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Flávio Bolsonaro mantém força eleitoral apesar do desgaste político, diz especialista

Em entrevista à EXAME, o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski diz que a principal conclusão da série histórica de sete levantamentos realizados pela Nexus é a resiliência da base bolsonarista

Flávio: Senador mostra resiliência e segue com mais de 30% das intenções de voto (Vittor Sales/Campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação)

Flávio: Senador mostra resiliência e segue com mais de 30% das intenções de voto (Vittor Sales/Campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 1 de agosto de 2026 às 08h00.

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O desgaste político enfrentado por Flávio Bolsonaro (PL) nas últimas semanas ainda não produziu efeitos relevantes sobre seu desempenho eleitoral. Para o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, os episódios envolvendo o senador afetaram mais o ambiente político — como as negociações partidárias e a formação de alianças — do que a intenção de voto dos eleitores. "O impacto foi na política. No eleitorado, porém, o eleitor dele continua votando nele", afirma.

Em entrevista à EXAME, Tokarski diz que a principal conclusão da série histórica de sete levantamentos realizados pela Nexus é a resiliência da base bolsonarista. "Hoje, a resiliência do bolsonarismo é o que barra a terceira via e faz do Flávio um candidato competitivo contra o Lula", afirma.

A avaliação complementa os resultados da mais recente pesquisa BTG/Nexus, publicada pela EXAME no início da semana. O levantamento mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança da corrida presidencial no 1º turno, enquanto Flávio permaneceu como principal nome da oposição. No segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados. 

Na conversa, Tokarski explica por que considera improvável uma mudança de candidato no campo bolsonarista, detalha os segmentos do eleitorado que vêm apresentando alterações nas pesquisas e aponta o Sudeste como a região que merece maior atenção na reta que antecede o primeiro turno.

Leia a entrevista completa com o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski

A última rodada da BTG/Nexus reforça um cenário de estabilidade entre Lula e Flávio Bolsonaro. O que ela mostra?

O que a gente vê nessa série histórica mais longa é que, na verdade, pouca coisa mudou. Vamos fazer a cronologia. Em dezembro, o Flávio Bolsonaro é indicado pelo pai como candidato. Rapidamente ele cresceu nas pesquisas porque herdou os votos do bolsonarismo. Eu costumo brincar que não foi nem uma transferência, foi uma transfusão de votos. Foi na veia, rapidinho. O primeiro episódio mais desgastante foi a história do áudio enviado ao Daniel Vorcaro. Depois teve vídeo da Michelle, teve a foto com o sicário. No campo do Lula também teve a operação contra Jacques Wagner. Mas o que a gente vê é que houve um movimento e um não movimento. O movimento aconteceu no mundo da política. A expectativa era de uma coligação grande e, até aqui, o partido dele está sozinho. Isso aconteceu porque toda essa confusão gerou um receio no mundo político de que possa surgir algo mais comprometedor. Agora, o efeito eleitoral, por enquanto, foi muito pequeno. Se você pegar a média das pesquisas, o Flávio perdeu muito pouco e o Lula continua mais ou menos estável.

Como você explica essa resiliência do bolsonarismo, mesmo depois de meses de desgaste?

O Flávio — e aí não exatamente o Flávio, mas o bolsonarismo — tem essa resiliência e ainda mantém um capital político forte. Eu fiz uma analogia hoje que ajuda a explicar isso. Vamos pensar numa corrida de Fórmula 1. O Lula pilota uma Ferrari, que hoje é a equipe mais forte. O motor dessa Ferrari é o PT. Logo atrás vem a McLaren, que seria o bolsonarismo. O dono da equipe é o Jair Bolsonaro e o piloto é o Flávio Bolsonaro. Os outros candidatos estão pilotando carros de equipes menores. Por mais que o PSD seja um partido grande, hoje eles não conseguiram encontrar um nome competitivo. Vale para o Caiado, para o Zema e para outros candidatos que aparecem um pouco melhor nas pesquisas. Quando a gente olha para o segundo turno, eles até aparecem competitivos contra o Lula.

O que quer dizer com essa analogia? 

Se você colocar o Caiado no carro do Flávio, ou seja, empurrado pelo motor do bolsonarismo, ele é competitivo contra o Lula no segundo turno. O problema é que, para chegar lá, ele precisa passar pela primeira etapa da corrida. Hoje ele está muito longe. Tem cerca de 6% das intenções de voto, enquanto o Flávio está com 33% e o Lula com 42%. Por que esse cenário não muda? Porque a força da campanha do Flávio é a força do bolsonarismo. Para isso mudar de maneira forte, existem algumas hipóteses. Uma seria o bolsonarismo perder força. Mas vamos pensar: o Bolsonaro perdeu a eleição há quatro anos, foi condenado, está preso, há um ano não pode usar redes sociais e, ainda assim, o filho dele tem um terço das intenções de voto no primeiro turno. Então o Bolsonaro continua com uma força política muito grande. Ou, pelo menos, continua conseguindo arregimentar muitos eleitores. A outra hipótese seria trocar o piloto. Só que, para trocar o piloto, precisaria combinar com o dono da equipe, que é o pai. E não há motivo para fazer isso se o carro e o piloto continuam competitivos e têm chances reais de ganhar a eleição.

E essa resiliência trava a terceira via? 

Hoje, a resiliência do bolsonarismo é o que barra a terceira via e faz do Flávio um candidato competitivo contra o Lula. O cenário mais provável, em todos os estudos, continua sendo um segundo turno entre os dois. Muita gente diz que, quando as pessoas perceberem que o Caiado teria mais chances de vencer o Lula, o eleitor poderia migrar. Pode ser que um ou outro migre. Mas uma massa de eleitores não muda assim. Eu lembro dessa conversa em 2018. Diziam que o Ciro tinha mais chances de vencer o Bolsonaro. Em 2022 foi a mesma coisa. O Ciro aparecia muito bem nas simulações de segundo turno. Só que, para chegar ao segundo turno, você precisa passar pelo primeiro. Não estou dizendo que isso seja impossível. Eleição no Brasil é dinâmica e ainda faltam mais de dois meses para o primeiro turno. Mas, hoje, não existe nada no cenário que indique que o Jair Bolsonaro queira trocar o Flávio Bolsonaro ou que o Flávio vá derreter nas pesquisas. Tudo o que aconteceu até aqui praticamente não causou estrago eleitoral. Algum impacto houve, claro. O impacto foi na política. No eleitorado, porém, o eleitor dele continua votando nele.

Quando olhamos para os recortes da pesquisa, o que mais chama atenção?

Primeiro, precisamos tomar um pouco de cuidado quando olhamos para os perfis sociodemográficos. Numa pesquisa com duas mil entrevistas, que é o padrão da maioria dos institutos, a margem de erro dentro de cada segmento é maior. Quando olhamos para as tendências dos perfis eleitorais, homens e mulheres quase não mudaram. As mulheres continuam muito mais inclinadas ao Lula. Os homens continuam mais próximos do bolsonarismo. Esse patamar de voto tem sido muito parecido em todas as pesquisas que a gente faz. Quando olhamos por idade, existe uma diferença no eleitorado com 60 anos ou mais. É nesse grupo que o Lula ganhou algum espaço. Esse crescimento discreto que ele teve recentemente veio muito desse público. É um eleitor que, em 2002, quando o Lula foi eleito pela primeira vez, já tinha pelo menos 36 anos. Ou seja, já trabalhava, viveu aquele período e conhece os governos Lula 1 e Lula 2. É um eleitor mais experiente. Quando a gente vai para renda, está tudo muito parecido. O Lula continua mais forte entre a população de menor renda e o Flávio continua mais forte na renda mais alta. Onde a gente tem visto uma mudança um pouco maior é na divisão por região.

Regionalmente, onde a disputa mudou mais?

Quando comparamos o cenário atual com a eleição de quatro anos atrás, Norte, Centro-Oeste e Sul estão muito parecidos com o comportamento eleitoral que tiveram naquele segundo turno. Não houve grandes mudanças nessas regiões. No Nordeste, no início do ano, o Lula aparecia um pouco mais desgastado. Ele continuava vencendo, mas por uma diferença menor do que a vantagem muito ampla que sempre teve. E nunca devemos olhar apenas para o Nordeste como uma questão regional. O Nordeste também é uma região de renda mais baixa. Então existe uma relação com renda, com dificuldades econômicas e com a situação financeira das pessoas. Ao mesmo tempo, o Flávio estava um pouco melhor no Nordeste do que o pai esteve há quatro anos. Muito em função do fortalecimento da direita na região. Se olharmos para as eleições municipais de 2024, a direita teve um desempenho forte em várias cidades importantes do Nordeste. Nas últimas semanas, o Lula recuperou parte desse terreno. E isso ajuda a explicar a melhora entre os beneficiários do Bolsa Família. Ele voltou a apresentar um padrão de voto muito parecido com o que sempre teve nesse eleitorado.

E as outras regiões?

Hoje, a maior diferença está no Sudeste. O Sudeste concentra cerca de 42% ou 43% do eleitorado brasileiro. O Nordeste representa algo em torno de 28%. São os dois maiores colégios eleitorais do país. Dentro do Sudeste, existem três estados em que o cenário hoje está diferente. O primeiro é Minas Gerais. Há quatro anos, o Lula venceu em Minas por cerca de 50 mil votos. Em um estado do tamanho de Minas, isso praticamente representa um empate. Hoje, dependendo da pesquisa, ele aparece com três, quatro ou cinco pontos de vantagem no segundo turno. Em São Paulo, que é o maior colégio eleitoral do Brasil, a diferença também diminuiu. Ela continua favorável ao Flávio, mas é menor do que foi há quatro anos. Muito menor do que foi em 2018 e também menor do que em 2022. O Lula continua perdendo em São Paulo, mas perde por uma diferença menor. A novidade mais recente é o Rio de Janeiro.

Em qual sentido o Rio é novidade? 

Até o começo do ano, o bolsonarismo aparecia muito forte no estado e o Lula vinha bastante desgastado. Mas, depois de todas as operações policiais, prisões e investigações envolvendo políticos e pessoas ligadas ao campo bolsonarista, as pesquisas mais recentes passaram a mostrar um empate técnico entre os dois no Rio de Janeiro. Essa pequena vantagem que o Lula vem abrindo nacionalmente passa muito por esses três estados. No restante do país, o comportamento do eleitor continua muito parecido com o que a gente viu há quatro anos. Nordeste e Sudeste juntos representam aproximadamente 70% dos votos. Com todo o respeito ao Sul, ao Centro-Oeste e ao Norte, é nessas duas regiões que normalmente a eleição presidencial acaba sendo decidida. É ali que os candidatos precisam concentrar seus esforços.

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