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Com um toque tropical, a quinoa — nativa da Bolívia e do Peru — tem se mostrado alternativa de diversificação de cultivos no Cerrado brasileiro, no Nordeste e até no Sul do país. Apesar de o Brasil importar mais de 90% das cerca de 1,5 mil toneladas consumidas por ano no mercado doméstico, hoje produz e até exporta algumas toneladas do alimento.

À frente da produção brasileira, alguns agricultores foram pioneiros e apostaram no nicho de superalimentos com alto teor nutricional.

— Eu me interessei pela quinoa ao perceber que era a comida recomendada pela Nasa e por ser vegano. Além de ser resistente às variações climáticas, é rica em proteína e é um dos poucos alimentos que contêm os 16 aminoácidos necessários à saúde humana — afirma o paulista Marcel Santos.

Ele deixou um negócio de luminárias na capital paulista para se enveredar na produção da gramínea, que é parente distante do espinafre e da beterraba, mas é confundida com o grupo de cereais.

‘Grão de ouro’ dos Andes

Santos cultiva a quinoa em Minas Gerais, Goiás e Brasília, em áreas que totalizam cerca de 300 hectares, espaço que muda de tamanho a depender do ano e dos testes de produção.

Essa é, inclusive, uma peculiaridade dos produtores da quinoa brasileira: testando práticas de cultivo, os produtores semeiam em períodos de plantio de culturas tradicionais, como a soja ou feijão, e alteram a área plantada conforme os resultados de produtividade.

O chamado “grão de ouro” dos Andes chegou ao Brasil na década de 1980 por meio de pesquisadores da Embrapa Cerrados, que trouxeram mudas do Peru e da Bolívia.

Após anos de estudos e cruzamentos genéticos, nasceu a BRS Piabiru, nome científico da muda com DNA brasileiro. Foram necessários experimentos com diversos produtores. Alguns desistiram e outros enxergaram uma oportunidade de ter lucro com estabilidade.

— A quinoa não oscila como a soja e é o alimento mais completo do mundo — diz o gerente-geral da Fazenda Jaborandi, Antonio Barreto.

A saca de 25 quilos de quinoa pode custar R$ 300, enquanto a saca de 60 quilos de soja oscila atualmente entre R$ 110 e R$130, dependendo da região do Brasil, compara Barreto.

Ele comanda a propriedade, que fica na cidade do mesmo nome, no oeste baiano, e é responsável pela maior fatia de produção do país. Em 2023, colheu 950 toneladas de quinoa, o equivalente a 63,4% das 1,5 mil toneladas consumidas no país, segundo estimativas de Barreto.

Até agora não existe levantamento oficial da produção de quinoa, que é enquadrada junto com outros cereais, como gergelim, chia, linhaça e amaranto, apesar de ser uma gramínea. Na falta de dados, Barreto conta com apoio de consultores e parceiros para obter números de concorrentes e vislumbrar a dimensão do mercado.

A fazenda é do grupo inglês Floryl, de grãos e leguminosas. Ao mirar alternativas proteicas, com melhor preço e que entrassem no nicho de suplementos à alimentação, começaram a testar a quinoa em 2016, mas só em 2018 tiveram a primeira colheita comercial.

Rústica, a planta parece com a do sorgo e tem particularidades de cultivo, como ser plantada entre período de chuvas e ser colhida a uma umidade de no máximo 14 graus.

— Ela é ainda parecida com o trigo, mas rende mais e tem um potencial mercado para se explorar, destacando a sustentabilidade do cultivo, que exige quase nada de pesticidas — diz o pesquisador da Embrapa Cerrados Walter Quadros, um dos pioneiros nos estudos de quinoa no país.

Em 2023, o Brasil plantou uma área ao redor de 1 mil hectares com rendimento médio de duas toneladas por hectare, segundo estimativa da Embrapa.

Se irrigada, a planta pode produzir até 8 toneladas por hectare, e ser opção de segunda safra no lugar do milho. O Brasil tem capacidade para automatizar a colheita e escalá-la para exportar, enquanto nos líderes andinos, ela é feita manualmente, lembra Barreto.

O principal desafio no país, no entanto, é a venda de quinoa devido à falta de “popularidade”. Além de vender no mercado doméstico, o grupo inglês exportou 196 toneladas para os Estados Unidos, outras 96 à Espanha e 26 para a Colômbia, que é vizinha do Peru, um dos maiores produtores da semente no mundo.

Na América do Sul, além dos líderes de produção, Argentina e Brasil aparecem como produtores comerciais, ainda que com fatias minúsculas de mercado, segundo a consultoria americana Mordor Intelligence. De acordo com o estudo, há mais de 3 mil variedades no mundo, e apenas algumas comercializadas até agora.

Indústria de cosméticos

Os grãozinhos de quinoa têm características diversas, mas sua cor e nível de saponina são as principais propriedades consideradas na venda. A sapopina é o pó que se solta durante o beneficiamento da quinoa. Esse pó, hoje, é descartado por muitos produtores, embora seja matéria-prima da espuma de xampus e sabonetes vegetais. O produtor Marcel Santos está de olho nisso e começou a fechar negócios com indústrias de cosméticos.

O grupo Boticário, por exemplo, já tem uma linha de 170 produtos com quinoa, majoritariamente importada do Peru devido às garantias de biocontrole da matéria-prima. Em 2017, a companhia desenvolveu uma forma de extrair o óleo puro da quinoa, chamado de bioéster e, desde então, já produziu três toneladas do produto acabado no parque fabril de São José dos Pinhais (PR).

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