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Temos futuro: editor narra desafios de cobrir a enchente num jornal tomado pela água em Porto Alegre

Com 128 anos de história, Correio do Povo foi invadido pelo Guaíba e foi preciso uma força-tarefa para seguir informando a população quando seus leitores mais precisam

Telmo Flor, Diretor de Redação do Correio do Povo (Knight Center for Journalism/Reprodução)

Telmo Flor, Diretor de Redação do Correio do Povo (Knight Center for Journalism/Reprodução)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 10 de maio de 2024 às 19h00.

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*Por Telmo Flor, Diretor de Redação do Correio do Povo

A capa da versão impressa do Correio do Povo da sexta-feira, 3 de maio, prenunciava o que estava por vir nas próximas horas. Sobre uma foto de região interiorana coberta pela água, a palavra "DILÚVIO" assim, em caixa alta, em uma diagramação inusual para um jornal tradicional, com 128 anos e normalmente bem mais sisudo em seu design, era um alerta sobre o volume de água rios acima, na maior bacia hidrográfica do Rio Grande do Sul e que deságua toda no Guaíba, rios para uns, lago para outros, e que banha Porto Alegre. Logo o Guaíba já parecia um mar barrento, e passamos a viver na capital gaúcha um drama que os jornais da Capital estavam acostumados a reportar em áreas quilômetros adiante da nossa cidade.

Era o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e passávamos a viver no Correio do Povo um dos maiores desafios de nossa história, em que que já vimos guerras, revoluções sangrentas e calamidades sem deixar de cumprir nossa missão de informar. Uma das poucas vezes que as rotativas do jornal haviam sido paralisadas por alguns dias foi em 1941, ano em que uma enchente chegou até a impressora junto ao prédio que passamos a ocupar em 1946, o centenário edifício Hudson, na rua que hoje leva o nome de nosso fundador, Caldas Júnior.

Ao entrar na Redação olhei mais uma vez para uma foto quase poética de uma moça suspendendo a saia para andar pela rua dos Andradas, que os porto-alegrenses tratam por rua da Praia desde a fundação da cidade, em 1772. A foto de 1941, bem na frente da então sede do Correio do Povo, ao lado da atual, está em um quadro em minha sala e é uma lembrança permanente do maior cataclisma que a cidade havia vivido até então. Por décadas a cidade se preparou para que a cena não se repetisse e confiávamos em sistema de proteção contra as cheias, com diques, barragens, bombas e um polêmico Muro da Mauá, que separa o Guaíba de seu povo.

Mal começava a tarde e fui avisado que o sistema não estava resistindo ao volume da chuva. O Quarto Distrito, onde fica localizada a planta industrial do jornal, com sua impressora instalada em 1997, começava a ser invadido pela água. Logo a impressora estava inundada e a prefeitura determinava a evacuação do Centro Histórico, onde ficam a sede e a Redação do Correio do Povo e da Rádio Guaíba.

Assim, ficaríamos sem imprimir e fora da Redação, mas não podíamos nos permitir abandonar nossa missão. A energia foi cortada e os geradores ligados, mas teriam que parar se a água invadisse nosso prédio, no qual ingressei como jornalista em 1985. Mesmo nos tempos duros da pandemia, com a equipe em home office, tínhamos energia na sede, com os sistemas, computadores e outros equipamentos essenciais funcionando.

Formamos uma pequena força-tarefa para manter a operação on-line e confeccionar uma edição digital, no chamado formato flip, para que os cadernos de fim de semana pudessem ser lidos pelos leitores do impresso em um desenho mais próximo ao que estão acostumados. Passei a visitar a sacada junto à minha sala para monitorar a subida da água pela Caldas Júnior. Às 21h, quando a água alcançou a porta do jornal, concluímos a edição às pressas, o gerador foi desligado e os poucos que ali estavam tiveram que deixar o prédio pela rua da Praia, já parcialmente inundada. O pessoal da Rádio Guaíba já havia recebido guarida na sede da TV Record RS, nossa parceira de Grupo.

Despedimo-nos com a esperança de que a água não entrasse no prédio e que poderíamos retomar nosso trabalho com a maioria em home, como na pandemia. Logo alguém lembrou que nos tempos de Covid também esperávamos voltar logo, mas para muitos a jornada externa se estendeu então por quase dois anos.

O pouco otimismo acabou já na madrugada de sábado para domingo. A inundação atingiu o prédio internamente, vários profissionais estavam ilhados em suas casas sem energia, internet e água, alguns deles à espera de resgate, a água na rotativa alcançou quase dois metros e a maior parte dos equipamentos essenciais e servidores de sistemas sem chance de serem religados. Mas precisávamos continuar em nossa missão de informar. Afinal, é o que a comunidade espera de seus jornais e jornalistas.

Pouco antes de deixar a sede na noite de sexta, recebi uma ligação da colega Marta Gleich, de Zero Hora, oferecendo o apoio e a solidariedade do Grupo RBS. Lembrei então de uma diretriz que jornalistas costumam seguir e que Marta havia citado dias antes: "Informação salva". Dias depois, foi a minha vez de ligar para Marta, quando o prédio da RBS foi evacuado, e compartilhar a dor de abandonar o habitat natural dos jornalistas, as Redações em que o jornalismo profissional comprometido com suas comunidades viceja e apoia os que estão em campo, na linha de frente onde a notícia está.

Em casa, nas ruas e estradas, em condições cada dia mais difíceis, os jornalistas do Correio do Povo mantiveram seu compromisso. As equipes que estavam no Interior mantiveram a cobertura mesmo em condições muito difíceis, como no caso de uma delas que foi obrigada a permanecer retida por dias em cidade próxima, inacessível por via rodoviária a Porto Alegre.

Outros de nossos jornalistas juntaram-se na casa de quem tinha luz e internet, mas também tiveram que sair, como nômades, a procura de condições fora das áreas que passaram a ser inundadas, algumas vezes tendo que se refugiar no Litoral do Estado, uma das poucas regiões não afetadas e que foi o destino, inclusive da chefe de produção e que foi resgatada após ter sua residência tomada por 1,80 metro de água. Ele já está de volta à produção diária de conteúdo.

Nos dias seguintes, conseguimos retirar alguns equipamentos, nas costas do presidente da empresa e de outros funcionários. A expectativa de voltar ao nosso prédio para trabalhar se esvaiu com a subida da água, alguns funcionários tiveram a volta da energia em suas casas e não deixamos de fazer jornalismo nem um dia, nem uma hora. Pela web chegamos aos leitores e cumprimos nosso compromisso de levar informação ao povo.

Nossas condições são difíceis em muitos casos, mas são incomparavelmente melhores que as de grande parte da comunidade a que servimos. O número de mortes já ultrapassa a centena, pessoas continuam sendo resgatadas, mas o Brasil e o mundo se solidarizam com os gaúchos. A solidariedade, o esforço do poder público e dos voluntários e a informação qualificada que os jornalistas gaúchos e de todo o Brasil que vieram para cá disseminam estão salvando vidas e ajudando o Estado a ter esperanças.

Quando escrevo é novamente sexta-feira. Estamos às voltas com a edição de fim de semana e a chuva que voltou a cair assusta, e muito, quem ainda não pode sequer voltar para casa. Mas a confiança no papel da nossa profissão continua viva. Pouco antes da enchente, havíamos iniciado os trâmites para contratação de alguns funcionários. Hoje autorizei o ingresso no trabalho de uma jovem jornalista que insiste em começar logo nesses dias difíceis. Ela acredita na sua missão de jornalista. Nós temos futuro.

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