Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 14h55.
Última atualização em 22 de setembro de 2026 às 15h41.
Bilionários do setor de tecnologia vêm investindo milhões de dólares em bunkers, propriedades isoladas e outras estratégias de sobrevivência. Entre os motivos estão conflitos geopolíticos, desastres climáticos, instabilidade social e os próprios riscos associados ao avanço da inteligência artificial.
Teorias sobre o fim do mundo existem desde que — literalmente — o mundo é mundo. O que muda, de tempos em tempos, é quem leva essa possibilidade a sério o bastante para gastar milhões de dólares se preparando para ela. Hoje, boa parte desse grupo está concentrada no setor da tecnologia.
Não é coincidência. Em setembro, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um ensaio defendendo que as próprias empresas de inteligência artificial (IA) reduzam o ritmo de desenvolvimento dos modelos mais avançados, o que recebeu apoio público do CEO da OpenAI, Sam Altman, e de Elon Musk. Demis Hassabis, do Google DeepMind, concordou.
Além disso, um pesquisador da própria Anthropic chegou a pedir demissão da empresa por considerar que o setor "aposta com nossas vidas" na corrida pela superinteligência, e outro afirmou publicamente acreditar em mais de 10% de chance de a IA "matar toda a humanidade" dentro de uma década.
É claro que os motivos para que os bilionários do setor construam bunkers não são só o avanço da superinteligência — temas como conflitos geopolíticos, desastres climáticos e o temor de uma reação popular contra a concentração de riqueza também continuam no radar deles.
Em entrevista à revista The New Yorker, Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, estimou que mais de 50% dos bilionários do Vale do Silício possuem algum tipo de "seguro contra o apocalipse", que inclui desde um bunker elaborado até uma propriedade discreta em outro país. "É meio que um piscar de olhos dizer que você está comprando uma casa na Nova Zelândia", disse Hoffman, comparando a decisão à compra de uma casa de veraneio.
A Nova Zelândia, aliás, virou sinônimo do movimento. O investidor Peter Thiel, cofundador do PayPal, naturalizou-se cidadão neozelandês em 2011 e já chamou o país de "o futuro".
Ele tentou construir uma propriedade com estrutura semienterrada em Wanaka, no sul do país, mas o pedido foi negado em 2022 pelo conselho ambiental local, que considerou o projeto prejudicial à paisagem protegida da região.
Esse tipo de demanda deu origem a uma indústria específica. Empresas como a americana Vivos Group, a Rising S Company e a checa Oppidum Bunkers vendem, hoje, abrigos subterrâneos com piscina, biblioteca, galeria de arte e academia — versões de mercado dos complexos que bilionários como Zuckerberg constroem sob medida.
A Oppidum, por exemplo, oferece um modelo de entrada batizado de "Futurist" a partir de 7,5 milhões de euros, com uma versão topo de linha avaliada em US$ 40 milhões, que inclui câmara de descompressão, energia autossuficiente e um cofre blindado para guardar obras de arte.
Já a Vivos Group opera o xPoint, a maior comunidade de bunkers do mundo, erguida na Dakota do Sul: são 575 unidades de cerca de 204 m² cada, com capacidade para 10 a 24 pessoas e distantes 120 metros umas das outras.
Para 2026, a empresa americana SAFE anunciou o Aerie, um clube subterrâneo para 625 membros com suítes de até 1.858 m², num projeto orçado em US$ 300 milhões no total.
Esse apetite crescente já aparece nos números do setor. O mercado global de bunkers subterrâneos foi avaliado em US$ 3,07 bilhões em 2022, segundo a consultoria Archive Market Research, com projeção de crescimento contínuo puxada por instabilidade geopolítica, desastres climáticos e o aumento do número de milionários no mundo — mais de 60 milhões de pessoas se enquadravam nessa faixa em 2024.
Fabricantes relataram picos de demanda de até 1.000% em determinados períodos de conflito, segundo a consultoria Spherical Insights, e a americana Atlas Survival Shelters, no Texas, afirma ter registrado forte alta em pedidos privados entre 2024 e 2025.
Nem todo bilionário de tecnologia aposta na mesma estratégia de sobrevivência. Alguns escolheram caminhos bem diferentes de cavar um buraco na terra — de cirurgias preventivas a planos de fuga para outro planeta.
Diferentemente do que a piada da web sugere, os próprios bilionários costumam justificar essa cautela por motivos que vão além do medo dos sistemas que eles mesmos criam. Assim como Altman citou os conflitos armados como gatilho recente para pensar mais a sério no assunto, Hoffman também apontou incerteza política e o receio de uma eventual reação popular contra a concentração de riqueza como fatores por trás da corrida por refúgios.
Para pesquisadores que estudam o fenômeno, essa produção de bunkers de luxo revela algo além da sobrevivência física: um desejo de controlar por completo o próprio ecossistema, incluindo energia, comida e segurança, independentemente do que aconteça ao resto do mundo.
Os motivos citados incluem conflitos geopolíticos, desastres climáticos, instabilidade política e social e preocupações com os riscos associados ao desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial.
Mark Zuckerberg constrói um complexo no Havaí com uma estrutura subterrânea de cerca de 420 m². Sam Altman afirma possuir "porões subterrâneos de concreto, bem reforçados". Peter Thiel tentou construir uma propriedade com estrutura semienterrada na Nova Zelândia, enquanto relatos também associam Bill Gates a grandes abrigos subterrâneos.
O complexo Koolau Ranch, construído por Zuckerberg na ilha de Kauai, no Havaí, tem custo estimado de US$ 270 milhões entre terreno e construção. O projeto inclui um espaço subterrâneo de aproximadamente 420 m² com sete quartos, cozinha, sala de máquinas e uma porta resistente a explosões.
O país passou a ser associado aos chamados "tech preppers" como uma opção de isolamento geográfico. Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, chegou a dizer que comprar uma casa na Nova Zelândia se tornou uma espécie de referência entre integrantes desse grupo. Peter Thiel se naturalizou cidadão neozelandês em 2011.
Os preços podem chegar a dezenas de milhões de dólares. A empresa checa Oppidum oferece seu modelo Futurist a partir de € 7,5 milhões, enquanto uma versão de alto padrão é avaliada em US$ 40 milhões e inclui recursos como energia autossuficiente, câmara de descompressão e cofre para obras de arte.
As estratégias variam. Steve Huffman e Yishan Wong fizeram cirurgias oculares para reduzir a dependência de óculos ou lentes de contato. Larry Page é associado a investimentos em pesquisas sobre longevidade, enquanto Elon Musk defende tornar a humanidade multiplanetária como forma de reduzir riscos existenciais para a espécie.