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Covid-19: o que sabemos sobre a variante Kraken que se espalha nos EUA

Os hospitais dos EUA registraram aumento nas internações no último mês, embora a área noroeste, que tem altos números para essa subvariante, não tenha visto elevação desproporcional nas internações em comparação com outras regiões do país

 (Naeblys/Getty Images)

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Estadão Conteúdo

5 de janeiro de 2023, 15h57

A nova subvariante da ômicron, a XBB.1.5, está se expandindo pelos Estados Unidos e já representa cerca de 40% dos casos de covid-19 no país, ante 20% na semana passada. Em regiões como Nova York, já é responsável por 75% das infecções. Os Centros de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) alertam que a subvariante “pode ser mais transmissível do que outras variantes”, mas ainda não sabem se ela tem efeitos “mais graves”.

Especialistas americanos apontam também que a XBB.1.5 pode ser mais difícil de neutralizar por anticorpos. Com todas essas características, ela ganhou o apelido de Kraken (monstro marinho da mitologia escandinava).

Os hospitais dos EUA têm registrado um aumento nas internações no último mês no país, embora a área noroeste do país, que tem altos números para essa subvariante, não tenha visto elevação desproporcional nas internações em comparação com outras regiões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu na quarta-feira, 4 sobre o aumento de casos da XBB.1.5 na Europa e nos Estados Unidos. “A XBB.1.5, uma recombinação das sublinhagens BA.2, está aumentando na Europa e nos Estados Unidos, foi identificada em mais de 25 países e a OMS está monitorando de perto”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Professor da Universidade Feevale, o virologista Fernando Spilki disse ao Estadão que a variante “mãe” da XBB.1.5, a XBB, surgiu muito provavelmente na Ásia, onde causou recrudescimento de casos no outono. Ela tem, diz ele, uma mutação que proporciona maior escape imune tanto da vacina quanto de infecções anteriores.

Flávio Guimarães da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) e professor do Departamento de Microbiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), conta que a XBB, no entanto, era “menos infecciosa”, pois havia perdido um pouco da capacidade de se ligar às células. “A XBB.1.5 é uma correção desse defeito, porque ela sofreu mutação em um outro ponto que voltou a deixar esse vírus capaz de infectar com muita eficiência as células durante uma infecção.”

Spilki acrescenta que a expansão dos casos nos EUA tem também um componente social, com festas de final de ano e o comportamento no inverno (de as pessoas se reunirem em locais fechados).

“Vamos avaliar o risco da subvariante e agir em conformidade”, comentou Tedros Adhanom, da OMS. Ele também alertou que nas últimas semanas houve aumento das internações e da pressão hospitalar no Hemisfério Norte, não apenas por causa da covid-19 mas também por outras doenças respiratórias, incluindo a gripe.

O aumento de casos, no entanto, é significativamente menor do que há um ano, no início do avanço da ômicron “original”, quando quase 25 milhões de diagnósticos positivos semanais foram registrados globalmente, sete vezes mais do que os níveis atuais (embora agora menos testes estão sendo realizados devido à predominância de casos leves).

O surgimento da Kraken coincide com o relaxamento da política de “covid zero” na China, o que tem feito a quantidade de infecções explodir no país asiático. A escalada de casos é explicada pelo baixo contato prévio dos chineses com a doença, as lacunas na cobertura das doses de reforço e ainda a não aplicação de vacinas de outras tecnologias, como a de RNA, presente nos produtos das farmacêuticas Pfizer e Moderna.

Especialistas afirmam, porém, que há grande subnotificação de casos na China, o que dificulta saber com clareza o ritmo de avanço da doença. As autoridades chinesas declaram que as cepas BA.5.2 e BF.7 são as variantes dominantes na China e representam mais de 80% dos casos na gigante asiática.

Kraken deve chegar ao Brasil e pode causar nova onda, dizem cientistas

Fernando Spilki destaca que é “quase impossível” que a nova subvariante não chegue ao País. “A gente já teve a circulação de XBB, e vamos encontrar esse processo [de circulação da XXB.1.5] mais adiante. Os efeitos são o que mais nos importa”, diz. Flávio Guimarães da Fonseca acrescenta que não é uma questão de “se”, mas sim se “quando” vai chegar.

Nesse sentido, o coordenador da Rede Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt, comenta que o Brasil não tem feito nada que impeça a variante de chegar no País. Ele pondera que ela pode sim causar uma nova onda de casos, mas destaca que não há clareza sobre as dimensões que pode tomar.

Nos EUA, conta, desde a chegada da Kraken, o número de internações em UTI por covid dobraram e os óbitos estão em curva ascendente, mas os casos não parecem crescer na mesma medida. “É um sinal de que as pessoas não estão se testando”.

Pelo histórico da covid no País, Spilki comenta que uma nova onda no Brasil já estava no horizonte, mesmo sem o surgimento da XBB.1.5. Ele comenta que, em geral, após as festas de fim de ano no período de verão e de retomada de atividades entre fevereiro e março, ocorre um dos principais volume de casos do ano. “A XBB, em especial a XXB.1.5, pode influenciar [essa nova onda], especialmente se ela conseguir se disseminar bem em populações nas quais previamente circulavam linhagens anteriores, especialmente a BQ.1 [que causou onda de casos no Brasil em novembro].”

É difícil anteciparmos o tamanho de uma possível nova onda, dizem os especialistas. “Se criarmos oportunidades para o vírus circular, pode ter certeza que ele vai aproveitá-las, e podemos nos encontrar em situações mais complicadas”, pondera Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e professora da escola de saúde da Unisinos.

Embora não acreditem que a possível nova onda atinja as proporções vistas com a ômicron original, no ano passado, os especialistas destacam que a alta circulação nunca é isenta de riscos. O aumento de casos, comentam, é acompanhado pela expansão de óbitos e internações. Além disso, alertam que a taxa de vacinação de reforço em jovens e adultos está baixa.

Com esse cenário, destacam que é preciso avançar na vacinação, principalmente nas doses de reforço. O uso da das injeções atualizadas (bivalentes) também ganha ainda mais importância. “Dados iniciais sugerem que os anticorpos neutralizantes induzidos pelas vacinas atualizadas bivalentes são capazes de oferecer proteção maior contra essas versões circulantes da ômicron, mesmo considerando que essas variantes tenham um grande escape parcial das defesas”, diz Mellanie, acrescentando que “os reforços de vacinas não atualizadas [também] seguem conferindo boa proteção contra a doença”.

Os especialistas destacam também que está na hora de se criar uma “cultura da higiene respiratória” no Brasil, com uso de máscara em locais fechados e em aglomerações. O mesmo vale para aqueles que apresentem qualquer sintoma respiratório. Pessoas com comorbidade, idosos e não vacinados precisam redobrar cuidados.

Spilki faz um apelo para que as pessoas com sintomas, mesmo que brandos, busquem a testagem. “Não basta vacinar, não basta tomar outros cuidados. A gente tem de testar, saber quando precisa se isolar.”

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