Biden fala em união num país dividido

Coluna semanal do analista Márcio de Freitas comenta os temas nacionais e internacionais mais debatidos entre os poderes em Brasília

O discurso de posse do novo presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, sinalizou prioridade de trabalho pela união em um país que saiu da disputa eleitoral extremamente dividido. Esse será o maior desafio a ser vencido pelo governante da maior potência mundial. Foi eloquente na cerimônia, até como sinal para demonstrar o tamanho da encrenca dos próximos quatro anos, a ausência de Donald Trump.  Ele agora é um ex-presidente com tempo de sobra para disparar golpes de golfe em seus resorts e bater com tacapes verbais contra Biden, em redes sociais alternativas e na mídia de direita do país.

A direita norte-americana não se recolherá tão facilmente. Seu histórico de avanço remonta aos anos 60, enquanto os lisérgicos ácidos levavam à Califórnia e São Francisco era meca das flores nos cabelos, havia um renascimento conservador embalado pelo sentimento religioso que preparava a revanche. E ela veio com Richard Nixon, mas que se perdeu nas salas do edifício Watergate. Contudo, ele representou a possibilidade de uma agenda radicalizada, afastando o centro político e jogando o país aos extremos, antes de renunciar.

Depois do fiasco de Jimmy Carter, o ator Ronald Reagan consolidou o movimento da direita conversadora. Mesmo com resultados duvidosos em dados econômicos, o ex-ator de segunda linha teve vitórias expressivas no cenário internacional. Foi em sua presidência que o Muro de Berlin desabou e a Perestroika da União Soviética trouxe das memórias do subsolo várias nações que estavam soterradas sob o falido comunismo de Moscou.

Trump ecoou durante seu mandato várias frases de Nixon e Reagan. Político menor e menos preparado que ambos, funcionou como um catalisador de personagens que magnetizaram nos últimos anos o americano médio, branco e do interior, com sonhos de um retorno a um mundo idílico que nunca houve. E embalaram promessas jamais concretizadas. Mas que soldaram o discurso trumpista de fazer a "América grande de novo" - frase que Reagan entoou à exaustão em seus discursos nos anos 80.

Reagan pode ter sido um canastrão nas telas, mas era um político de talento efetivo e, depois de reeleito, deixou o governo nas mãos de seu vice-presidente, George Bush. Este perdeu a reeleição para Bill Clinton, com boa gestão econômica mas derrotado moralmente pelas estagiárias que seduziu na Casa Branca, para escândalo das carolas cristãs e ateus mais sisudos.

George W. Bush o sucedeu, mantendo a linha conservadora moderada do pai. Primeiro negro a comandar o país do Salão Oval, Barack Obama trouxe uma diversidade e uma expectativa imensa de transformação, contida pelo Tea Party e pelo limite real de poder de um presidente dentro de uma democracia com muitos freios e contrapesos realmente pesados.

A presidência de Trump foi a radicalização de uma sociedade onde os movimentos de rede social e as mídias alternativas, sejam de direita ou de esquerda, pululam e influenciam sem o controle imposto aos meios tradicionais de comunicação. Num gesto simbólico, Trump concedeu como ato final de administração o perdão presidencial a Steve Bannon, o ultradireitista que comandou sua campanha de difamação e ataques, por quaisquer meios de comunicação, à Hillary Clinton. E ainda embolsou dinheiro doado para a construção de um muro para separar os Estados Unidos do México.

Se Nixon foi a tragédia, Trump soa a farsa como repetição histórica. Se Reagan brilhou além das telas, Trump se apagou num melancólico final de mandato que mais lembra Andrew Johnson, que era vice-presidente quando mataram Abraham Lincoln. Toda a união e a vitória contra a escravidão conquistadas por Lincoln passaram a ser ameaçadas por Johnson, que correu o risco de impeachment e não compareceu à posse de seu sucessor - as semelhanças com Trump mostram que a divisão do país não é recente…

Depois de 150 anos, Trump também não compareceu à posse de seu sucessor. A descortesia sinaliza ataques próximos. Biden ergueu como escudo protetor um discurso de paz e conciliação. O ex-vice-presidente Mike Pence estava presente ouvindo. Ele foi fiel a Trump por anos, mas parece que o canto de união do presidente democrata falou mais alto neste momento. Mas Biden terá ainda de falar muito para ser ouvido por outros norte-americanos dos rincões do oeste selvagem e do interior congelado neste inverno do Norte. E também por cidadão de outras partes do mundo. A união e o consenso podem colaborar, e muito, para o mundo enfrentar a pandemia, a pobreza e as crises que espreitam em anos vindouros.

* Analista Político da FSB

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