Auxílio de US$1000 e floresta “antifogo” geram críticas a Bolsonaro na ONU

Entre comentários de autoridades e organizações ambientais destacam-se alguns elogios e queixas sobre dados falsos ditos pelo presidente 

Após discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira, 22, #BolsonaronaOnu virou o assunto mais comentado entre brasileiros no Twitter. 

Entre os comentários de internautas, autoridades e organizações ambientais destacam-se queixas sobre informações falsas proferidas pelo presidente.

Na fala de cerca de 15 minutos Bolsonaro pontuou que “nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior”. Disse também que o Brasil é modelo na gestão ambiental e que tem sofrido ataques internacionais devido a interesses comerciais.

“Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta. Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, disse.

O discurso do presidente vem em um momento de pressão internacional contra o Brasil, à medida em que rodam o mundo as imagens de queimadas e desmatamento.

É de praxe para a diplomacia brasileira abrir a Assembleia, e o discurso de Bolsonaro foi gravado e concluído ainda na semana passada. O evento está sendo virtual pela primeira vez nos 75 anos das Nações Unidas, com algumas poucas autoridades presentes devido à pandemia do novo coronavírus (clique aqui para assistir à Assembleia da ONU ao vivo).

Na avaliação do Observatório do Clima, o discurso foi “calculadamente delirante” e confirma as preocupações de investidores estrangeiros quanto às crises ambiental e sanitária no país. A entidade ambientalista reúne mais de 50 Organizações Não-governamentais (ONGs) e movimentos sociais.

Segundo Bolsonaro, o Brasil é vítima de “uma das mais brutais campanhas de desinformação” sobre a questão ambiental. A declaração do presidente “não foi voltada à comunidade internacional, mas sim à claque bolsonarista”, destaca a entidade.

As discussões para a efetivação do acordo entre União Europeia e Mercosul têm sido protagonizadas pela questão ambiental e o temor de que o acordo possa intensificar ainda mais o desmate nas florestas brasileiras.

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, a fala de Bolsonaro ameaça a Economia ao não propor soluções aos problemas ambientais do país e acusar um “conluio inexistente entre ONGs e potências estrangeiras” contra o Brasil.

“Bolsonaro Não teve o objetivo real de prestar esclarecimentos sobre a situação do Brasil a parceiros comerciais e consumidores preocupados, muito menos de propor uma visão de país, como era a tradição, mas de combater a realidade e inventar inimigos imaginários. Bolsonaro usou a tribuna das Nações Unidas para fazer campanha à reeleição e não para promover o país”, completa a entidade.

Outra fala bastante criticada foi em relação ao auxílio emergencial de R$ 600, que foi reduzido para a metade do valor após ser estendido até dezembro. No discurso, Bolsonaro diz: “Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior: – Concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares para 65 milhões de pessoas, o maior programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo”

O governador do Maranhão, Flávio Dino, reclamou do tom usado pelo presidente no início do discurso, quando disse que “por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao Presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o país”.

Bolsonaro disse ainda na sequência que “como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “fique em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país”.

Bolsonaro também recebeu elogios de apoiadores, como o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros e a deputada federal Carla Zambelli (PSC-SP).

Repercussão internacional

O discurso do presidente também teve rápida repercussão na imprensa internacional. Agências de notícias e jornais de diferentes países destacaram as falas do presidente brasileiro sobre a pandemia e as queimadas no país.

A agência de notícias francesa AFP deu destaque à fala do presidente sobre uma “campanha de desinformação” sobre as queimadas na Amazônia e no Pantanal. Os franceses citaram a fala do presidente sobre a causa do incêndio.

“Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”.

Já a agência norte-americana Associated Press deu destaque às críticas do presidente ao que chamou de “politização do coronavírus”. “Como ocorre no resto do mundo, parte da imprensa brasileira politizou o vírus, semeando o pânico entra a população. Com o lema ‘fique em casa’, ‘a economia vemos depois’ quase provocaram um caos social no País”.

O diário britânico The Guardian relatou as falas de Bolsonaro em sua cobertura em tempo real da Assembleia-Geral. Escreveu que o presidente brasileiro elogiou o agronegócio brasileiro e os caminhoneiros – dois importantes grupos de apoio. “O homem no campo não parou nunca”, disse ele, culpando a desinformação pelas más notícias sobre os incêndios na Amazônia e no Pantanal.

O The Guardian traz dados para rebater as informações do presidente. “Na verdade, o Pantanal, a maior área úmida do mundo está enfrentando a maior devastação de sua história. A área queimada este ano é equivalente ao tamanho do Estado de Israel – 3 milhões de hectares ou 20% de todo o bioma”.

Ao enaltecer sua resposta à pandemia, Bolsonaro não mencionou as 137 mil mortes nem o fato de o Brasil ser um dos três países mais afetados pelo vírus no planeta.

O jornal argentino Clarín também destacou que o presidente defendeu suas políticas para o meio ambiente e afirmou que o governo tem sido vítima de uma “campanha brutal de desinformação”.

Os argentinos destacaram que o Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos e que por isso haveria interesse em prejudicar a imagem da nação. O diário traz dados oficiais mostrando a devastação na Amazônia e no Pantanal.

O jornal português O Público destacou que Bolsonaro culpou os índios pelos incêndios na Amazônia.

“Nos últimos meses, a região do Pantanal tem sido dizimada por fortes incêndios, pondo em causa não só a fauna e a flora única deste bioma, mas também a sobrevivência dos povos indígenas locais. No entanto, Bolsonaro apontou precisamente o dedo aos índios e aos “caboclos” pelos incêndios justificados pela “busca da sobrevivência”, sem fornecer qualquer prova desta acusação”, escreveu o jornal.

(Com informações de Estadão Conteudo)

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