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Após primavera há dois anos, Síria sangra em guerra civil

Iniciada em 15 de março de 2011 com uma queda de braço entre o regime de Bashar Al Assad e manifestantes opositores, a revolução se transformou em um conflito bélico


	Síria: o cerco em torno de Assad se estreita cada vez mais em Damasco, que no último ano se transformou em palco habitual de atentados, choques e bombardeios, sobretudo em sua periferia.
 (Mohamed Abdullah/Reuters)

Síria: o cerco em torno de Assad se estreita cada vez mais em Damasco, que no último ano se transformou em palco habitual de atentados, choques e bombardeios, sobretudo em sua periferia. (Mohamed Abdullah/Reuters)

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Da Redação

13 de março de 2013, 14h28

Cairo/Damasco - A onda de protestos que começou há dois anos, no calor da primeira árabe na Síria, deu passagem a uma cruel guerra civil, com mais de 70 mil mortos e um final difícil de prever perante os fracassos das tentativas de mediação internacional.

Iniciada em 15 de março de 2011 com uma queda de braço entre o regime de Bashar Al Assad e manifestantes opositores, que durante os protestos das sextas-feiras conseguiam sua máxima expressão, mas eram fortemente reprimidos pelas forças governamentais com disparos, a revolução se transformou em um conflito bélico cada dia mais sofisticado.

O envio de tanques do exército para sufocar os insurgentes foi seguido pelo de helicópteros e aviões militares. Apesar da desigualdade das forças, já que os insurgentes carecem de meios aéreos, pouco a pouco os rebeldes - munidos com AK-47, lança-granadas e veículos blindados conquistados em suas vitórias frente ao regime - tomaram o controle de amplas zonas do norte, nas províncias de Idlib, Aleppo e Al Raqa.

O cerco em torno de Assad se estreita cada vez mais em Damasco, que no último ano se transformou em palco habitual de atentados, choques e bombardeios, sobretudo em sua periferia.

Em julho, parecia que as coisas iam piorar com o atentado, reivindicado pelo ELS, que acabou com a cúpula de Defesa do país, em pleno coração da capital, e o início dias depois da ofensiva insurgente contra Aleppo, a segunda cidade do país.

No entanto, apesar dos confrontos se aproximarem cada vez mais do centro de Damasco, cujo setor histórico continua intacto, ao contrário do destruído mercado de Aleppo, o regime ainda mantém sua superioridade na luta contra os "terroristas".


Os atentados, muitos deles cometidos com carros-bomba, deixaram centenas de vítimas na capital e outras cidades e fazem alguns desconfiarem do movimento rebelde, que, por sua vez, acusou em algumas ocasiões o regime de estar por trás deles.

Vários desses ataques foram reivindicados pela poderosa Frente al Nusra, um grupo islamita incluída pelos EUA em sua lista de organizações terroristas e que irrompeu com força no conflito no último ano.

A organização radical teve vários triunfos contra as forças de Assad e foi seu principal rival em povoações como Aleppo.

A emergência da Frente al Nusra é um sintoma da islamização dos combatentes no campo de batalha. Basta observar os vídeos dos rebeldes para apreciar uma mudança em seu físico, que foi dos rostos perfeitamente barbeados a uma "floresta de barbas", mais de acordo com a "sunna" (tradição) muçulmana.

No plano político, o regime remodelou no início de 2012 a Constituição para abrí-la ao pluripartidarismo em uma tentativa de acalmar os rebeldes, mas esta medida não se traduziu em uma mudança de poder no Parlamento, já que a oposição boicotou o pleito legislativo de um ano atrás.

Em paralelo, a dividida oposição política deu passos para se unir e em novembro anunciou a formação da Coalizão Nacional Síria (CNFROS), um agrupamento de organizações reconhecido como principal interlocutor dos opositores no exterior.

A CNFROS avança agora rumo à constituição de um governo transitório, semelhante ao Executivo interino criado pelos revolucionários líbios durante sua rebelião.


Enquanto isso, os voos entre Nova York, Genebra, Cairo e Damasco acontecem em uma tentativa de fazer uma mediação internacional, que até agora teve magros resultados.

Em agosto, o mediador da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, jogava a toalha devido ao aumento das hostilidades e à falta de vontade das partes de aplicar sua iniciativa para pôr fim à violência.

O diplomata argelino Lakhdar Brahimi foi seu substituto, sem que por enquanto seus esforços tenham sido mais frutíferos.

A Síria é um país estratégico no tabuleiro do Oriente Médio, e existem temores de uma expansão do conflito por outros países da região. O regime continua confiando nos apoios de Rússia, China e Irã frente a uma comunidade internacional incapaz de deter a tragédia humanitária.

Os números falam por si só: mais de 70 mil mortos em dois anos e um milhão de refugiados- número que, segundo a ONU, pode duplicar ou inclusive triplicar até o final de 2013.