Ciência

Lambida de cachorro pode disseminar bactérias resistentes a antibióticos

Novo estudo mostra que animais de estimação podem contaminar seus donos com bactérias resistentes a medicamentos

Animal: os cientistas acreditam que a transmissão destas superbactérias ocorre através da via fecal-oral (damedeeso/Getty Images)

Animal: os cientistas acreditam que a transmissão destas superbactérias ocorre através da via fecal-oral (damedeeso/Getty Images)

AO

Agência O Globo

Publicado em 7 de abril de 2022 às 16h25.

Última atualização em 7 de abril de 2022 às 17h45.

Deixar seu animal de estimação lamber o seu rosto ou comer do seu prato pode contribuir para a proliferação de superbactérias. É o que aponta um estudo conjunto feito por pesquisadores portugueses e britânicos, que será apresentado no Congresso Europeu de Microbiologia Clínica e Doenças Infecciosas em Lisboa no final deste mês. Os cientistas temem que cães e gatos estejam se tornando reservatórios potenciais para cepas de bactérias resistentes a antibióticos.

Os pesquisadores do Royal Veterinary College do Reino Unido e da Universidade de Lisboa, analisaram as fezes de humanos e animais que habitam 41 lares portugueses e 45 britânicos. Foram incluídos, no total, 114 pessoas, 85 cães e 18 gatos.

As amostras foram coletadas e depois testadas geneticamente para superbactérias. Cepas de E.coli resistentes a medicamentos foram achadas em 14 cães, um gato e 15 humanos. Estas bactérias podem ser fatais em alguns casos. Elas são conhecidas por serem resistentes a vários antibióticos, como a penicilina.

Os cientistas acreditam que a transmissão destas superbactérias ocorre através da via fecal-oral. Os animais de estimação lambem suas regiões íntimas e outras partes de seus corpos, espalhando os micro-organismos resistentes pela superfície de seus pelos. Depois, seus donos entram em contato com eles e levam as mãos à boca antes de lavá-las, se infectando. Coletar as fezes do cão ou gato e não lavar as mãos logo depois também pode ser uma via de contaminação, afirmam os pesquisadores.

Em quatro casas, os humanos e animais de estimação tinham as mesmas bactérias com genes de resistência a antibióticos. Isso confirma a hipótese de que um contaminou o outro.

O estudo foi apenas observacional, o que significa que não pode provar que os animais de estimação foram diretamente responsáveis pela disseminação de superbactérias para seus donos.

Em entrevista a jornais britânicos como Daily Mail e The Telegraph, Juliana Menezes, especialista em ciência veterinária e principal autora do estudo afirmou que as descobertas são preocupantes. Ela pontua que antes do surgimento da covid-19, a resistência aos antibióticos eram uma das “maiores ameaças à saúde pública”. A especialista alerta que uma superbactéria pode tornar intratáveis condições como pneumonia, sepse, infecções do trato urinário e até feridas.

“Nossas descobertas reforçam a necessidade de as pessoas praticarem uma boa higiene em torno de seus animais de estimação e reduzirem o uso de antibióticos desnecessários em animais de companhia e nas pessoas”, disse ela ao Daily Mail.

O uso indiscriminado de antibióticos aumenta as chances de uma bactéria se tornar resistente ao medicamento. Isso, consequentemente, diminui o arsenal de opções de terapia diante de uma infecção, o que aumenta a incidência de mortes.

Os autores do estudo sugerem que os humanos devem evitar a disseminação dessas bactérias dentro da casa. Para isso, seria necessário diminuir a relação próxima entre os tutores e seus animais de estimação, além de aumentar as práticas de higiene, como lavar as mãos após a coleta de dejetos de cães e gatos, ou mesmo depois de acariciá-los.

Apesar dos riscos apontados no novo estudo, os autores não são contra a adoção de animais de estimação. Estudos já apontaram os benefícios para a saúde física e mental de ter um pet em casa. Isso inclui ajudar a reduzir a pressão arterial e fornecer companhia para aumentar as oportunidades de se exercitar e socializar com outras pessoas.

No início deste ano, pesquisadores da Universidade de Washington e da Universidade de Oxford disseram que infecções resistentes a antibióticos mataram diretamente 1,2 milhão de pessoas em 2019 e contribuíram indiretamente para a morte de mais 5 milhões.

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