(Imagem gerada por IA/EXAME)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 14h28.
Por que, em sucessivas eleições presidenciais, os candidatos não assumem solenemente o compromisso de transformar o Brasil em um país de grande e robusta classe média? Não apenas combater a pobreza ou estimular o consumo, mas fazer da prosperidade, da mobilidade social e da formação de patrimônio um objetivo nacional inegociável. Essa é, a meu ver, a promessa ausente da política brasileira, e as eleições, a oportunidade de fazê-la. Daí emerge a pergunta do trilhão: por que aceitamos essa ausência com tanta naturalidade?
Os Estados Unidos compreenderam há muito a força dessa ideia. Reagan falou em crescimento e oportunidade; Clinton, na “classe média esquecida”; Obama, nas escadas de acesso à classe média; Trump, com MAGA, recuperou a promessa de emprego, renda e prosperidade. Divergem sobre os meios, mas a possibilidade de subir na vida permanece no centro da promessa americana: revigorar o American Dream.
A China percorreu outro caminho. Desde Deng Xiaoping, enriquecer passou a integrar o projeto nacional. Quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema em quatro décadas. Xi Jinping estabeleceu o degrau seguinte: ampliar a população de renda média. Entre 2012 e 2022, a remuneração do trabalho das famílias chinesas cresceu, em média, 9% ao ano.
E o Brasil? Aqui confundimos consumo com prosperidade. Transferências são indispensáveis para proteger os vulneráveis, mas social-consumismo não é desenvolvimento. Sem produtividade, investimento e crescimento permanente da renda, temos o voo de galinha: consumo, endividamento, inflação, juros e estagnação.
Prosperidade é outra coisa: renda crescente, educação, casa, poupança, patrimônio, empreendimento e segurança. É permitir que o trabalhador ascenda à classe média e que quem chegou lá não viva permanentemente ameaçado de despencar. É subir, permanecer e permitir que a próxima geração suba ainda mais.
Por que nunca fizemos disso um compromisso nacional? Porque, no Brasil, a prosperidade é negociada no altar dos interesses paroquiais, corporativos e setoriais. Ela é o item negociável.
Aqui surge uma palavra escondida: amoralidade. A imoralidade é mais visível: viola regras, produz escândalos, permite identificar responsáveis. A amoralidade é mais esquiva. Esconde-se na burocracia, nas ideologias e nos interesses corporativos, públicos e privados, e pode até revestir-se da aparência do justo. Cada setor encontra uma razão legítima para defender sua parte e, amparado nela, deixa de responder pela consequência sobre o todo. A justificativa pode ser moral; o resultado coletivo, amoral. Quando todos conseguem explicar por que estão certos, mas ninguém responde pelo resultado, a responsabilidade pelo país se dissolve.
A própria EXAME publicou estimativa da MoveInfra: mais de 3.500 projetos aguardavam licenciamento ambiental, associados a cerca de R$ 1,7 trilhão em investimentos. E isso não mede o capital que sequer virou projeto porque, diante da demora e da imprevisibilidade, procurou outro destino. Tire a tampa e veja: a amoralidade, ali.
Preservar e licenciar com rigor são obrigações. Desenvolvimento é negociável. Caminhos, limites e prioridades precisam ser democraticamente discutidos. O que deve estar definido ex ante é sua finalidade: a prosperidade do povo brasileiro. O tempo também tem consequências morais: investimentos responsáveis que demoram anos desnecessários significam empregos que não nasceram, salários que não foram pagos e famílias que deixaram de ascender.
O mesmo vale para juros, dívida, burocracia, impostos, educação e saúde. O Brasil precisa de reformas, mas reforma não é finalidade; é instrumento. Não se pode pedir mais sacrifícios à população para depois negociar os frutos da modernização no mesmo altar das conveniências.
O Brasil já ensaiou outro caminho. O Plano Real devolveu estabilidade e poder de compra. As reformas do governo Temer mostraram que mudanças institucionais podem reorganizar a economia. Em Estrada para o Futuro, Temer propõe a continuidade das reformas modernizantes e um pacto nacional pela pacificação do país.
É exatamente esse pacto nacional que proponho detalhar.
Rousseau pensou o contrato social como expressão de uma vontade comum. Qual deveria ser o pacto social brasileiro do nosso tempo?
A cláusula número um deve ser transformar o Brasil em uma sociedade de classe média ampla, robusta e perene, fazendo da prosperidade e da ascensão social uma finalidade nacional.
Da microempresa ao investimento internacional; da escola à inteligência artificial; da saúde à infraestrutura; do equilíbrio fiscal ao licenciamento responsável: tudo deve responder à mesma pergunta: isso ajuda ou impede o brasileiro de subir na vida?
Há uma expectativa crescente de prosperidade no país, presente inclusive no universo pentecostal. Milhões de brasileiros não querem apenas proteção contra a pobreza. Querem prosperar.
Por isso, nestas eleições, esse compromisso deveria ser escrito, assinado e registrado em cartório. Não porque um cartório produza riqueza, mas para deixar inequívoco aquilo pelo qual o eleito aceita ser cobrado.
Um pacto social não serve para eliminar interesses. Estabelece aquilo que está acima deles. Combater a pobreza é o primeiro degrau; o compromisso de construir uma classe média perene é a inspiração nacional.
Democracia é negociação. Desenvolvimento, reformas, meios e prazos são negociados. A finalidade não mais pode ser negociada no altar das conveniências.
Que fique definido ex ante, escrito e assinado: nada afastará o Brasil da prosperidade de seu povo.
Essa é a cláusula número um.
Tudo pode ser negociado, menos a prosperidade do povo brasileiro.