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Se nos concentrarmos nas pessoas, nosso sucesso estará garantido, afirma Sandro de Castro Gonzalez

Na coluna desta semana, conheça a história de Sandro de Castro Gonzalez, presidente do Conselho Administrativo da Transpes

Sandro de Castro Gonzalez: se nos concentrarmos nas pessoas, nosso sucesso estará garantido (Divulgação)

Publicado em 17 de novembro de 2023 às 12h21.

Minha história é uma verdadeira jornada inspiradora, arraigada no seio de uma empresa familiar, onde o meu pai, Tarcísio, é o protagonista. Ele foi um imigrante europeu que desembarcou no Brasil na década de 1950, vindo da Espanha com um sonho muito claro: tornar-se um caminhoneiro e percorrer as estradas do nosso vasto país. Naquela época, a Espanha enfrentava conflitos e uma ditadura, levando-o a buscar refúgio e oportunidades aqui no Brasil, que prontamente o acolheu de braços abertos.

Curiosamente, a escolha do Brasil como seu destino foi um tanto inesperada. Inicialmente, ele planejava seguir até Buenos Aires. Meu pai havia chegado de navio e, durante uma breve escala no Rio de Janeiro, onde passaria apenas alguns dias, ele teve a oportunidade de se encontrar com um primo, que também morava no Brasil. O que então seria uma parada temporária se transformou em uma moradia, onde permaneceu durante alguns anos. Durante este período no Rio de Janeiro, ele se sustentou trabalhando em feiras livres, fazendo trabalhos temporários e vendendo uma variedade de produtos. Mas o destino é uma força misteriosa e, em breve, uma oportunidade única cruzou o seu caminho.

Junto a um grupo de amigos, ele teve a chance de se tornar sócio de um caminhão. E assim, começou a realizar seu sonho, e trabalhou nisso por aproximadamente dez anos, até dar origem a Transpes, que foi fundada em 1966, originada a partir daquele humilde sonho e do primeiro caminhão. Não muito tempo depois, ele decidiu se mudar para Belo Horizonte, onde conheceu minha mãe, Ruth, e construiu sua vida. A cidade abrigava uma próspera comunidade espanhola, proporcionando um lar aconchegante para ele. Foi na capital mineira que os negócios começaram a prosperar e, consequentemente, moldou o futuro da nossa família. Ali nasci, em 1965, e, de três irmãos, sou o filho mais velho. Infelizmente, meu pai já faleceu, mas deixou um legado e valores que ultrapassam gerações.

Isso tem garantido a nossa perenidade, pois a sucessão é um dos maiores desafios que as empresas familiares enfrentam. Muitas não conseguem chegar à segunda geração, e aquelas que alcançam essa etapa muitas vezes enfrentam dificuldades para chegar à terceira geração. Sendo assim, é fundamental a implementação de modelos de governança, com assessores e conselheiros competentes, que possam ajudar a lidar com estes desacordos de forma ética e respeitosa, de modo que es t as questões não se transformem em obstáculos e coloquem em risco a continuidade do negócio.

Pai e mãe: pilares inabaláveis

Com dedicação e paixão, obtive meu diploma em a dministração de e mpresas pela renomada Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Naquela época, as opções de carreira eram limitadas e muitos de nós sentíamos a pressão de seguir os passos de nossos pais. Eu não fui exceção. Por volta de 1982, enquanto fazia a faculdade, embarquei em uma nova jornada ao lado de meu pai. O que antes eram apenas alguns caminhões evoluíram para dezenas deles e, juntos, iniciamos nossa empreitada.

Logo após minha entrada, meus irmãos também se juntaram à nós. Formamos uma equipe poderosa que impulsionou o crescimento dos negócios. Hoje em dia, minha irmã e eu fazemos parte do c onselho, enquanto meu irmão mais novo assume o papel de CEO na Transpes. Em minha vida pessoal, tenho uma trajetória de 36 anos, compartilhando uma história de amor e parceria com minha esposa, Kátia. E a vida me presenteou com cinco filhos, todos homens, e quatro preciosos netos. Dessa forma, o ciclo da vida continua a se desenrolar, trazendo alegrias contínuas.

Fui criado em uma época diferente, nos anos 1980, quando não havia conceitos como mentoria e coaching , que agora são comuns nos negócios. Portanto, meus pais desempenharam um papel fundamental como meus mentores. Eles sempre zelaram pela educação minha e dos meus irmãos, garantindo que nós recebêssemos uma sólida base de conhecimento.

No entanto, meu pai, por circunstâncias da vida, não teve a mesma oportunidade de estudar. Ele sempre lamentou a falta de chance acadêmica em sua trajetória e se tornou um autodidata, com apenas o ensino primário - atual ensino fundamental I. Frequentemente, ele nos dizia como a falta de educação formal o colocou em situações complicadas ao longo da vida, e acreditava que havia perdido muitas oportunidades devido a isso.

Ao me juntar a ele nos negócios, percebi o quanto trabalhar em uma empresa familiar é ao mesmo tempo uma realização e um desafio significativo. Nossas perspectivas eram muito diferentes, representando duas gerações distintas. Eu, recém-formado em a dministração de e mpresas, estava cheio de ideias inovadoras sobre administração e gestão, enquanto meu pai, com sua experiência peculiar, tinha seu próprio modelo de gerenciamento de negócios.

Expandindo além dos horizontes

Quando comecei na Transpes, ela era bem diferente do que é hoje. Tínhamos cerca de 60 funcionários. Éramos uma empresa bastante modesta, com uma quantidade aproximada de 20 caminhões à nossa disposição. Naquela época, nossas operações eram bastante locais, concentradas principalmente na região de Belo Horizonte. Meu pai tinha suas razões para manter nossos caminhões por perto, porque temia que, se algo desse errado em viagens mais longas, como para a Bahia, Goiás ou Tocantins, seria complicado consertar os veículos.

Um dos meus desafios iniciais foi convencê-lo a expandir nossos horizontes e buscar fretes de longa distância, que geralmente pagavam melhor. Possuía meus argumentos e, no entanto, ele relutava em sair da nossa zona de conforto. Hoje a empresa deu um salto gigantesco. Contamos com mais de dois mil equipamentos e empregamos cerca de quatro mil funcionários em várias áreas de atuação. Esse período inicial nos negócios foi desafiador, mas também uma fase de aprendizado fundamental, onde comecei a entender melhor meu pai e como ele conduzia os negócios.

Enfrentamos muitos conflitos e situações desafiadoras, é verdade. Eu constantemente tentava introduzir mudanças e melhorias baseadas no que aprendi ao longo da minha formação acadêmica, enquanto meu pai relutava em aceitá-las. Criado em uma época diferente, ele estava menos familiarizado com alguns conceitos então comuns nos negócios. De qualquer modo, não acredito que exista uma geração superior à outra em empresas familiares. Cada uma traz consigo suas peculiaridades, propósitos e valores.

O desafio de manter uma empresa familiar é real. Embora tenha o potencial de criar riqueza e impacto social significativo, também pode fragmentar famílias e destruir laços. Felizmente, conseguimos superar as diferenças por meio de diálogos construtivos. Com o tempo, meu pai passou a confiar mais em minha liderança, permitindo que eu implementasse novas técnicas e modelos de gestão. As iniciativas deram certo e gradualmente ele foi delegando mais autoridade para mim. Fui conquistando o meu próprio espaço e, assim, o que começou como um dever, ao longo do tempo se transformou em um amor genuíno pelo negócio. A obrigação se tornou paixão e isso nos impulsionou a crescer cada vez mais.

Resiliência familiar acima de tudo

Acredito que um princípio fundamental é que os laços familiares devem estar à frente dos negócios. Meu pai costumava me dizer: “Eu preciso de você, quero que continue nos negócios, apesar de nossos desentendimentos. Com paciência, vamos nos entender. Sua hora chegará.” Lembro-me de ouvir frequentemente a frase: “Sua hora chegará”. E chegou. Trabalhei ao lado dele, construindo meu espaço. Acredito que os “nãos” que enfrentamos na vida também servem como combustível para nosso desenvolvimento, ajudando a aprimorar nossos argumentos e nos ensinando a lidar com derrotas, mesmo quando estamos certos. Nem sempre é necessário impor nossa posição com autoridade, pois a vida não se resume apenas a vencer. Muitas vezes, precisamos ceder em função de objetivos maiores.

Lembro de uma situação em que desenvolvi um projeto para comprar um caminhão novo, algo que meu pai não costumava fazer, pois preferia veículos usados devido à limitação de recursos financeiros. No entanto, apresentei a ele um plano que incluía financiamento bancário, o que seria um avanço significativo para nossa empresa. Ele me questionou se eu continuaria trabalhando com ele após a compra do caminhão e minha resposta foi um firme compromisso.

Assim, firmamos um acordo e tudo funcionou muito bem. Foi um passo aparentemente simples, mas que representou um avanço enorme para a empresa. Afinal, o setor de logística é crucial para o Brasil. O transporte rodoviário desempenha um papel fundamental, sendo responsável por quase 70% do transporte de mercadorias no País. A logística é uma parte vital de nossa economia. Essa visibilidade crescente levou muitas instituições de ensino a oferecer cursos de logística, refletindo as mudanças no cenário global. Portanto, é necessário um olhar renovado, especialmente em um mundo em constante transformação.

Foco e propósito na carreira

Quando somos muito jovens, a ânsia de fazer tudo rápido e a busca por resultados a curto prazo fazem com que se corra o risco de frustrações desnecessárias. Gostaria, por exemplo, de ouvir lá atrás algo que me tranquilizasse e desse a garantia de que estava na direção certa. Algo do tipo: “Relaxe! O caminho que você está trilhando é o correto, e você conseguirá implementar suas ideias no momento certo.” Mas muitas vezes, foi como se eu tivesse a ideia certa mas na hora errada. Isso me causou muita angústia, pois tinha a sensação de estar sempre atrasado em relação ao tempo que eu mesmo havia definido.

Ainda assim, sempre tive meus propósitos, pois entendia o valor de buscar uma meta, especialmente na carreira. A geração mais jovem, os chamados millennials , tem essa mentalidade. Eles valorizam a ideia de trabalhar por um propósito maior do que simplesmente ganhar dinheiro. Isso se reflete no aumento do terceiro setor, na filantropia e na criação de Organizações não Governamentais (ONGs), pois as pessoas estão mais interessadas em fazer negócios com empresas que contribuem para o bem da sociedade, que tenham propósitos mais elevados e são capazes de promover uma transformação social.

Conexões de valor e inteligência emocional

Ser um verdadeiro conector é um dos papéis principais de um líder. Isso significa que ele deve ser capaz de estabelecer conexões significativas com as pessoas ao seu redor, bem como com o mercado em que atua. Essa pessoa não apenas se apresenta de maneira autêntica, mas também busca entender profundamente as pessoas ao seu redor, demonstrando preocupação genuína com todos os envolvidos, sejam eles colaboradores, parceiros ou outros stakeholders .

A criatividade é outra característica fundamental de um líder moderno. O mundo está em constante evolução e a capacidade de pensar de forma criativa e disruptiva é altamente valorizada. Além disso, uma dose saudável de fé é importante. O líder atua como o capitão do navio ou o piloto do avião, liderando sua equipe em direção a um futuro melhor. Precisa inspirar confiança e mostrar às pessoas que estão sob sua liderança que o caminho que ele está traçando é promissor. Essa capacidade de inspirar é imprescindível para motivar e guiar as pessoas em direção ao sucesso.

Quando falamos em liderado, penso que um dos aspectos indispensáveis é o que chamamos de inteligência emocional, ou seja, o capital relacional. Não basta ser um especialista brilhante, ter um conhecimento acadêmico impressionante e dominar todas as habilidades técnicas se você não possui essa inteligência emocional. Ela engloba o respeito pelas pessoas, a predisposição de conviver bem e a capacidade de criar um ambiente onde as pessoas se sintam valorizadas, com harmonia, alegria e esperança.

Na Transpes, temos o orgulho de ser reconhecidos como uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil, tendo recebido diversos prêmios nesse sentido. Isso se deve à importância que atribuímos à felicidade no trabalho. Uma pessoa feliz, satisfeita e esperançosa em relação ao seu ambiente de trabalho, produz muito mais do que alguém infeliz, inseguro ou insatisfeito. Temos ainda um código de ética sólido que aborda questões como assédio e relacionamentos de forma transparente. Além disso, nos orgulhamos da nossa jornada, e não há melhor maneira de demonstrar isso do que contar a nossa história, mostrando de onde viemos e aonde estamos destinados a chegar.

Valorização e investimento nas pessoas

Houve um momento em minha carreira que percebi que uma empresa não se trata apenas de números. Não se resume a lucro líquido, faturamento ou despesas. São pessoas. Para nós, investir em alguém não é um custo, mas sim um investimento. Depositamos nossa confiança em pessoas porque acreditamos no potencial delas. Não se trata apenas de ter funcionários felizes, mas de ajudar as pessoas a se realizarem plenamente. É promover os sonhos de cada indivíduo.

Nossa abordagem, hoje conhecida como "gestão humanizada", é centrada na valorização das pessoas de nossa organização. Uma ilustração disso é o nosso programa de acolhimento para os nossos motoristas de carga, que, em geral, sofrem com uma baixa autoestima. Isso é perceptível até mesmo nas relações familiares. Um dos destaques dessa iniciativa é o Dia da Criança na Transpes, realizado em nossas principais filiais e em nossa matriz, em Belo Horizonte. Convidamos os filhos dos motoristas, com idade até 12 anos, para participarem desse momento especial, montamos um espaço com tudo o que as crianças adoram e proporcionamos a oportunidade de andarem em um caminhão de verdade, máquina poderosa que é dirigida pelo pai delas.

A partir desse momento, o pai se torna o super-herói de seu filho, elevando sua autoestima. São pequenas ações de valorização das pessoas que fazem toda a diferença. Também realizamos ações semelhantes para as mulheres, mães, noivas e namoradas, pois embora haja cada vez mais motoristas do sexo feminino no Brasil, a maioria ainda é masculina.

Outro ponto absolutamente relevante é o ESG e sua importância é inegável. Estamos genuinamente preocupados com o legado que deixaremos para nossos filhos e netos, tanto em termos ambientais quanto sociais. Cada organização, independentemente de seu tamanho, tem a responsabilidade de contribuir para criar um mundo melhor. Isso envolve a maneira como nos posicionamos no mundo e como conduzimos nossos negócios. É uma questão de dar a nossa parcela de contribuição.

Respeito da portaria ao presidente

Um dos grandes ensinamentos que carrego comigo, e serve de lição para todos, é a importância de respeitar e honrar pai e mãe, pois eles ocupam um lugar insubstituível na vida de cada indivíduo. Além disso, acredito na importância de respeitar o próximo, independentemente de seu cargo ou posição. Vale a pena seguir o lema “respeito da portaria ao presidente”, pois significa tratar cada pessoa com dignidade, não com base em seu crachá ou posição, mas pela essência de quem são. Ao fazermos isso, podemos construir relacionamentos harmoniosos, porque no final das contas os negócios são sobre pessoas.

São pessoas que compram, vendem, entregam, gostam ou não gostam. Portanto, entre todos os processos, planos e estratégias que são importantes em uma organização, as pessoas são indiscutivelmente o fator principal. Se nos concentrarmos nas pessoas, nosso sucesso estará garantido.

Sob essa perspectiva, sempre carrego uma dose considerável de otimismo e esperança. O Brasil, apesar de todas as dificuldades, é um país incrível para empreender e construir relacionamentos. Aqui temos todas as condições necessárias para transformar sonhos em realidade. Portanto, que acreditemos em nós mesmos, nos nossos sonhos e habilidades que Deus nos deu. Há sempre um ambiente adequado para que tudo o que existe em nosso interior floresça, assim como um jardim em terra fértil. E vale a pena procurar por este lugar.

Livros recomendados por Sandro Gonzalez

A Bíblia Sagrada .

O mundo é plano: Uma breve história do século XXI, de Thomas Friedman. Editora Econômica, 2014.

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Minha história é uma verdadeira jornada inspiradora, arraigada no seio de uma empresa familiar, onde o meu pai, Tarcísio, é o protagonista. Ele foi um imigrante europeu que desembarcou no Brasil na década de 1950, vindo da Espanha com um sonho muito claro: tornar-se um caminhoneiro e percorrer as estradas do nosso vasto país. Naquela época, a Espanha enfrentava conflitos e uma ditadura, levando-o a buscar refúgio e oportunidades aqui no Brasil, que prontamente o acolheu de braços abertos.

Curiosamente, a escolha do Brasil como seu destino foi um tanto inesperada. Inicialmente, ele planejava seguir até Buenos Aires. Meu pai havia chegado de navio e, durante uma breve escala no Rio de Janeiro, onde passaria apenas alguns dias, ele teve a oportunidade de se encontrar com um primo, que também morava no Brasil. O que então seria uma parada temporária se transformou em uma moradia, onde permaneceu durante alguns anos. Durante este período no Rio de Janeiro, ele se sustentou trabalhando em feiras livres, fazendo trabalhos temporários e vendendo uma variedade de produtos. Mas o destino é uma força misteriosa e, em breve, uma oportunidade única cruzou o seu caminho.

Junto a um grupo de amigos, ele teve a chance de se tornar sócio de um caminhão. E assim, começou a realizar seu sonho, e trabalhou nisso por aproximadamente dez anos, até dar origem a Transpes, que foi fundada em 1966, originada a partir daquele humilde sonho e do primeiro caminhão. Não muito tempo depois, ele decidiu se mudar para Belo Horizonte, onde conheceu minha mãe, Ruth, e construiu sua vida. A cidade abrigava uma próspera comunidade espanhola, proporcionando um lar aconchegante para ele. Foi na capital mineira que os negócios começaram a prosperar e, consequentemente, moldou o futuro da nossa família. Ali nasci, em 1965, e, de três irmãos, sou o filho mais velho. Infelizmente, meu pai já faleceu, mas deixou um legado e valores que ultrapassam gerações.

Isso tem garantido a nossa perenidade, pois a sucessão é um dos maiores desafios que as empresas familiares enfrentam. Muitas não conseguem chegar à segunda geração, e aquelas que alcançam essa etapa muitas vezes enfrentam dificuldades para chegar à terceira geração. Sendo assim, é fundamental a implementação de modelos de governança, com assessores e conselheiros competentes, que possam ajudar a lidar com estes desacordos de forma ética e respeitosa, de modo que es t as questões não se transformem em obstáculos e coloquem em risco a continuidade do negócio.

Pai e mãe: pilares inabaláveis

Com dedicação e paixão, obtive meu diploma em a dministração de e mpresas pela renomada Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Naquela época, as opções de carreira eram limitadas e muitos de nós sentíamos a pressão de seguir os passos de nossos pais. Eu não fui exceção. Por volta de 1982, enquanto fazia a faculdade, embarquei em uma nova jornada ao lado de meu pai. O que antes eram apenas alguns caminhões evoluíram para dezenas deles e, juntos, iniciamos nossa empreitada.

Logo após minha entrada, meus irmãos também se juntaram à nós. Formamos uma equipe poderosa que impulsionou o crescimento dos negócios. Hoje em dia, minha irmã e eu fazemos parte do c onselho, enquanto meu irmão mais novo assume o papel de CEO na Transpes. Em minha vida pessoal, tenho uma trajetória de 36 anos, compartilhando uma história de amor e parceria com minha esposa, Kátia. E a vida me presenteou com cinco filhos, todos homens, e quatro preciosos netos. Dessa forma, o ciclo da vida continua a se desenrolar, trazendo alegrias contínuas.

Fui criado em uma época diferente, nos anos 1980, quando não havia conceitos como mentoria e coaching , que agora são comuns nos negócios. Portanto, meus pais desempenharam um papel fundamental como meus mentores. Eles sempre zelaram pela educação minha e dos meus irmãos, garantindo que nós recebêssemos uma sólida base de conhecimento.

No entanto, meu pai, por circunstâncias da vida, não teve a mesma oportunidade de estudar. Ele sempre lamentou a falta de chance acadêmica em sua trajetória e se tornou um autodidata, com apenas o ensino primário - atual ensino fundamental I. Frequentemente, ele nos dizia como a falta de educação formal o colocou em situações complicadas ao longo da vida, e acreditava que havia perdido muitas oportunidades devido a isso.

Ao me juntar a ele nos negócios, percebi o quanto trabalhar em uma empresa familiar é ao mesmo tempo uma realização e um desafio significativo. Nossas perspectivas eram muito diferentes, representando duas gerações distintas. Eu, recém-formado em a dministração de e mpresas, estava cheio de ideias inovadoras sobre administração e gestão, enquanto meu pai, com sua experiência peculiar, tinha seu próprio modelo de gerenciamento de negócios.

Expandindo além dos horizontes

Quando comecei na Transpes, ela era bem diferente do que é hoje. Tínhamos cerca de 60 funcionários. Éramos uma empresa bastante modesta, com uma quantidade aproximada de 20 caminhões à nossa disposição. Naquela época, nossas operações eram bastante locais, concentradas principalmente na região de Belo Horizonte. Meu pai tinha suas razões para manter nossos caminhões por perto, porque temia que, se algo desse errado em viagens mais longas, como para a Bahia, Goiás ou Tocantins, seria complicado consertar os veículos.

Um dos meus desafios iniciais foi convencê-lo a expandir nossos horizontes e buscar fretes de longa distância, que geralmente pagavam melhor. Possuía meus argumentos e, no entanto, ele relutava em sair da nossa zona de conforto. Hoje a empresa deu um salto gigantesco. Contamos com mais de dois mil equipamentos e empregamos cerca de quatro mil funcionários em várias áreas de atuação. Esse período inicial nos negócios foi desafiador, mas também uma fase de aprendizado fundamental, onde comecei a entender melhor meu pai e como ele conduzia os negócios.

Enfrentamos muitos conflitos e situações desafiadoras, é verdade. Eu constantemente tentava introduzir mudanças e melhorias baseadas no que aprendi ao longo da minha formação acadêmica, enquanto meu pai relutava em aceitá-las. Criado em uma época diferente, ele estava menos familiarizado com alguns conceitos então comuns nos negócios. De qualquer modo, não acredito que exista uma geração superior à outra em empresas familiares. Cada uma traz consigo suas peculiaridades, propósitos e valores.

O desafio de manter uma empresa familiar é real. Embora tenha o potencial de criar riqueza e impacto social significativo, também pode fragmentar famílias e destruir laços. Felizmente, conseguimos superar as diferenças por meio de diálogos construtivos. Com o tempo, meu pai passou a confiar mais em minha liderança, permitindo que eu implementasse novas técnicas e modelos de gestão. As iniciativas deram certo e gradualmente ele foi delegando mais autoridade para mim. Fui conquistando o meu próprio espaço e, assim, o que começou como um dever, ao longo do tempo se transformou em um amor genuíno pelo negócio. A obrigação se tornou paixão e isso nos impulsionou a crescer cada vez mais.

Resiliência familiar acima de tudo

Acredito que um princípio fundamental é que os laços familiares devem estar à frente dos negócios. Meu pai costumava me dizer: “Eu preciso de você, quero que continue nos negócios, apesar de nossos desentendimentos. Com paciência, vamos nos entender. Sua hora chegará.” Lembro-me de ouvir frequentemente a frase: “Sua hora chegará”. E chegou. Trabalhei ao lado dele, construindo meu espaço. Acredito que os “nãos” que enfrentamos na vida também servem como combustível para nosso desenvolvimento, ajudando a aprimorar nossos argumentos e nos ensinando a lidar com derrotas, mesmo quando estamos certos. Nem sempre é necessário impor nossa posição com autoridade, pois a vida não se resume apenas a vencer. Muitas vezes, precisamos ceder em função de objetivos maiores.

Lembro de uma situação em que desenvolvi um projeto para comprar um caminhão novo, algo que meu pai não costumava fazer, pois preferia veículos usados devido à limitação de recursos financeiros. No entanto, apresentei a ele um plano que incluía financiamento bancário, o que seria um avanço significativo para nossa empresa. Ele me questionou se eu continuaria trabalhando com ele após a compra do caminhão e minha resposta foi um firme compromisso.

Assim, firmamos um acordo e tudo funcionou muito bem. Foi um passo aparentemente simples, mas que representou um avanço enorme para a empresa. Afinal, o setor de logística é crucial para o Brasil. O transporte rodoviário desempenha um papel fundamental, sendo responsável por quase 70% do transporte de mercadorias no País. A logística é uma parte vital de nossa economia. Essa visibilidade crescente levou muitas instituições de ensino a oferecer cursos de logística, refletindo as mudanças no cenário global. Portanto, é necessário um olhar renovado, especialmente em um mundo em constante transformação.

Foco e propósito na carreira

Quando somos muito jovens, a ânsia de fazer tudo rápido e a busca por resultados a curto prazo fazem com que se corra o risco de frustrações desnecessárias. Gostaria, por exemplo, de ouvir lá atrás algo que me tranquilizasse e desse a garantia de que estava na direção certa. Algo do tipo: “Relaxe! O caminho que você está trilhando é o correto, e você conseguirá implementar suas ideias no momento certo.” Mas muitas vezes, foi como se eu tivesse a ideia certa mas na hora errada. Isso me causou muita angústia, pois tinha a sensação de estar sempre atrasado em relação ao tempo que eu mesmo havia definido.

Ainda assim, sempre tive meus propósitos, pois entendia o valor de buscar uma meta, especialmente na carreira. A geração mais jovem, os chamados millennials , tem essa mentalidade. Eles valorizam a ideia de trabalhar por um propósito maior do que simplesmente ganhar dinheiro. Isso se reflete no aumento do terceiro setor, na filantropia e na criação de Organizações não Governamentais (ONGs), pois as pessoas estão mais interessadas em fazer negócios com empresas que contribuem para o bem da sociedade, que tenham propósitos mais elevados e são capazes de promover uma transformação social.

Conexões de valor e inteligência emocional

Ser um verdadeiro conector é um dos papéis principais de um líder. Isso significa que ele deve ser capaz de estabelecer conexões significativas com as pessoas ao seu redor, bem como com o mercado em que atua. Essa pessoa não apenas se apresenta de maneira autêntica, mas também busca entender profundamente as pessoas ao seu redor, demonstrando preocupação genuína com todos os envolvidos, sejam eles colaboradores, parceiros ou outros stakeholders .

A criatividade é outra característica fundamental de um líder moderno. O mundo está em constante evolução e a capacidade de pensar de forma criativa e disruptiva é altamente valorizada. Além disso, uma dose saudável de fé é importante. O líder atua como o capitão do navio ou o piloto do avião, liderando sua equipe em direção a um futuro melhor. Precisa inspirar confiança e mostrar às pessoas que estão sob sua liderança que o caminho que ele está traçando é promissor. Essa capacidade de inspirar é imprescindível para motivar e guiar as pessoas em direção ao sucesso.

Quando falamos em liderado, penso que um dos aspectos indispensáveis é o que chamamos de inteligência emocional, ou seja, o capital relacional. Não basta ser um especialista brilhante, ter um conhecimento acadêmico impressionante e dominar todas as habilidades técnicas se você não possui essa inteligência emocional. Ela engloba o respeito pelas pessoas, a predisposição de conviver bem e a capacidade de criar um ambiente onde as pessoas se sintam valorizadas, com harmonia, alegria e esperança.

Na Transpes, temos o orgulho de ser reconhecidos como uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil, tendo recebido diversos prêmios nesse sentido. Isso se deve à importância que atribuímos à felicidade no trabalho. Uma pessoa feliz, satisfeita e esperançosa em relação ao seu ambiente de trabalho, produz muito mais do que alguém infeliz, inseguro ou insatisfeito. Temos ainda um código de ética sólido que aborda questões como assédio e relacionamentos de forma transparente. Além disso, nos orgulhamos da nossa jornada, e não há melhor maneira de demonstrar isso do que contar a nossa história, mostrando de onde viemos e aonde estamos destinados a chegar.

Valorização e investimento nas pessoas

Houve um momento em minha carreira que percebi que uma empresa não se trata apenas de números. Não se resume a lucro líquido, faturamento ou despesas. São pessoas. Para nós, investir em alguém não é um custo, mas sim um investimento. Depositamos nossa confiança em pessoas porque acreditamos no potencial delas. Não se trata apenas de ter funcionários felizes, mas de ajudar as pessoas a se realizarem plenamente. É promover os sonhos de cada indivíduo.

Nossa abordagem, hoje conhecida como "gestão humanizada", é centrada na valorização das pessoas de nossa organização. Uma ilustração disso é o nosso programa de acolhimento para os nossos motoristas de carga, que, em geral, sofrem com uma baixa autoestima. Isso é perceptível até mesmo nas relações familiares. Um dos destaques dessa iniciativa é o Dia da Criança na Transpes, realizado em nossas principais filiais e em nossa matriz, em Belo Horizonte. Convidamos os filhos dos motoristas, com idade até 12 anos, para participarem desse momento especial, montamos um espaço com tudo o que as crianças adoram e proporcionamos a oportunidade de andarem em um caminhão de verdade, máquina poderosa que é dirigida pelo pai delas.

A partir desse momento, o pai se torna o super-herói de seu filho, elevando sua autoestima. São pequenas ações de valorização das pessoas que fazem toda a diferença. Também realizamos ações semelhantes para as mulheres, mães, noivas e namoradas, pois embora haja cada vez mais motoristas do sexo feminino no Brasil, a maioria ainda é masculina.

Outro ponto absolutamente relevante é o ESG e sua importância é inegável. Estamos genuinamente preocupados com o legado que deixaremos para nossos filhos e netos, tanto em termos ambientais quanto sociais. Cada organização, independentemente de seu tamanho, tem a responsabilidade de contribuir para criar um mundo melhor. Isso envolve a maneira como nos posicionamos no mundo e como conduzimos nossos negócios. É uma questão de dar a nossa parcela de contribuição.

Respeito da portaria ao presidente

Um dos grandes ensinamentos que carrego comigo, e serve de lição para todos, é a importância de respeitar e honrar pai e mãe, pois eles ocupam um lugar insubstituível na vida de cada indivíduo. Além disso, acredito na importância de respeitar o próximo, independentemente de seu cargo ou posição. Vale a pena seguir o lema “respeito da portaria ao presidente”, pois significa tratar cada pessoa com dignidade, não com base em seu crachá ou posição, mas pela essência de quem são. Ao fazermos isso, podemos construir relacionamentos harmoniosos, porque no final das contas os negócios são sobre pessoas.

São pessoas que compram, vendem, entregam, gostam ou não gostam. Portanto, entre todos os processos, planos e estratégias que são importantes em uma organização, as pessoas são indiscutivelmente o fator principal. Se nos concentrarmos nas pessoas, nosso sucesso estará garantido.

Sob essa perspectiva, sempre carrego uma dose considerável de otimismo e esperança. O Brasil, apesar de todas as dificuldades, é um país incrível para empreender e construir relacionamentos. Aqui temos todas as condições necessárias para transformar sonhos em realidade. Portanto, que acreditemos em nós mesmos, nos nossos sonhos e habilidades que Deus nos deu. Há sempre um ambiente adequado para que tudo o que existe em nosso interior floresça, assim como um jardim em terra fértil. E vale a pena procurar por este lugar.

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A Bíblia Sagrada .

O mundo é plano: Uma breve história do século XXI, de Thomas Friedman. Editora Econômica, 2014.

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