Economia
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Picanha com preço de patinho: baixa demanda reduz valor de cortes nobres

Enquanto mignon e picanha tiveram queda de preço, coxão duro e fraldinha registram aumento. Guerra na Ucrânia também tem impacto

Picanha: preço caiu 0,16% no primeiro trimestre deste ano (Fabiane Stefano/Exame)

Picanha: preço caiu 0,16% no primeiro trimestre deste ano (Fabiane Stefano/Exame)

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Gilson Garrett Jr

8 de abril de 2022, 10h51

Quem vai ao mercado já sabe que está mais caro comprar os itens básicos de alimentação. Mas um movimento contrário ocorre com as carnes nobres desde o começo deste ano. Enquanto o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da proteína bovina teve um aumento de 4,70%, de janeiro a março, o filé mignon e a picanha registraram queda. Só o mignon caiu 13,83% nos três primeiros meses do ano, e a picanha, 0,16%.

Em contrapartida, cortes que geralmente são mais baratos e menos nobres aumentaram. O patinho subiu 4,64% em 2022, e o coxão duro teve uma alta de pouco mais de 4%. O IPC dos alimentos teve uma alta de 14,89% nos últimos 12 meses até março, e 5,99% somente nos três primeiros meses de 2022. A inflação geral está em 10,96% nos últimos 12 meses e em 2,95% desde o começo do ano. Os dados são calculados pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas (Fipe).

Uma explicação tem ligação com a oferta e demanda, como detalha Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe. “A procura interna por carne caiu muito nos últimos meses. Quem comprava picanha agora compra carnes menos nobres e por isso tem mais oferta. O comerciante então consegue dar um desconto maior, porque lá na ponta o produto está mais barato”, diz.

Outra justificativa para a queda também tem relação com um aumento acima da inflação no ano passado. Moreira lembra que, no caso do filé mignon, teve uma subida de preços no fim do ano passado, e que nos últimos três meses houve uma recomposição do valor, o que é uma tendência normal da economia.

Esse vaivém dos preços é sentido justamente nos supermercados. Na rede Hirota Food Supermercados, com lojas na Grande São Paulo, o filé mignon chegou a passar dos R$ 100 o quilo no fim de 2021, e no momento é vendido abaixo deste patamar. Como há bastante oferta do produto, a rede consegue reduzir a margem de lucro e fazer promoções em dias especiais a R$ 69, o quilo. Na quarta-feira, 6, a reportagem encontrou picanha vendida em promoção a R$ 49,90, o quilo, e o patinho a R$ 48,90, também o quilo.

“O volume de churrasco está repensado pelo consumidor. Houve uma queda de 30% na procura por cortes mais nobres no último ano por conta do preço. Para trazer um valor mais em conta ao consumidor, negociamos com frigoríficos menores. Eles também sentiram a baixa na procura por filé mignon e picanha. Muitos clientes nem perguntam o preço, com medo”, diz Hélio Freddi Filho, diretor de expansão e comunicação do Hirota Food Supermercados.

Para tentar sair dos preços mais altos da carne bovina, muitos consumidores estão trocando por ave ou porco. No acumulado dos últimos 12 meses até março, o preço do frango teve um aumento de 15,95%, mas nos três primeiros meses do ano registra uma queda de 7,51%. A carne suína tem uma queda de 9,65% no acumulado, e de 8,05% entre janeiro e março, segundo a Fipe.

Esta redução também tem relação com a guerra na Ucrânia. A Rússia é um grande comprador de frango do Brasil quinto maior , com uma média de US$ 5,5 milhões, segundo dados do Ministério da Economia. Com a série de sanções impostas pelo ocidente, e o conflito, ficou mais difícil exportar o produto para o país europeu, e aumentando a oferta interna.

“As aves registraram nossa principal evolução de venda no último ano, com 30%. O aumento, apesar de em valor ser pouco, em percentual está acima da inflação. De qualquer forma, o frango ainda é mais barato que a carne bovina. Nos próximos dias, vamos fazer um festival de carne de porco para aproveitar a queda no preço”, afirma Hélio Freddi Filho.

Alta no preços dos alimentos

Na pesquisa EXAME/IDEIA do dia 22 de março, 29% dos brasileiros disseram que perceberam nos alimentos e nas bebidas o maior aumento de preços. Foi o segundo item mais mencionado, só atrás da inflação dos combustíveis, que foi apontado por 46% dos entrevistados.

(Arte/Exame)

Mais da metade das pessoas, 57%, acha que a inflação é o maior problema do Brasil neste momento e que ele precisa ser resolvido ainda em 2022. O desemprego aparece logo na sequência, com 19% das pessoas dizendo ser o maior problema do país, seguido pela pobreza (12%), e da violência (6%).

A pesquisa ainda questionou as pessoas sobre a maior preocupação pessoal. E a inflação também aparece como a maior inquietação, para 36%. Logo depois vem “sustentar a família”, com 14%, e a Guerra da Ucrânia, com 12%. Fome e a miséria aparecem com 9% da preocupação dos brasileiros.

A sondagem ouviu 1.284 pessoas entre os dias 15 a 17 de março. As entrevistas foram feitas por telefone, com ligações tanto para fixos residenciais quanto para celulares. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa EXAME/IDEIA é um projeto que une EXAME e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. Leia o relatório completo.