Carreira

“A vida é sobre prioridades, não equilíbrio”, diz Ana Bógus, CEO da NIVEA Brasil

Em entrevista exclusiva à EXAME, a primeira mulher a ocupar a presidência da companhia alemã no Brasil conta sobre os principais desafios e oportunidades de sua carreira

Ana Paula Bógus, CEO da NIVEA Brasil: Nós mulheres precisamos acreditar que somos capazes e que temos direito a esse espaço (NIVEA/Divulgação)

Ana Paula Bógus, CEO da NIVEA Brasil: Nós mulheres precisamos acreditar que somos capazes e que temos direito a esse espaço (NIVEA/Divulgação)

Publicado em 4 de maio de 2024 às 08h00.

Última atualização em 4 de maio de 2024 às 08h45.

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Ana Bógus não sonhava um dia em ser CEO, mas as oportunidades de aprender algo novo a levou para o lugar número 1 em várias oportunidades. Passou por cargos como primeira mulher gerente de vendas na Nestlé, foi a primeira mulher presidente na Kimberly Clark, a primeira a ocupar uma cadeira no conselho da Ánima e agora é a primeira mulher CEO da NIVEA no Brasil.

“Meu irmão fala que eu planejei a minha carreira de CEO. E eu falo que não foi bem assim, eu simplesmente fui aceitando as oportunidades que a vida me deu de aprender”, diz Bógus.

A paulista, filha de um empresário e de uma bibliotecária, viveu a infância em São Paulo e não sabia o que fazer aos 17 anos, então, decidiu estudar Administração na PUC-SP.  Com o desejo de entrar logo no mercado de trabalho, tentou uma vaga para ser secretária do Banco Bamerindus. O seu primeiro emprego abriu novas oportunidades de trabalho. Após atuar um ano como secretária, entrou no programa de estágio e depois seguiu uma carreira de 10 anos no mercado financeiro.

“Eu passei por diferentes áreas objetivando aprender. Eu sempre achava que eu podia aprender alguma coisa diferente e eu tinha coragem de falar que eu não sabia fazer algo.”, afirma Bógus.  “Acredito muito que essa humildade intelectual me ajudou muito a estar na posição de número um de presidente, porque eu fui tendo essa visão generalista de um plano inteiro de uma organização. Acho que isso foi me dando a musculatura para eu me sentar numa cadeira de CEO.”

O apoio começou com eles

“Sei que é um lugar de privilégio, mas tive a oportunidade de trabalhar com homens incríveis que me ajudaram ao longo da minha carreira”, diz Bógus que lembra que grande parte dos homens que a ajudaram tem filhas mulheres. “Eles viram em mim um reflexo do que eles gostariam que as filhas deles, ainda menores, pudessem um dia fazer”, afirma Bógus que reforça que o apoio do marido e de seu mentor, um ex- um tesoureiro do BankBoston, a ajuda com diferentes atividades e direcionamentos até hoje.

Não era apenas para os homens que Bógus buscava ser exemplo, mas para as mulheres principalmente. Com o mantra “uma sobe e puxa a outra”, ela sempre buscou com as suas promoções mostrar para as mulheres ao redor que aquele cargo era possível. “E eu acreditei nisso durante muito tempo e me vi na responsabilidade de abrir o espaço para outras mulheres, apesar dos desafios.”

O desafio de ser uma mulher CEO

Um estudo da Deloitte sobre mulheres em conselhos de administração, abrangendo 50 países e 18.085 empresas, com dados de março de 2023, destaca que globalmente, apenas 6% dos CEOs são mulheres, com um aumento de 1% em relação à pesquisa do ano anterior. Além disso, a pesquisa menciona a expectativa de que a equidade de gênero em cargos de liderança pode ser alcançada até 2038.

Bógus acabou sentindo o maior desafio de ser uma dessas poucas CEOs em uma experiência internacional. Durante 2013 e 2017, ela teve o desafio de ser presidente da Kimberly Clark no Chile, que segundo ela foi um dos períodos mais desafiadores de sua carreira. Com 40 anos e um filho de um ano, foi lá que sentiu o machismo e a solidão por ser uma CEO.

“Uma vez, eu tentei entrar em um grupo de homens CEOs, no Chile, e me falaram que não me deixariam entrar, porque as esposas iam ficar com ciúmes”, diz. “Por causa disso não pude participar do que eles chamavam de ‘confraria’, um encontro de executivos após o expediente para tomar um vinho.”

Com o líder direto na Argentina e ocupando pela primeira vez o cargo de presidente, Bógus encontrou forças naquilo que mais estava te incomodando: a gestão. “Foquei para dentro da organização, em construir um time diverso, que se apoiava”, diz. “No final, foi uma jornada linda, mas, no começo, foi um momento desafiador, porque eu sou uma pessoa de relações e isso foi algo difícil no cargo em que eu ocupava”.

A única mulher que marcou a sua carreira

Durante seus 28 anos de carreira, apenas uma mulher inspirou a carreira de Bógus. Durante seus últimos anos de gestão na Kimberly Clark, Bógus vivia como toda executiva de alto escalão em um ritmo frenético de trabalho. “Eu sempre fui um pouco workaholic e eu tentava equilibrar a minha vida pessoal com a minha vida profissional e social. Eu me cobrava demais e me sentia muito culpada o tempo inteiro.”

Foi então que conheceu a americana Diane, da KC, que deu o seguinte conselho. “A vida é sobre prioridades, e não sobre equilíbrio. E está tudo bem.”

Essa frase tirou um peso das costas de Bógus, que desde então seguiu mais leve em suas tomadas de decisões – que foram muitas.

“Como considero que a vida não tem equilíbrio, eu escolho com mais facilidade dar prioridade ao pilar que é necessário naquele momento. Por exemplo, entrei na NIVEA há dois meses e meio, a prioridade é o meu onboarding aqui, é eu entender a companhia, eu me conectar com os funcionários, é eu estar aqui. Logo estou menos presente familiarmente, com os meus amigos”, diz Bógus que não acredita em uma escolha sem renúncia.

“É importante deixar claro as renúncias com quem convive conosco, seja profissionalmente ou pessoalmente, porque as pessoas têm expectativas sobre nós.”

O “não” ao trabalho aconteceu

Duas situações fizeram Bógus dizer não ao trabalho: maternidade e divórcio.

Quando a executiva engravidou do Rafa, seu único filho, ela recebeu a proposta para ser expatriada para a unidade da Kimberly Clark na África do Sul, assim que voltasse de licença de maternidade.

Eu demorei muito para conseguir engravidar, e o Rafa é o único neto dos meus pais, meu irmão não tem filhos. Queria que meus pais tivessem contato com ele pelo menos nos dois primeiros anos”.

O pedido para ficar no Brasil foi atendido pelo CEO global na época, mas ela não pode ficar mais no cargo de direção dos negócios da divisão centro-oeste e sudeste, em que atuava por 4 anos.

“Eu tinha vendas e trade marketing na divisão, mas tive que tomar a posição de recursos humanos”, diz a executiva que naquele momento ouviu de um headhunter. “Ana, você nunca mais vai conseguir assumir uma posição de negócio, porque você ficou grávida”, mas a vida hoje mostrou ao contrário.

Outro momento importante, foi quando Bógus se separou do pai do Rafa, no Chile, e precisou voltar ao Brasil. “O meu desenvolvimento de carreira natural não seria voltar para o Brasil, seria assumir um país maior e eu tomei a decisão de arcar com as consequências e falar, eu não vou fazer o próximo passo, que naquele momento era assumir a Argentina”, diz. “Priorizei realmente o que era importante para o meu filho e estar mais presente com ele”.

Bógus conta que naquele momento a Kimberly Clark foi realmente compreensível. Demorou cerca de seis meses, mas encontraram uma posição para ela no Brasil. “Assumi a presidência de B2B nesse momento, mas eu tive que ser firme com essa decisão.”

A diversidade que se sente na pele

Uma pesquisa realizada pela KPMG com 70 executivas líderes apontou que 67% das empresas em que elas atuam não fazem a mensuração da diferença de salário entre gêneros. Quando questionadas sobre a criação de ambientes mais diversos e inclusivos, 83% das entrevistadas disseram que a liderança da empresa em atuam não tem metas de diversidade atreladas à performance e remuneração da diretoria. Sobre a adoção de estratégias para implementação de políticas de remuneração justa, 24% declararam que a organização não a faz.

Em 2022, segundo dados do IBGE, mulheres eram 39,3% dos ocupados em cargos gerenciais (variando entre as atividades econômicas). Quando o recorte é salário, homens ocupando cargos gerenciais tiveram rendimento de R$ 8.378, enquanto o rendimento das mulheres nesses cargos foi de R$ 6.600 (78,8% do rendimento deles).

Para Bógus, metas são essenciais para alcançar a diversidade no time. “Acredito em meta, porque precisamos ser intencionais nesse momento.”

O maior desafio da companhia é alcançar um número maior de negros no time. Hoje, 24% de pessoas são negras na companhia. A meta é ter 30% de pessoas negras até final de 2025. “Temos que representar aqui dentro, o consumo que está lá fora. Isso vai ajudar a inovação e a escutar o que está acontecendo no mundo.”

Considerando a atuação da NIVEA em mais de 100 países, mulheres ocupam 50,1% das posições de gerência e diretoria. Já o conselho executivo é composto por 42,9% de mulheres.

No Brasil, 57% dos cargos de liderança ocupados por executivas mulheres. Quando avaliado o quadro geral das funcionárias, o índice chega a 62% de mulheres. “Apesar do segmento, é uma super conquista”, diz, “De onde eu vejo e estou hoje, estamos trabalhando para a diversidade no Brasil de uma forma bastante intencional, e sobretudo cuidando das pessoas, que aqui na NIVEA faz parte do nosso propósito, de cuidar da pele que a gente tem aqui.”

Uma das ações de diversidade é a Sisterhood is Power. A iniciativa surgiu das próprias funcionárias com objetivo de promover o acolhimento de mulheres em suas carreiras, assim como discussões sobre gênero. “Neste encontro não tem só mulheres, estão presentes todas as pessoas da companhia”, diz a CEO.

Uma outra iniciativa que envolve diversidade virou case global para a companhia. É o Care Beyond Voice, em que a gente contratou, junto a um instituto chamado “Instituto Fala”, nove deficientes auditivos e junto com eles contratamos um professor de libras para a fábrica.

“Todos já tinham trabalhado antes, mas falaram que nunca se sentiram tão parte de algo grande como estão sentindo agora. Foi emocionante quando eu estive lá com eles.” A companhia levou os funcionários com deficiência audiovisual para Hamburgo, Alemanha, para conhecer a sede. “Segundo o nosso CEO global, esse programa do Brasil passou a ser uma prioridade para todas as fábricas do mundo.”

O direito a este lugar

O estudo da Deloitte realizado neste ano mostra um aumento no percentual de mulheres em conselhos de administração, de 8,6% em 2018 para 15,9% em 2023. Já se vê um avanço, mas também um longo caminho para alcançar a equidade de gênero nesta área.

Bógus além de CEO, também faz parte dessa porcentagem de mulheres no Conselho, porque é conselheira independente da Ánima, organização educacional. “Por estar em uma posição executiva não tenho tanto tempo livre para fazer dois conselhos, o foco hoje é minha posição executiva”, diz a executiva que acredita que viver de Conselho é um desafio bem mais para frente. “Eu ainda quero ter essa jornada executiva por bastante tempo.”

Enquanto isso, como mulher executiva, para as mulheres avançarem no mercado, Bógus diz que é preciso estar preparada e ir além do mantra “uma sobe e leva a outra”.

“Acredito que é preciso reforçar o entendimento do quanto a mulher pode contribuir e o papel da mulher de acreditar que ela pode mesmo.”

Apesar de dados do IBGE mostrar que em 2022 as mulheres estudaram mais e ganharam menos que os homens no Brasil em 2022 (as mulheres correspondiam a 60,3% dos estudantes concluintes nos cursos presenciais de graduação), Bógus reforça que é importante a mulher estar preparada para quando a oportunidade chegar e para isso conhecimento é fundamental, assim como experiência no mercado de trabalho.

“Acho que as gerações novas deveriam buscar mais a expatriação, não precisa esperar ser um CEO, já recomendo no meio da carreira, porque a experiência internacional que eu tive no Chile me tornou uma profissional muito mais completa não só por conteúdo, mas por maturidade realmente, de gestão como um todo”, diz. “Por isso sempre falo: estudem muito, se preparem muito, porque os avanços na carreira podem ser mais rápido, mas tem que estar preparada”.

A outra sugestão da executiva é acreditar em si mesmo. Bógus lembra que teve um chefe que fez uma encenação, em um momento em que ela chegou para ele para pedir uma promoção. “Demorei uma hora para eu falar para ele que eu queria ganhar mais, e ele escutou tudo e saiu da sala.” O chefe voltou pouco tempo depois para a sala, e de pé falou à Bógus: “Olha aqui, eu estou dando o meu melhor aqui, estou construindo muita coisa e eu quero saber se eu posso ter esse lugar ou não”, disse o chefe que reforçou que era assim que um homem faria, tudo o que ela fez durante uma hora.

“Isso foi uma lição que ele me trouxe para refletir, porque muitas vezes pedimos como se estivéssemos pedindo alguma coisa que não temos direito”, diz. “Nós mulheres precisamos acreditar que somos capazes e que temos direito a esse espaço. Que não estamos pedindo um favor, mas sim porque nós realmente nos preparamos para estar aqui.”

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