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“Desenvolvimento científico é questão de vontade política”, diz Lygia Pereira

Homenageada do Prêmio Mulheres Exponenciais, ela é uma das mais importantes cientistas do País e criou o primeiro camundongo transgênico brasileiro

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Lygia Pereira é uma das mais renomadas cientistas do mundo, chefe do Laboratório de Células-tronco Embrionárias da USP, e autora de livros sobre clonagem. (Esfera Brasil/Reprodução)

Lygia Pereira é uma das mais renomadas cientistas do mundo, chefe do Laboratório de Células-tronco Embrionárias da USP, e autora de livros sobre clonagem. (Esfera Brasil/Reprodução)

Considerada uma das mais renomadas geneticistas do mundo, Lygia da Veiga Pereira fez parte do grupo que criou o primeiro camundongo transgênico do Brasil, produzindo modelos para o estudo de doenças genéticas. Ela também se dedica ao sequenciamento genético da população brasileira como forma de prevenir doenças e já figurou na lista das 100 personalidades mais influentes no Brasil e no mundo. Pelas contribuições científicas ao País, é uma das homenageadas do Prêmio Mulheres Exponenciais 2023, realizado pela Esfera Brasil e pela Conecta.

A cientista, que é professora titular e chefe do Laboratório de Células-Tronco Embrionárias da USP (Universidade de São Paulo), afirma que a homenagem é o reconhecimento pelo trabalho realizado, “mas também um incentivo que me diz: ‘Você está indo na direção certa, estamos te apoiando’”.

Carioca, Lygia fez doutorado nos Estados Unidos e se mudou para São Paulo com vistas a agarrar a oportunidade de financiamento à pesquisa acadêmica fornecido pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

“Um enorme desafio, aqui no Brasil, é você encontrar apoio e financiamento para a ciência. O desenvolvimento científico é uma questão de vontade política”, destaca. “Com o projeto dos camundongos transgênicos, eu ganhei a verba que financiou a criação do meu laboratório todo. Se tratava de uma ferramenta de pesquisa muito poderosa que havia sido desenvolvida nos Estados Unidos”, acrescenta.

A pesquisa foi tão importante na carreira de Lygia que, na mesa de trabalho no laboratório da USP, ela exibe duas fotos: uma da primeira filha ainda criança e uma do primeiro camundongo transgênico brasileiro. “Foi muito bacana, porque a gente conseguiu construir isso tudo do zero, fazer a célula-tronco embrionária e a modificação genética”, destaca.

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Mais tarde, ela também foi responsável pela criação das primeiras células-tronco embrionárias humanas do Brasil. Mas o caminho não foi fácil: como a maioria das mulheres, ela precisou decidir entre se dedicar à carreira profissional ou ser mãe. “Minhas amigas estavam casando e começando a ter filhos, e eu estava terminando meu doutorado. Há uma certa dor aí. Minha primeira filha foi a minha produção científica”, diz.

Aos 56 anos, Lygia é mãe de duas mulheres e lembra da dificuldade inicial em conciliar a maternidade com a carreira. “Até você conseguir equilibrar a maternidade com a vida profissional, passa por um período muito sofrido. Mas depois a gente equaciona, e tudo dá certo.”

Mulheres na ciência

Apesar de não ter se sentido prejudicada por ser mulher, a geneticista destaca que, ao observar as lideranças das sociedades científicas, universidades e agências de fomento, é fácil perceber que os postos ainda são majoritariamente ocupados por homens.

“Se você olha para cima e não vê ninguém igual a você, talvez seu inconsciente entenda que ali não é o seu lugar, porque você não tem uma referência. Ainda assim, o mundo da ciência é infinitamente melhor nesse sentido do que, por exemplo, o mundo das finanças”, compara do ponto de vista da desigualdade de gênero.

Ela comemora o fato de Luciana Santos, a primeira mulher ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, ter assumido a pasta, mas não se esquece de outros nomes de destaque, como Helena Nader, a primeira presidente da Academia Brasileira de Ciências.

Terapia gênica

Recentemente indicada à vice-presidência da International Society for Stem Cell Research (Sociedade Internacional para a Pesquisa de Células-Tronco), Lygia foi para os Estados Unidos, ainda em 1989, estudar as terapias que usam o gene como agente terapêutico. Só nos últimos anos, porém alguns dos produtos que resultaram desses estudos chegaram ao mercado – em geral, muito caros.

“Para diminuir o custo, é fundamental desenvolver essas competências no País. Nosso grupo habilitou muitos outros grupos no Brasil e na América Latina a utilizar as células-tronco como ferramenta para pesquisa e como insumo para desenvolver novas terapias. Isso é muito importante, porque coloca o Brasil em sintonia com o desenvolvimento científico mundial”, afirma.

Empreendedorismo e legado

Depois de anos dedicados somente à pesquisa, Lygia agora também é empreendedora. Ela é fundadora e CEO da Gen-t, projeto que surgiu a partir de outro, o DNA do Brasil da USP, que tornou-se um programa do Ministério da Saúde que estuda as variações genéticas da população brasileira. A ideia é entender as pequenas particularidades genéticas que diferenciam cada ser humano e, a partir disso, desenvolver a medicina de precisão.

“Hoje, no mundo, 90% do que é feito é com populações brancas. O Brasil é essa mistura maravilhosa, de povos indígenas, africanos e europeus, e a gente tem uma diversidade que não está sendo contemplada nesses estudos. Por isso que a gente precisava conhecer o genoma da nossa população”, explica.

A cientista viu na diversidade genômica uma oportunidade para inovação no desenvolvimento de novos medicamentos. Ela tem conseguido atrair investimentos do setor privado para o programa, além de recrutar voluntários para pesquisa.

“Analisamos o genoma e fazemos um check-up das pessoas que não frequentam os hospitais de alta classe, porque é justamente na população negligenciada que está a nossa diversidade. Isso já tem sido uma experiência legal, a gente já está devolvendo. Só com os check-ups, já estamos identificando riscos à saúde que as pessoas nem sabiam”, relata.

As conquistas no meio científico são inegáveis, mas Lygia não se esquece da relevância de seu papel como professora titular de Genética. Só na USP, são 26 anos de história. “A coisa mais importante que o docente faz é a formação de alunos e de novos pesquisadores. É um papel lindo e fundamental, porque é um efeito multiplicador. Vou poder fazer algumas coisas durante a minha vida, mas eu quero passar esse bastão para as próximas gerações. Acho que esse é o ponto de maior responsabilidade”, diz.

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