Crianças chegando na escola em SP: dados divulgados pelo MEC mostram que o Ideb da rede pública passou de 5,7 para 6,1 nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, de 4,7 para 5,0 nos Anos Finais e de 4,1 para 4,3 no Ensino Médio — os melhores resultados da série histórica iniciada em 2005. (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 06h00.
O Brasil registrou melhora no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em todas as etapas avaliadas em 2025 e recuperou, em linhas gerais, o nível de aprendizagem observado antes da pandemia.
A evolução, porém, ainda ocorre sobre uma base considerada baixa e esconde diferenças relevantes entre as redes estaduais, avalia a presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, em entrevista exclusiva.
Segundo ela, o principal aspecto desta edição é que o crescimento ocorreu de forma mais disseminada pelo país, ao contrário dos ciclos anteriores, marcados por avanços isolados e estagnação em diversas redes.
Ainda assim, estados com grande peso no sistema educacional, como São Paulo e Rio de Janeiro, continuam puxando a média nacional para baixo. "Quando você tem queda no Rio de Janeiro e São Paulo parado, isso tem um reflexo enorme na média nacional", afirmou.
Os dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) mostram que o Ideb da rede pública passou de 5,7 para 6,1 nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, de 4,7 para 5,0 nos Anos Finais e de 4,1 para 4,3 no Ensino Médio — os melhores resultados da série histórica iniciada em 2005. Apesar disso, apenas os estudantes dos Anos Iniciais atingiram, em média, o nível adequado de aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática.
O resultado também marca a recuperação dos níveis registrados antes da pandemia. No entanto, os alunos avaliados em 2025 ainda tiveram parte da trajetória escolar afetada pelo fechamento das escolas. Os estudantes do 5º ano estavam na Pré-escola ou no 1º ano durante a pandemia; os do 9º ano cursavam o 4º e o 5º anos; e os concluintes do Ensino Médio estavam no 7º e no 8º anos do Ensino Fundamental.
Embora o Ideb tenha avançado em todas as etapas, a aprendizagem continua sendo o principal desafio. Nos Anos Finais, a média dos estudantes permanece no nível básico em Língua Portuguesa e Matemática. No Ensino Médio, a situação é ainda mais crítica: em Matemática, o desempenho segue abaixo do básico.
Para Priscila Cruz, a principal novidade desta edição não é apenas a melhora dos indicadores, mas o fato de que praticamente todas as redes avançaram ao mesmo tempo.“Pela primeira vez, a gente tem um avanço mais em bloco, do Brasil todo avançando. Em edições anteriores, a gente tinha um avanço mais heterogêneo, com muita estagnação, alguns estados avançando muito e outros até retrocedendo”, disse.
Na avaliação da dirigente, isso indica que as redes conseguiram recuperar parte das perdas provocadas pela pandemia.
O desafio agora passa a ser acelerar a aprendizagem, já que boa parte do crescimento recente do Ideb também foi impulsionada pela melhora do fluxo escolar, indicador que mede aprovação e progressão dos estudantes.
Os resultados estaduais reforçam que não há uma relação direta entre desempenho educacional, renda ou orientação política dos governos.
O Paraná terminou 2025 com o maior Ideb e o melhor indicador de aprendizagem nas três etapas avaliadas. Ceará e Goiás permaneceram entre os destaques nacionais, enquanto Piauí e Rio Grande do Sul registraram as maiores evoluções no Ensino Médio.
Para Priscila, esses casos demonstram que boas políticas públicas podem ser implementadas em diferentes contextos.
“Você tem estados grandes, estados pobres, estados de direita, estados de esquerda, do Norte, do Nordeste e do Sul. Você tem bons exemplos”, afirmou.
Segundo ela, as redes que avançam compartilham características semelhantes. O primeiro elemento é o envolvimento direto do governador ou do prefeito com a agenda da educação.
“Está na agenda do governador e do prefeito. Eles fazem reuniões periódicas com a Secretaria de Educação, acompanham os resultados e cobram a implementação.”
A presidente do Todos Pela Educação afirma que as melhores gestões também mantêm planejamento estruturado, foco na execução das políticas e acompanhamento frequente das escolas.
“É um trabalho que tem zero glamour. São secretários trabalhando doze horas por dia, recebendo diretor, acompanhando resultado, implementando política pública.”
Na visão dela, justamente por exigir continuidade e acompanhamento, esse tipo de gestão costuma gerar pouca visibilidade política.
“Política pública educacional que funciona é aquela que, em geral, não dá post em rede social", diz.
Se alguns estados ajudam a puxar os indicadores para cima, outros exercem o efeito contrário. Priscila chama atenção para São Paulo e Rio de Janeiro, responsáveis por cerca de 30% das matrículas da Educação Básica no país.
Segundo ela, o desempenho dessas redes ajuda a explicar por que a evolução nacional parece mais modesta do que a observada em estados como Paraná, Piauí ou Ceará.
“O Rio de Janeiro retrocedeu e São Paulo está estagnado. Isso tem um reflexo enorme na média nacional", afirma.
A dirigente faz críticas especialmente ao caso paulista. “São Paulo tem muito dinheiro, tem as principais universidades. Não tem desculpa para não avançar.”
Ela afirma que um crescimento de apenas 0,1 ponto no Ideb representa um avanço vegetativo das escolas e não o resultado de políticas públicas capazes de elevar a aprendizagem.
“São Paulo, com tudo o que tem, melhorar 0,1 é um escândalo”, afirmou.Na avaliação da presidente do Todos Pela Educação, a Secretaria da Educação adotou uma estratégia muito diferente das experiências bem-sucedidas observadas em outros estados.
“Botou lá umas plataformas, encheu os professores de plataforma para seguir. Fez uma coisa totalmente diferente de todo o resto que está dando certo.”
Ela também avalia que o protagonismo do governador deveria estar menos associado a inaugurações de escolas e mais ao acompanhamento dos resultados da rede.
“Governador não é para ficar inaugurando escola. É para cobrar resultado, fazer reunião de trabalho.”
Na avaliação de Priscila, o Brasil não enfrenta falta de conhecimento sobre políticas educacionais.
Segundo ela, os exemplos acumulados ao longo das últimas décadas mostram que existe um conjunto relativamente conhecido de medidas capazes de melhorar os indicadores.
Entre elas estão a formação continuada de professores baseada em avaliações periódicas, o fortalecimento da educação integral com qualidade, o acompanhamento constante das escolas e o foco na implementação das políticas públicas.
“Não é rocket science, ciência de foguetes. A gente tem um monte de bons casos no Brasil. Dá para aprender com os outros.”
Ela afirma que o maior desafio não é desenhar novas políticas, mas executá-las com continuidade.
“O secretário tem que cuidar da implementação para ela chegar com impacto na sala de aula.”
O encerramento de vinte anos da série histórica do Ideb também abre espaço para discutir mudanças no próprio sistema de avaliação.
O Todos Pela Educação defende a modernização do Saeb e do Ideb para aproximar as provas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ampliar a capacidade de medir habilidades mais complexas.
Para Priscila Cruz, a divulgação dos resultados de 2025 deixa duas mensagens principais: o Brasil conseguiu recuperar parte das perdas provocadas pela pandemia, mas o próximo salto dependerá menos do aumento das taxas de aprovação e mais da capacidade das redes de garantir aprendizagem efetiva aos estudantes.