Workaholics: busca por recompensa e compulsão estão por trás do comportamento

Para especialistas ouvidos pela EXAME, é possível identificar algumas personalidades que tendem a valorizar o excesso de trabalho

No filme de animação Soul, que conquistou principalmente adultos fãs de discussões existenciais, o protagonista Joe Gardner conhece um lugar transcendental em sua experiência de quase morte que é frequentado por pessoas que se dedicam tanto a uma tarefa enquanto estão vivas que vão para outra dimensão. 

Nessa zona, estão tanto um hippie que “se eleva” por meio da meditação quanto as almas perdidas, em sofrimento, que estão tão mergulhadas em algo que se desconectam da realidade de um jeito ruim.

Entre eles, alguns personagens são viciados em trabalho, que enxergam nele a única forma de encontrar propósito e prazer, se afastando dos outros aspectos da vida. São os chamados workaholics.  

Outro personagem de desenho animado que é definitivamente viciado em trabalho é Bob Esponja Calça Quadrada, chapeiro da lanchonete O Siri Cascudo.

Mas o que está por trás desse tipo de personalidade? Especialistas e psicólogos ouvidos pela Exame concordam que há perfis psicológicos com mais tendência a isso, mas também ressaltam como o ambiente profissional e a cultura estimulam a glamourização do excesso de trabalho.

A personalidade workaholic, que é danosa para a saúde física e mental, não está presente necessariamente em todos que trabalham por longas jornadas. 

Uma pesquisa divulgada pela Harvard Business Review aponta que o trabalho a mais não está ligado a problemas de saúde, mas o comportamento viciado e obsessivo sim.

Mesmo se trabalharem poucas horas, pessoas obcecadas pelo trabalho relataram mais problemas de saúde na pesquisa.

Eles tiveram maior necessidade de recuperação, mais problemas de sono, mais cinismo, exaustão emocional e mais sentimentos depressivos do que funcionários que apenas trabalhavam longas horas, mas não tinham tendências workaholics.

Isso acontece porque quem é viciado em trabalho não se desliga facilmente e seu nível de estresse e ansiedade fica alto, causando problemas cardíacos e até psiquiátricos no médio prazo, como ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout. 

“Existem valores internos e crenças que podem predispor uma pessoa a ter essa obsessão. As pessoas buscam ser recompensadas por esse excesso de trabalho. Se elas têm valores relacionados ao desejo de prosperar, autonomia e realização podem ter predisposição a essa tendência”, explica a psicóloga Ana Carolina Peuker, que também é CEO da Bee.Touch, empresa que presta consultoria de segurança psicológica.

Além da personalidade, o ambiente de trabalho costuma reforçar esses comportamentos. “A gente deve lembrar que vivemos uma cultura que reforça muito a produtividade. E é uma cultura que parece que se você não estiver produtivo o tempo todo, você não enxerga valor”, destaca a psicóloga. 

Por trás da personalidade workaholic, podem existir diversos motivos. Na visão do psiquiatra e professor da The School of Life Guilherme Spadini é importante destacar que cada um tem uma história, mas a associação que as pessoas fazem entre valor e amor próprio à produtividade é bastante comum.

Muita gente tem a dificuldade de reconhecer o valor pessoal como ser humano e ponto. Como pessoa. A gente acaba se sentindo desvalorizado e quer produzir muito para se sentir valioso, digno de respeito e amor. Outra questão é que há uma dinâmica quase de um vício. As pessoas buscam uma recompensa, e o trabalho oferece isso com admiração, prêmios, salário, bons feedbacks.”

Guilherme Spadini, psiquiatra

Outro aspectos da mente do workaholic é que se ele faz todo o trabalho que tem que fazer em menos tempo, não vai se sentir bem depois. 

“O profissional pode sentir um vazio: ‘E agora o que eu que faço?’. Ele não consegue relaxar e aproveitar o tempo livre. A pessoa não consegue. Ela sente como se fosse um erro”, comentou Spadini.

A perspectiva da compulsão e do vício também é destacada pelo médico e especialista em gestão de pessoas Roberto Aylmer. 

Ele explica que os desafios profissionais liberam adrenalina e as “vitórias” dão prazer porque liberam dopamina e serotonina. Esse vício de autoestimulação está por trás do perfil workaholic.

“Tem dois tipos de workaholic. O que traz o comportamento compulsivo em si, onde nada é o bastante, está viciado na recompensa e busca por uma segurança que nunca alcança. E também uma personalidade derivada do ambiente, de empresas onde esse comportamento é estimulado”, explica.

 Entre os caminhos para sair de um comportamento workaholic está uma redescoberta de onde encontrar o prazer. Esse é o conselho do psiquiatra Guilherme Spadini. 

“Para driblar isso, há uma questão de redescoberta. Se permitir experimentar outros prazeres, perceber a recompensa da “baixa eficiência”. As pessoas têm que reaprender o prazer de não estar produtivo o tempo todo.”

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