Com a inflação em alta, o risco da indexação continua a assombrar

O Brasil enfrenta uma aceleração nos índices de preços em razão da alta de itens como energia e alimentos, ativando um intrincado processo de indexação da economia
 (naulicreative/Getty Images)
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Fabiane Stefano

Publicado em 07/07/2021 às 09:32.

Última atualização em 07/07/2021 às 15:59.

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O Brasil tem 11 índices de inflação. Com metodologias diferentes, o objetivo de cada um deles é medir a variação dos preços que afetam a vida dos brasileiros e os negócios das empresas. E, consequentemente, servem de instrumento para repor as perdas do poder de compra da moeda.

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O índice mais famoso hoje no país é o IPCA, que mede os preços ao consumidor e é elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É também o índice oficial da inflação no país. O mais polêmico — pelo menos, por ora — é o IGP-M, medido pela Fundação Getulio Vargas, que ficou conhecido como o “índice dos aluguéis”, mas que, por refletir a alta variação do dólar e dos preços das commodities, acabou subindo 35,7% nos últimos 12 meses.

E há o mais novo índice na praça. Hoje, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) lança o IPC 60+, que irá acompanhar os preços que afetam o orçamento das famílias de pessoas com mais de 60 anos de idade. No Brasil, 34 milhões de pessoas compõem essa faixa da população.

“O grupo dos idosos foi um dos que mais sofreram na pandemia”, diz Guilherme Moreira, coordenador do novo índice da Fipe e do tradicional IPC, um dos mais antigos indicadores de inflação do país e que monitora o consumo na cidade de São Paulo.

A metodologia do índice 60+ é a mesma que já vem sendo aplicada pelo IPC, mas os pesos foram reestimados em razão desse recorte populacional. Os itens relacionados à saúde, por exemplo, representam 16,3% na cesta de compras das pessoas de 60 anos ou mais, enquanto que para a população geral eles pesam 6%. Já serviços como transporte e educação têm impacto bem menor para os gastos dos idosos.

No lançamento do novo índice, a Fipe comparou o desempenho dos índices: em 2020, o IPC registrou um aumento de preços de 5,62%. Já a inflação para as pessoas com mais de 60 anos foi de 5,95%. No acumulado de 2021, a inflação para os mais velhos corre num ritmo menor e quase empata com índice geral: 3,43%, em comparação 3,50% no IPC. A expectativa é que ambos indicadores fechem 2021 entre 6% e 7%.

A despeito de informações valiosas que o novo índice 60+ e outros em uso no país possam trazer, os economistas são unânimes: há um excesso de índices de inflação no Brasil e a explicação desse fenômeno está na indexação da economia.

“O que não falta é trabalho para os economistas que lidam diarimente com inflação no Brasil”, diz o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central entre 2003 e 2006 e que hoje comanda a consultoria Schwartsman e Associados.

Resquício do passado inflacionário, o Brasil é um dos países que mais têm índices que monitoram a inflação. Nos Estados Unidos, por exemplo, há três indicadores: dois de preços ao consumidor (CPI e PCE) e um de preços aos produtores (PPI). O farto número desse indicador por aqui mostra como o nosso passado inflacionário continua enraizado na economia brasileira.

“O Brasil matou o dragão da inflação, mas ainda brinca com os seus ossos no jardim”, costuma dizer André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos. Para ele, o brasileiro “tem a alma indexada” e os riscos nessa seara estão sempre à espreita.

É fato que o país superou o ciclo pernicioso da hiperinflação. Nos anos 1980 e começo dos 90, o Brasil convivia com taxas mensais que chegaram a 40% ao mês. Em 1994, foi o lançado o Plano Real para conter a escalada voraz dos preços.

Apenas em 1999, porém, foi quando o país passou a adotar o regime de metas para a inflação, cujo objetivo é ancorar as expectativas dos agentes econômicos sobre a inflação futura. O centro da meta para 2021 é de 3,75%, com um intervalo que varia de 2,25% e 5,25% — números que dificilmente serão cumpridos. De acordo com o Boletim Focus, a inflação projetada para o fim do ano já aponta para 6,1%.

Mas passadas quase três décadas de estabilização monetária, os mecanismos de reajustes de salários, aluguéis, escolas, planos de saúde e uma infinidade de serviços e produtos seguem firmes.

“O Brasil continua olhando para o retrovisor, mirando muito mais na inflação passada do que na expectativa da inflação futura”, diz o economista Sergio Vale, da MB Associados. “Isso ocorre porque, no final das contas, uma inflação de 4%, 5% ao ano, é considerada alta para os dias de hoje, em comparação com muitos países.”

Para Vale, quanto mais baixa é a inflação, mais fácil fica romper com a cultura da indexação. “Por isso, uma meta de inflação de 3% é tão importante”, diz. O Conselho Monetário Nacional definiu no final de junho que o centro da meta para 2024 será de 3%.

Meta de inflação

Já Schwartsman aponta que o comportamento defensivo na economia é reflexo da falta de um histórico mais consistente de previsibilidade quando o assunto é inflação. “Em 22 anos de regime de metas de inflação, tirando os anos que o Brasil estourou a meta e tirando aqueles que ficou bem acima do centro, sobram poucos que a expectativa de inflação se cumpriu.”

O economista lembra que em 2015, por exemplo, o IPCA fechou o ano em 10,67%, em razão de fortes aumentos de preços administrados naquele ano — apenas a energia elétrica subiu 50%. O Brasil vive uma situação similar agora em 2021.

Com a maior crise hídrica dos últimos 100 anos, os aumentos de tarifa de energia já vêm sendo capturados pelos índices. Em maio, a conta de luz foi o item que mais pesou no IPCA, que avançou 8,06% nos últimos 12 meses, quando passou a vigorar a bandeira tarifária vermelha patamar 1. Em junho, passou a ser cobrado o patamar 2.

Os alimentos também vêm sofrendo fortes aumentos: nos últimos 12 meses, por exemplo, o óleo de soja subiu 86,9%; o feijão fradinho, 58%; e arroz, 51%.

Aluguéis e salários

André Perfeito, da Necton, recorre à clássica definição imortalizada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, para também explicar a cultura da indexação na economia brasileira. “O brasileiro é um ser cordial, que evita os embates. É mais fácil, portanto, delegar a um índice do que negociar.”

É verdade também que a realidade vem se impondo e alguns índices estão perdendo "espaço". No caso do IGP-M, o índice dos aluguéis, que subiu 35,7% nos últimos 12 meses, tem sido substituído nas negociações entre locatários e inquilinos.

"O IGP-M captura a variação dos custos na indústria, por ter uma alta influência do dólar e das commodities. Não faz o menor sentido ser usado para reajustar aluguéis", diz André Braz, coordenador do núcleo de preços do Ibre/FGV.

No passado, IGP-M e IPCA andavam juntos, mas o descolamento recente já chegou até o Congresso Nacional. O deputado federal Vinicius Carvalho (Republicanos-SP) criou um projeto de lei (PL 1.026/2021) para estabelecer que o reajuste dos aluguéis residenciais e comerciais não ultrapasse o IPCA. 

No caso dos salários, a maioria dos reajustes salariais tem ficado abaixo da apuração do INPC do IBGE, o índice utilizado na correção salarial (o foco deste indicador são as famílias com renda entre um e cinco salários-mínimos). De acordo com o Dieese, entidade de estudos estatísticos mantida pelo movimento sindical, no acumulado de 2021, 29% das negociações salariais aplicaram integralmente o índice; 12,3% obtiveram ganhos reais e 58,7% ficaram abaixo do índice.

"Nas renegociações salariais, para a grande maioria das categoriais, não se discute produtividade ou outros fatores que afetam a remuneração dos trabalhadores, seja para mais ou para menos", diz Vale. "A economia brasileira continua olhando para o passado."

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