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COP27: plano de ação da ONU contra "inferno climático" só financia 6% do necessário

Antonio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, foi duro na fala contra a crise climática, mas maior parte do dinheiro necessário para adaptação nos países em desenvolvimento não veio

Antonio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas na COP27 (Sean Gallup/Getty Images)

Antonio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas na COP27 (Sean Gallup/Getty Images)

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Marina Filippe

Publicado em 7 de novembro de 2022, 12h03.

Última atualização em 9 de novembro de 2022, 06h02.

De Sharm El-Sheikh, no Egito.

A implementação do Acordo de Paris, iniciado em 2015, é a grande questão da COP27, a Conferência do Clima das Nações Unidas, que começou oficialmente neste domingo, 6, em Sharm el-Sheikh, no Egito, e ocorre até o dia 18. Nesta segunda-feira, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, foi duro ao cobrar uma resposta ao que ele chamou de "inferno climático".

Pouco depois, no entanto, anunciou um plano para mapear os riscos e antecipar as adaptações necessárias. O orçamento obtido: pouco mais de US$ 3 bilhões, uma fração dos mais de US$ 50 bilhões solicitados pelos países em desenvolvimento.

O desafio é grande. Um relatório publicado pela ONU mostra que, enquanto os países estão dobrando a curva das emissões globais de gases de efeito estufa para baixo, os esforços permanecem insuficientes para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 grau Celsius até o final do século.

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Para mudar este cenário, é preciso urgência. Mas, desde a COP26, que ocorreu há um ano em Glasgow, apenas 29 dos 194 países apresentaram planos nacionais mais rígidos. Para o secretário-executivo da ONU sobre Mudanças Climáticas, Simon Stiell, é hora de transformar as negociações em ações concretas ao se trabalhar com mitigação, adaptação, financiamento e perdas e danos, ao mesmo tempo que intensifica o financiamento para combater os impactos das mudanças climáticas. "Este é o ponto decisivo desta e de todas as COPs futuras até que as deliberações avancem".

Plano de ação

Para mostrar que essa é a COP da ação, um plano foi lançado nesta segunda-feira, 7. Nele há a previsão de US$ 3,1 bilhões investidos entre 2023 e 2027 para mapeamento do risco de desastres, observações e previsões, preparação e resposta e comunicação de alertas precoces. O valor, contudo, é cerca de 6% dos US$ 50 bilhões solicitados em financiamento para países que mais necessitam.

Por outro lado, a Comissão Global de Adaptação descobriu que gastar apenas US$ 800 milhões em tais sistemas nos países em desenvolvimento evitaria perdas de US$ 3 bilhões a US$ 16 bilhões por ano.

Guterres afirmou que o plano foi elaborado pela Organização Meteorológica Mundial e parceiros, e foi apoiado por uma declaração conjunta assinada por 50 países.

"As emissões cada vez maiores de gases de efeito estufa estão sobrecarregando os eventos climáticos extremos em todo o planeta. Essas calamidades crescentes custam vidas e centenas de bilhões de dólares em perdas e danos. Três vezes mais pessoas são deslocadas por desastres climáticos do que por guerras. Metade da humanidade já está na zona de perigo”, disse Guterres.

Mais cedo, antes do lançamento do plano de ação, Guterres disse, na COP27, que “Esta conferência é um lembrete de que o relógio está correndo. Estamos na luta pela nossa vida e estamos perdendo. As emissões de gases de efeito estufa continuam crescendo. As temperaturas globais continuam subindo. Nosso planeta está se aproximando rapidamente de pontos de inflexão que tornarão o caos climático irreversível. Estamos na estrada para o inferno climático com o pé no acelerador”, afirmou. 

De acordo com o executivo, antecipar riscos de tempestades, ondas de calor, inundações e secas é fundamental. "Todas as pessoas na Terra devem estar protegidas por sistemas de alerta precoce dentro de cinco anos, com a prioridade de apoiar primeiro os mais vulneráveis".

Atualmente, metade dos países no mundo não possui sistemas de alerta precoce e estruturas regulatórias para vincular alertas precoces a planos de emergência. A cobertura é pior para os países em desenvolvimento na linha de frente das mudanças climáticas, ou seja, os países menos desenvolvidos e insulares.

“A ciência existe e mostra claramente a urgência com que devemos agir para ajudar aqueles que precisam de apoio a se adaptarem aos impactos negativos das mudanças climáticas. O lançamento deste Plano de Ação Executivo é uma contribuição importante para a adaptação e resiliência, particularmente na África, onde 60% das pessoas não estão cobertas por sistemas de alerta precoce", disse Sameh Hassan Shoukry, ministro egípcio das Relações Exteriores e presidente da COP27.