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CEOs na mira

As trocas de presidentes de empresas no mês passado refletem a enorme pressão sofrida por quem ocupa o posto de número 1

Ex-CEOs da GM, Facebook, Redecard e Oi: cadeiras quentes (Ilustração: Tato Araújo, Fotos: Clayton de Souza, Raul Junior, Marcelo Correa e Alexandre Battibugli)

Ex-CEOs da GM, Facebook, Redecard e Oi: cadeiras quentes (Ilustração: Tato Araújo, Fotos: Clayton de Souza, Raul Junior, Marcelo Correa e Alexandre Battibugli)

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Murilo Ohl

4 de abril de 2013, 17h24

São Paulo - Uma série de empresas anunciou a contratação ou a substituição de seu presidente no Brasil nos últimos 30 dias. Entre elas estão General Motors, Redecard, Oi, iG e Google. O volume surpreende headhunters especializados em contratar executivos para o alto escalão. “A troca de presidentes tem ocorrido no início deste ano em um ritmo acima do normal”, diz Francisco Ramirez, sócio da ARC Recruiting, de São Paulo, que, no mês passado, buscava quatro CEOs, sigla em inglês para executivo-chefe, para companhias de diferentes setores.

Presidentes deixam o cargo por vários motivos. Discordâncias com acionistas, maus resultados e estafa são as razões mais comuns. Embora tenham motivações diversas, os casos recentes de troca de comando refletem de alguma maneira o momento positivo da economia brasileira. A expectativa de bons negócios faz as organizações abrirem novas vagas e aquece o mercado de trabalho — e isso vale para qualquer nível hierárquico. Mas, para os presidentes, mercado aquecido é sinal de pressão também: os acionistas exigem retornos financeiros ainda melhores, e estão cobrando resultados excepcionais.

Parte do aquecimento do mercado de trabalho se deve aos investimentos que companhias estrangeiras têm feito no Brasil. A rede social Facebook é uma delas. O anúncio de abertura de sua filial brasileira provocou uma dança de cadeiras entre as principais empresas da área de tecnologia. O Facebook tirou o executivo Alexandre Hohagen da presidência do Google. A vaga deixada por Alexandre foi rapidamente preenchida: o escolhido é Fábio Coelho, até então presidente do iG.

Até o início de março, o posto de Fábio estava sendo ocupado interinamente por Pedro Ripper, diretor de estratégia corporativa e novos negócios da Oi, que controla o portal. A entrada de um competidor poderoso como o Facebook é boa notícia para os profissionais: cria-se uma instabilidade no mercado, abrem-se vagas e o salário de muita gente aumenta. Tudo isso ocorre porque o Brasil é um mercado importantíssimo para o Facebook, com 6 milhões de pes-soas conectadas na rede social.

O outro lado do aquecimento do mercado é a pressão sobre os presidentes. Para as multinacionais, que sofrem com a estagnação econômica nos Estados Unidos e na Europa, o objetivo é ganhar o máximo possível de dinheiro por aqui. E isso aumenta a pressão sobre os presidentes das operações locais.

“Existe uma urgência por resultados no Brasil. Todas as companhias estão de olho no que ocorre aqui”, diz Boris Leite, diretor da Axialent, consultoria de gestão, de São Paulo. “O presidente de uma empresa brasileira hoje precisa se virar para dar resultado, porque os acionistas estão esperando um desempenho excelente.” O caso de Luiz Eduardo Falco e Roberto Medeiros, presidentes da Oi e da Redecard, respectivamente, se encaixa no que o mercado chama de encerramento de ciclo.


Os dois executivos permaneceram longos períodos no cargo, obtiveram resultados expressivos e agora deixam o posto. A disposição de Luiz Eduardo de deixar o cargo já era conhecida e ficou mais clara após a Oi ter sido comprada pela Portugal Telecom no ano passado. “Ser presidente é um trabalho de grande responsabilidade e pressão, que exige muita dedicação”, diz Magui Lins e Castro, sócia da CTPartners, empresa de executive search de São Paulo. “Depois de um tempo na função, o profissional sente falta de qualidade de vida.”

A saída de Denise Johnson, que deixou a presidência da GM apenas oito meses após assumir o cargo, revela como os resultados pesam. A versão corrente é que o estopim foi um atrito com um diretor no lançamento da picape Montana. Pela versão do mercado, Denise estava insatisfeita com a qualidade do carro e adiou o lançamento, o que causou impacto nas vendas. Para especialistas de carreira, o caso foi de falta de comunicação. “Ela se concentrou no lado técnico, que é seu forte, e não se dedicou adequadamente ao relacionamento com a equipe e com a rede de concessionárias”, diz um consultor. “Talvez ela tenha evitado um recall, mas faltou comunicação.”

Mais operacional

De acordo com o headhunter Luiz Carlos Cabrera, diretor da Amrop Panelli Motta Cabrera, empresa de busca de executivos de São Paulo, e professor da Eaesp-FGV, há uma tendência de que o CEO se concentre na operação, deixando movimentos estratégicos sob os cuidados do conselho de administração. “É uma divisão de responsabilidades”, diz Luiz Carlos.

O primeiro trimestre também é a época de pagamento dos bônus anuais, o momento mais adequado para trocar de emprego e ainda ter tempo de fazer um bom variável na nova casa. “Nesses meses, a lealdade está mais frouxa”, diz Francisco Ramirez, da ARC Recruiting. A pressão por resultados vai conti-nuar, o que mostra que os CEOs estão sempre na mira, não importa o cenário. “Quando um concorrente aparece com um resultado melhor, o acionista se foca no curto prazo e esquece da estratégia”, diz Boris Leite, da consultoria Axialent. Quer ser presidente? Então, prepare o estômago.