Economia

Escala 6x1: redução de jornada vai gerar demissões, diz presidente da Abimaq

José Velloso sugere que país adote modelo de remuneração por hora, e não mensal, em contratos CLT

José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq) (Divulgação)

José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq) (Divulgação)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 23 de abril de 2026 às 10h55.

Última atualização em 24 de abril de 2026 às 15h47.

Hanover* - A redução da jornada de trabalho, debatida em meio ao projeto de fim da escala 6x1, afetaria a produtividade do país e geraria demissões após sua implantação, avalia José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq).

Na noite de quarta-feira, 22, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara deu parecer favorável à tramitação da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da jornada 6x1 (seis dias de trabalho e 1 de descanso).

O texto segue para uma comissão especial, que definirá os passos da mudança, como a mudança de carga horária de trabalho e eventuais compensações. Depois disso, haverá votação em Plenário.

"O Brasil já tem produtividade baixa. Vai piorar o que é ruim. Eu não discuto 6 por 1. Eu concordo que uma pessoa que fica horas no transporte para ir, para voltar e que é mal remunerada e que ela queira ficar mais tempo com a família. Isso é totalmente do jogo e da política. Não vou discutir isso. Agora, o que eu discuto é a redução de jornada", disse Velloso, em conversa com a EXAME, durante a feira Hannover Messe, na Alemanha.

"Eu discuto a jornada porque vai aumentar custo, vai diminuir produtividade, e com isso diminui a nossa competitividade e vai precarizar emprego. Os produtos vão ficar mais caros e o funcionário vai ganhar menos. Alguém perguntou para a pessoa de baixa renda se ele topa pagar mais caro e ganhar menos? Porque esse negócio de você falar 'ah, eu vou colocar na lei que reduz a jornada e não pode reduzir o salário' é balela. Tem turnover", diz, em referência à troca de funcionários das empresas, seja por demissões ou pedidos de saída por parte dos empregados.

"A indústria, o comércio, todo mundo faz turnover. Quando você pega um município onde tem um sindicato forte e ele aumenta o salário constantemente acima da inflação, ou seja, aumento de produtividade que eles colocam no salário sem ter tido a produtividade, o que essa empresa faz? Turnover", afirma.

Comparação com domésticas

Velloso também comparou a situação à do trabalho doméstico, que passou a ter maior regularização na década passada.

"Vamos pegar o caso do eSocial. Não tenho nada contra você registrar sua empregada doméstica, e a gente era a favor disso lá na reforma. Só que eles deixaram muito caro, colocaram muitos encargos para empregar uma empregada doméstica. O que aconteceu? Quem tinha uma empregada doméstica tem duas diaristas, que não têm registro nenhum. Antes tinha registro", afirma.

Velloso diz que o setor industrial já é adepto da escala 5x2, com jornada de 44 horas semanais, e que um aumento da produtividade também depende do total de máquinas e de automação de cada país.

"O Brasil hoje tem 10 robôs a cada 10 mil trabalhadores. A média do mundo é 169 robôs a cada 10 mil. 169 a cada 10 mil. Nós temos 10. A Alemanha tem 470. Os Estados Unidos têm 470. A China, 430 robôs a cada 10 mil trabalhadores. E a Coreia, 1.050. Nós temos 10", afirma.

Fim do modelo mensal

Ele defende, ainda, que o Brasil adote a possibilidade de trabalho por dia ou semana, em vez do modelo mensal em vigor atualmente.

"Nos Estados Unidos, é semanal. Aqui na Europa, você tem a opção se é horista ou mensalista. O que eu acho legal para um país que nem o Brasil, é tirar as 40 horas semanais, ou 44, e fazer remuneração horária", diz.

"Aí, eu tenho uma farmácia, por exemplo, que no sábado, no domingo, ela abre às 2 horas da tarde, no shopping. Eu contrato um cara que trabalha das duas às oito. Aí, vai ser livre negociação, é livre mercado", afirma.

*O repórter viajou a convite da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo. 

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