Representante Adjunta do UNICEF no Brasil*

Para milhões de crianças e adolescentes brasileiros, eventos climáticos extremos não são episódios passageiros, mas ameaças de longo prazo ao acesso à educação, à água potável, à segurança alimentar, à saúde e à proteção. O El Niño que começou nos últimos meses chega em um mundo em que o clima já mudou, e em que extremos – de calor, de seca, de chuva – já são mais frequentes e mais intensos. E, para as crianças, essa é uma ameaça imediata.

Crianças e adolescentes são impactados pela mudança do clima de maneira específica, diferente dos adultos. Em primeiro lugar, há fatores biológicos relacionados ao desenvolvimento infantil. Crianças pequenas são mais vulneráveis ao calor extremo porque seu organismo ainda não regula a temperatura corporal com a mesma eficiência dos adultos durante ondas de calor, por exemplo. Também estão mais expostas aos efeitos das queimadas, já que respiram duas vezes mais rapidamente e inalam mais ar por unidade de peso corporal do que os adultos, o que aumenta o risco de doenças respiratórias.

Há ainda impactos sociais. Em situações de emergência, escolas fecham, serviços de saúde e assistência podem ser interrompidos, o acesso à água e aos alimentos torna-se mais difícil e muitas famílias perdem sua renda. Esse conjunto de fatores aumenta o risco de insegurança alimentar, evasão escolar, exploração, aumento da violência e outras violações de direitos, exigindo respostas coordenadas para garantir a proteção integral de crianças e adolescentes.

No Brasil, nos últimos anos, tivemos ondas de calor recorde, inclusive em meses do inverno; volumes de chuva históricos no Rio Grande do Sul, no litoral de São Paulo, e no sul da Bahia, entre outros lugares; e uma seca sem precedentes na Amazônia. É nesse contexto, das mudanças do clima causadas pela ação humana, que começa esse novo El Niño.

O El Niño é parte de um ciclo natural de mudanças de temperatura no Oceano Pacífico e sua interação com o aquecimento global provoca mais calor em várias partes do planeta. Como resultado, os anos mais quentes da história humana (2024 e 2023) foram anos de El Niño.  No Brasil, ele costuma tornar mais prováveis e intensas secas no Norte e no Nordeste e chuvas intensas em regiões do Sul e do Sudeste.

Estudos recentes apontam que as secas na Amazônia de 2023 e 2024, por exemplo, estiveram associadas à combinação entre o El Niño e o aquecimento global. Entre seus efeitos, a estiagem levou o Rio Negro, no Porto de Manaus, ao menor nível registrado em 122 anos de medições oficiais, em outubro de 2024, além de secar centenas de afluentes e igarapés, isolando comunidades indígenas e ribeirinhas. O impacto sobre as crianças foi imediato.

Em 2024, os impactos das emergências climáticas sobre a infância tornaram-se ainda mais evidentes. Em todo o Brasil, 1,17 milhão de meninas e meninos tiveram os estudos interrompidos por eventos climáticos extremos. Na Amazônia, a seca recorde afetou mais de 420 mil crianças no Brasil, Peru e Colômbia. Somente na região amazônica brasileira, mais de 1,7 mil escolas e 760 unidades de saúde ficaram fechadas ou inacessíveis devido à redução drástica do nível dos rios, que funcionam como principais vias de transporte para inúmeras comunidades. Para muitas crianças e famílias, a estiagem significou interrupção de aulas, dificuldade de acesso a alimentos, água e atendimento médico.

É por isso que o UNICEF defende que as emergências climáticas sejam tratadas também como emergências para os direitos das crianças, colocando-as no centro das estratégias de adaptação climática e de preparação para desastres. Esse compromisso se traduz em iniciativas como o Protocolo Nacional Conjunto para Proteção Integral de Crianças e Adolescentes em Situação de Desastres, que orienta a atuação coordenada de diferentes setores para garantir seus direitos antes, durante e após as emergências.

O que acontece quando a Amazônia seca?

Os efeitos da seca, para as crianças, vão muito além das imagens mais visíveis dos desastres. Uma seca prolongada reduz o acesso à água, compromete a segurança alimentar, dificulta o transporte escolar em comunidades ribeirinhas, favorece queimadas e aprofunda desigualdades que muitas vezes já existiam antes da emergência.

A questão já não é se novas secas extremas acontecerão, mas quão preparados estaremos quando elas chegarem. À medida que o mês de agosto marca o início da estação mais seca em grande parte da Amazônia, precisamos olhar para os aprendizados recentes. As secas que atingiram a região nos últimos anos deixaram claro que eventos extremos estão se tornando mais frequentes e mais severos.

É nesse contexto que o UNICEF lançou em julho o Painel Crianças e Meio Ambiente, uma plataforma que reúne indicadores sobre a exposição ambiental de crianças e adolescentes em 5.570 municípios brasileiros. Os resultados mostram uma realidade que exige atenção urgente. Dos municípios analisados, 333 acumulam alta vulnerabilidade em pelo menos 10 dos 14 indicadores avaliados, concentrados principalmente na Amazônia Legal.

Preparar-se para próximos eventos extremos, com ou sem El Niño, para a próxima seca ou para a próxima inundação não significa apenas investir em infraestrutura climática. Significa investir em crianças. Porque, quando uma criança perde semanas de aula devido a uma seca extrema, quando deixa de acessar água segura ou atendimento de saúde, os efeitos ultrapassam a duração da emergência. Eles podem comprometer oportunidades de desenvolvimento por toda uma vida. E não só delas, mas de todo um país.

Não se responde a uma emergência sozinho

Em situações de emergência, nossa atuação só é possível graças a recursos específicos destinados à preparação e resposta a emergências. Durante as emergências recentes no País, como as enchentes no Rio Grande do Sul, o UNICEF contou com a solidariedade de pessoas físicas e parceiros doadores, que possibilitaram uma resposta eficiente, voltada às crianças e adolescentes.

Atualmente, no Brasil, o UNICEF conta com o apoio do Departamento de Proteção Civil e Operações de Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) para fortalecer sistemas de alerta precoce de base comunitária que complementam ações emergenciais, sendo mecanismos para identificar impactos de eventos extremos de forma antecipada. Como organismo multilateral financiado integralmente por contribuições voluntárias, trabalhamos continuamente para ampliar a rede de parceiros comprometidos com a proteção de crianças e adolescentes, garantindo capacidade de resposta quando uma crise acontece.

Investir em preparação significa possibilitar que equipes, sistemas e serviços estejam prontos para agir com rapidez e eficácia. Quando uma emergência surge, não há tempo para começar do zero. É a preparação construída antecipadamente que permite levar proteção, apoio psicossocial, acesso à educação, saúde e assistência às crianças e famílias que mais precisam.

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