EXAME Agro

Como a queda no preço da commodities foi sentida na Agrishow 2024

Feira movimentou R$ 13 bilhões em negócios, mesmo patamar do ano passado

Máquinas agrícolas em exposição na Agrishow 2024, em Ribeirão Preto (Divulgação)

Máquinas agrícolas em exposição na Agrishow 2024, em Ribeirão Preto (Divulgação)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de macroeconomia

Publicado em 3 de maio de 2024 às 10h52.

Última atualização em 3 de maio de 2024 às 14h32.

RIBEIRÃO PRETO - Os produtores de grãos no Brasil enfrentam neste ano um problema duplo: além da queda do valor das commodities, houve baixa na produção. Na Agrishow, essa baixa levou o setor de máquinas a prever queda nas vendas, enquanto o setor bancário espera manter ou aumentar o volume de negócios.

O preço da soja no mercado baixou de R$ 200 para R$ 130 por saca, na comparação com 2022. Já o milho baixou de R$ 87 para R$ 57 por saca nos últimos dois anos, de acordo com dados da Esalq/B3.

Ao mesmo tempo, houve quebra na produção nesta safra por causa da falta de chuvas geradas pelo fenômeno El Niño. O último levantamento da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) do começo de abril, estima que a produção na safra 2023/24 deve atingir 294,1 milhões de toneladas, 8% ou 25,7 milhões de toneladas abaixo do obtido em 2022/23. Apesar de quedas na soja e no milho, deve haver aumento na produção de feijão, arroz, algodão e trigo.

No caso da soja, principal exportação agrícola do Brasil, não houve alta de preço no mercado internacional porque a Argentina teve uma boa safra neste ano, e deve compensar a falta de produto que seria gerada pela baixa no Brasil.

A redução da produção afeta os setores do agro de diferentes formas. Os fabricantes de máquinas agrícolas esperam queda de 10% a 15% nas vendas este ano, na comparação com 2023.

"Para 2024, esperamos que haja uma redução em torno de 10% [nas vendas]. Mas ainda estamos no começo do ano e tem muita coisa para acontecer", diz Eduardo Kerbauy, vice-presidente da Case New Holland para a América Latina.

Kerbauy destaca, no entanto, que o volume de produção está acima do registrado antes da pandemia e que, ao considerar os dados até 2030, a perspectiva é de alta. A CNH projeta que a produção total de grãos no país passe de 257 milhões de toneladas, em 2021, para 475 milhões até 2030.

No setor bancário, há mais otimismo: com a queda de faturamento, muitos produtores terão de renegociar contratos ou precisarão de mais crédito.

A Credicitrus espera um aumento de 15% no volume de negócios na Agrishow em relação ao ano passado, e atingir 400 milhões em negócios.

Já o Santander foi para a Agrishow com a meta de fechar R$ 2 bilhões em negócios, similar ao do ano passado. "Tínhamos uma meta de 50 bilhões de reais para a carteira do agro para 2023, atingimos 53,7 bilhões. Neste ano, queremos avançar mais 30% em cima desses 50 bilhões", disse Ricardo França, head de agronegócios do Santander.

França avalia que a liquidez do agro está "espremida" e diz que a tátíca para atrair clientes é fornecer taxas menores. “Eu consigo fazer, hoje, com financiamento de 5 ou 7 anos, uma linha precificada igual à do BNDES ou muito similar”, disse. Outra aposta do banco espanhol são novas cotas de consórcio, com taxas mais atrativas.

"A gente deve ter alguma melhora gradual, mas não acredito que a gente vá recuperar o patamar [de produção] que tivemos nos últimos anos. 2023 foi um ano muito positivo", diz Gustavo Freitas, diretor de crédito da Sicredi, sobre as expectativas com a feira.

Ele ressaltou ainda que a taxa Selic está mais baixa neste ano do que em 2023, e que a perspectiva de novos cortes de juros nos próximos meses pode levar produtores a adiarem o fechamento de negócios, assim como o anúncio do novo plano Safra, previsto para julho. A Sicredi espera conceder R$ 56 bilhões em crédito na safra 23/24, volume 35% maior do que em 2022/23.

Os organizadores da Agrishow disseram, nesta sexta, 3, que a feira como um todo movimentou R$ 13,6 bilhões em negócios, patamar similar ao do ano passado, de R$ 13,2 bilhões. O evento começou na segunda, 29, e termina nesta sexta, 3 de abril.

Na feira, é comum que os compradores firmem apenas protocolos de intenção de compra, que serão confirmadas ou não nas semanas seguintes. Compradores de máquinas precisarão buscar financiamento junto aos bancos para concluir os negócios, por exemplo, ou podem simplesmente desistir depois.

Representantes de empresas na feira comentam que, em alguns casos, é comum que só 50% dos protocolos se transformem em negócios de fato.

Já o número de visitantes foi de 195 mil, também equivalente ao de 2023. “Mantivemos os visitantes e aumentamos as intenções de negócios. E esperamos que, para o próximo ano, o agronegócio brasileiro possa estar ainda mais forte e pujante”, disse João Marchesan, presidente da Agrishow, em comunicado.

Nos estandes de venda de aviões privados e picapes, havia grande movimento. A TAM Aviação Executiva, que vende e aluga aviões para empresários do setor, esperava negociar seis aeronaves na feira, mesmo volume do ano passado, com modelos que custam a partir de US$ 700 mil, sem impostos. "A fila de espera pode chegar a dois anos, diz Leonardo Fiuza, presidente da TAM Aviação Executiva.

Acompanhe tudo sobre:FeirasAgronegócioRibeirão Preto (SP)

Mais de EXAME Agro

"Cachorro-quente de flor"? Conheça o sanduíche feito em Holambra, a "cidade das flores"

Safra de café 2024/25 do Brasil: USDA estima 69,9 milhões de sacas — e aumento em exportações

Governo vai financiar plantação de arroz em outros estados, diz Lula

Importação nos portos do Paraná cresce 14% nos cinco primeiros meses de 2024, impulsionada por trigo

Mais na Exame