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Ai daqueles e daquelas, entre nós, que pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de anunciar. Ai daqueles e daquelas que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, ai daqueles que em lugar desta constante viagem ao amanhã, se atrelem a um passado de exploração e de rotina.”

Paulo Freire

Nos últimos sete anos da minha vida, o ativismo social tem sido a arena de lutas, esperanças, frustrações e conquistas. Por meio delas, fui aprendendo a distinguir diferentes formas de ativismo, que levam a caminhos e experiências completamente diferentes. Lembro-me da reflexão síntese do clássico “Cidade de Deus”, em que Agostinho de Hipona expõe a sua visão histórico-espiritual da ruína do Império Romano do Ocidente pela constatação: “dois amores construíram duas cidades”. Naquele período de mudanças cataclísmicas, assim como agora, é a inteligência do coração, o amor, enfim, que direciona a atividade humana, o seu ativismo e a legitimidade de seus efeitos.

Como conceito, a definição de ativismo é bastante abrangente, referindo-se à ação direta em apoio ou oposição a alguma política pública, questão política ou causa social ou ambiental. Esta definição é ampla o suficiente para abarcar diferentes formas de atuação.

Por exemplo, na luta pelos direitos civis dos afro-americanos da década de 50/60, tanto o protesto pacífico de Martin Luther King quanto o segregacionismo de Malcon X se enquadram no conceito de ativismo, apesar das diferenças metodológicas e morais evidentes. Tenho observado, de forma análoga, duas principais vertentes de ativismo no ecossistema do investimento e do ativismo social: o primeiro com base moral na esperança e o segundo, com base no ressentimento.

O ativismo da esperança busca a transformação, acreditando, em primeiro lugar, que ela é possível a partir de um novo pacto civilizatório. Ele pressupõe uma mudança de patamar de consciência que transcenda a lógica dos sistemas de opressão. O ativismo do ressentimento, atrelado à correção do passado, frequentemente propõe uma mudança dos polos de opressor e oprimido, mantendo a dinâmica de segregação. O primeiro é uma casa construída por todos e para todos. O segundo mantém a planta da casa, com diferentes inquilinos nos compartimentos segregados.

A principal crítica ao ativismo baseado na esperança é que ele alegadamente transfere para outros a responsabilidade pela mudança: uma atitude passiva e negligente. Esta crítica baseia-se em uma incompreensão do que seja a esperança. A palavra esperança pode ser equivocadamente associada à ideia de ‘esperar’, embora refira-se ao verbo ‘esperançar’.

A esperança é alicerçada no presente em sua relação causal com o futuro: a ideia de que uma intervenção refletida e intencionada hoje pode ajudar a construir o futuro desejado. Esperançar, portanto, é um convite à ação, à resiliência, à criatividade, à luz da conexão entre ação presente e efeito futuro.

A esperança, exatamente porque refere-se a uma visão de futuro, acomoda a incerteza. Ela não é dogmática, nem determinista. Porque recusa o dogmatismo, admite a flexibilidade, a construção coletiva, os ajustes de rota, o “fazer juntos, de um jeito diferente[1]”. É uma recusa à engrenagem da repetição e uma afirmação da capacidade humana de retificação, de inovação de regeneração. A esperança existe no presente, ligada ao futuro, mas não existe no passado.

Ela não tenta negar, corrigir, ou modificar o passado, evitando o ativismo aprisionado a um passado imutável. Ela nos liberta para fazer visitas ao futuro, juntas, exercitando nossa capacidade de sonhar juntos e colocar estes sonhos em movimento pela ação no aqui e agora.

Quando este exercício parece vão, tento trazer à consciência os motivos para continuar esperançando: em 2023 foram muitas as conquistas para os direitos das mulheres, entre as quais destaco o lançamento do Mapa Nacional da Violência, uma plataforma de dados abrangente, rigorosa, com dados do executivo, legislativo e judiciário para o aprimoramento das políticas públicas para as mulheres.

Resultado de um trabalho colaborativo entre o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), a Procuradoria da Mulher no Senado, o Ministério da Justiça, o Instituto Avon e a organização de jornalismo de dados Gênero e Número, a iniciativa é uma prova vida de que é possível fazer diferente, melhor, juntos.

Tanto o ativismo do ressentimento quanto o da esperança perpassam a consciência e a experiência de cada um de nós. Resistir ao chamado do primeiro e exercitar o segundo à exaustão, até que se torne uma forma de ser e agir no mundo, é condição para celebrarmos a entrada um novo ano.

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