ESG

COP28: O que especialistas dizem sobre texto final

Especialistas em clima e meio ambiente analisam o texto final da COP28, a Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas, que apresenta 196 tópicos sobre transição energética, adaptação, combustíveis fósseis, entre outros

COP28 chegou ao fim após divulgação de texto final na madrugada desta quarta-feira (Leandro Fonseca/Exame)

COP28 chegou ao fim após divulgação de texto final na madrugada desta quarta-feira (Leandro Fonseca/Exame)

Marina Filippe
Marina Filippe

Repórter de ESG

Publicado em 13 de dezembro de 2023 às 09h51.

Última atualização em 13 de dezembro de 2023 às 10h39.

A 28ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas, a COP28, chega ao fim com um texto que cita a transição para o fim do uso dos combustíveis fósseis, de modo a atingir as emissões líquidas zero até 2050. No total, o texto apresenta 196 tópicos sobre o que deve acontecer para mitigar os efeitos negativos das mudanças climáticas. Sobre o anúncio, especialistas ambientais se pronunciaram por meio de notas reunidas abaixo. Veja:

Andrew Deutz, diretor geral de Política Global e Financiamento para a Conservação na The Nature Conservancy

"A diplomacia ao longo da noite na COP28 transformou o texto que estava dividindo os países em um caminho para seguirmos em meio à emergência climática. (...) O que os negociadores concordaram na manhã desta quarta-feira representa, portanto, um passo na direção certa: um chamado para uma transição global que nos afaste de todos os combustíveis fósseis no texto final sinaliza que os governos estão finalmente abertos a lidar com o elefante na sala. Há dois anos, em Glasgow, os negociadores tiveram dificuldade em chegar a um acordo sobre a eliminação gradual e ininterrupta da energia a carvão. Há três anos, não diziam nada sobre combustíveis fósseis. As nossas expectativas são muito mais elevadas este ano – mas o cenário atual da mudança do clima mostra que elas realmente precisam ser altas.

Uma série de outros compromissos significativos também surgiram nas últimas duas semanas – desde o há muito debatido fundo para Perdas e Danos, que arrecadou quase 800 milhões de dólares em promessas, até um maior reconhecimento da contribuição das florestas, dos oceanos e de outros ecossistemas para a mitigação e adaptação às alterações climáticas, e finalmente sendo dada a devida atenção ao papel da agricultura e dos sistemas alimentares.

A questão central nas negociações deste ano foi garantir o consenso global sobre a eliminação progressiva da utilização de combustíveis fósseis - na verdade, reduzir o fornecimento de petróleo e gás. Mas também precisamos reduzir a procura de combustíveis fósseis na economia global”.

Ruth Davis, associada sênior da Smith School of Enterprise and Environment em Oxford

"Há muito tempo que a alimentação e a natureza mereciam mais espaço nos textos de negociação da COP. Pela primeira vez, a promessa de travar e reverter a desflorestação até 2030 tornou-se um resultado formal. E mais de 150 países comprometeram-se a incluir alimentos nos seus novos planos climáticos. O que precisamos agora é de cumprir o dinheiro."

Camila Jardim, especialista em Política Internacional do Greenpeace Brasil

“Ainda que com muitas falhas, esta versão do texto do Balanço Global é relativamente melhor que a apresentada anteriormente, mas os países ainda têm muito a fazer nesta reta final. Precisamos de metas mais robustas e mensuráveis quanto ao apoio à transição energética e à adaptação para países em desenvolvimento, especialmente com relação a financiamento, capacitação e transferência de tecnologia (o que deverá ser debatido com mais detalhe na COP 29).

Além disso, o texto apresenta como alternativas para essa transição falsas soluções que não têm comprovação de eficácia em larga escala, como soluções de geoengenharia e ‘combustíveis de transição’, o que pode ser uma desculpa para seguir utilizando o gás natural, um combustível fóssil menos intensivo em carbono que os demais”.

Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima

"Esse resultado da COP28, forte em sinais, mas fraco em substância, significa que o governo brasileiro precisa assumir a liderança até 2024 e estabelecer as bases para um acordo da COP30 em Belém que atenda às comunidades mais pobres e vulneráveis do mundo e à natureza. Ele pode começar cancelando sua promessa de se juntar à OPEP, o grupo que tentou e não conseguiu destruir essa cúpula. Sem uma ação real, o resultado de Dubai não será comemorado entre as comunidades de todo o mundo que estão sofrendo com os eventos climáticos extremos"

Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil

“O resultado da COP 28 reforça a importância de o Brasil se engajar fortemente no estreitamento da confiança entre os países para alcançarmos os resultados necessários na COP 30. Isso precisa começar já, durante a presidência do G20, onde será possível reforçar o comprometimento climático das maiores economias do planeta. Porém é preciso liderar pelo exemplo, o que significa que temos um grande desafio interno, já que parte do governo ignora a crise climática e trabalha para alinhar o Brasil ao grupo das nações responsáveis pelo quase fracasso da COP 28.

Prova disso é o leilão da ANP, que numa perversa coincidência acontece no mesmo dia em que a Conferência se encerra. A ciência é clara: a eliminação dos combustíveis fósseis é urgente e necessária para mantermos o planeta em níveis saudáveis. Tivemos avanços em questões relacionadas com preservação de florestas, fundo de perdas e sistemas alimentares, área importantíssima para o Brasil, mas isso não será suficiente para alcançarmos o 1,5°C, delimitado no Acordo de Paris.”

Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa

“Vencemos o impossível fim dos combustíveis fósseis - uma vitória retumbante sobre a diplomacia do óleo e do gás, que predominou nos últimos 30 anos . O Global Stock Take (balanço global) convoca os governos a seguirem um calendário claro e alinhado de transição dos combustíveis fósseis, que terá de se integrar ao cronograma da transição das economias para zero emissões líquidas até 2050. Isso significa que Países que apostam na expansão contínua da produção de petróleo, gás e carvão mineral terão que rever seus planos e indicar como e quando completarão sua transição.”

Javier Dávalos Gonzalez, Coordenador do Programa Climático da AIDA (Associação Interamericana para a Defesa do Meio Ambiente)

"No documento proposto para o Global Stocktake do Acordo de Paris, faltam a clareza e a ambição urgentemente necessárias para se tornar um instrumento útil para a próxima rodada de NDCs. Embora o texto mencione a redução do consumo e da produção de combustíveis fósseis de maneira justa e ordenada, as referências ao zero líquido (net zero) e à meta de fazê-lo até 2050 são evidências de que a COP28 não entendeu a urgência da transformação necessária. O fato de essa medida ser uma possibilidade para as partes, e não uma obrigação, nos leva a exigir mais ambição das partes no encerramento da COP".

Delcio Rodrigues, diretor do Instituto ClimaInfo

“O avanço na elaboração de um livro de regras para regular os mercados de carbono foi interrompido, com as decisões desafiadoras sendo adiadas para o próximo ano. Hoje os cawboys do carbono têm ampla margem de manobra. Negociado em meio a práticas questionáveis de apropriação de terras na África e a uma crise de integridade no mercado voluntário, o Artigo 6 poderia desempenhar um papel orientador crucial. Sua finalidade é proteger a todos nós por meio de um conjunto de normas comuns que nivelam o campo de jogo. Sem tais normas, corremos o risco de legitimar um ambiente tipo Velho Oeste. Isso é inaceitável e precisa ser abordado até 2024."

Caroline Prolo, fundadora do Laclima

"Se comparado com outras decisões das últimas COPs, o texto progrediu bastante ao inserir de forma explícita uma mensagem de abandono dos combustíveis fósseis, traz o tema da biodiversidade e da conexão com a Convenção de Diversidade Biológica, explicita os números das lacunas de financiamento, faz referências claras a implementação do Acordo de Paris com aspectos de gênero, direitos humanos e direitos das crianças e convoca a sociedade civil e atores não-estatais a continuar apoiando no desenvolvimento do regime climático.”

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