Revista Exame

Com Rockfeller, o petróleo virou arte

John Rockefeller foi o homem mais poderoso de seu tempo — seus descendentes souberam transformar aquele poder todo num vasto legado artístico

David Rockefeller e uma foto de sua família: a empresa vai, o legado fica (Andrew H. Walker/Getty Images)

David Rockefeller e uma foto de sua família: a empresa vai, o legado fica (Andrew H. Walker/Getty Images)

DR

Da Redação

Publicado em 18 de fevereiro de 2011 às 11h40.

Nascido em 1839, o americano John Rockefeller foi o empresário mais rico, mais influente e, possivelmente, mais odiado da história. É difícil, hoje em dia, compreender a magnitude de seu poder. Sua Standard Oil tinha o virtual monopólio da indústria de petróleo nos Estados Unidos — e esse monopólio, claro, foi construído na marra. Rockefeller acabou entrando para a história como um dos “robber barons”, termo que, traduzido livremente, significa algo como “magnatas ladrões”.

Sua extrema impopularidade acabou facilitando o fim do monopólio da Standard Oil, em 1911, num processo histórico decidido na Suprema Corte americana. No século seguinte, os descendentes de Rockefeller empreenderam uma notável transformação no tipo de atributo que se associa a seu nome. A família decidiu transformar a riqueza vinda do petróleo numa série de instituições dedicadas às artes. Sem eles não haveria o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Ou o Rockefeller Center, ícone da art déco (e um dos rinques de patinação no gelo mais famosos do mundo).

O Lincoln Center, casa da Ópera e da Orquestra Filarmônica de Nova York. Outras dezenas de projetos no último século, como a restauração dos palácios de Versalhes e Fontainebleau, na França, tiveram dinheiro e envolvimento de membros do clã. E, cinco anos atrás, David Rockefeller, único neto vivo do fundador da Standard Oil, doou 100 milhões de dólares ao MoMA, quantia recorde. A transformação da família — de “magnatas ladrões” a padrinhos das artes nos Estados Unidos — é o tema do recém-lançado America’s Medicis (“Os Médici da América”, numa tradução livre), escrito pela jornalista Suzanne Loebl.

A rigor, a mutação descrita no livro tem suas origens no próprio patriarca da família. Apesar de sua notória brutalidade nos negócios, Rockefeller também tinha seu lado filantropo — alguns, inclusive, atribuem a ele o nascimento da filantropia como a conhecemos hoje. Ele foi um dos fundadores da Universidade de Chicago, no fim do século 19, e seu investimento em pesquisas médicas ajudou a desenvolver a vacina contra a febre amarela. Mas foi a geração seguinte que transformou a filantropia em alvo de dedicação exclusiva. Seu único filho homem, John Rockefeller Jr., herdou do pai a religiosidade. Já adulto, Júnior dava aulas semanais de estudos bíblicos numa igreja na Quinta Avenida, em Nova York. Após graduar-se, trabalhou na Standard Oil. A vida não era fácil. Ele escreveu um discurso, nunca lido, intitulado “A dificuldade inerente à condição de ser filho de um homem muito rico”. Angustiado, demorou décadas para encontrar sua vocação — a filantropia — e sair da sombra do pai.


Felizmente, o filho não herdou do pai o desprezo à arte (o fundador da Standard Oil achava aquilo tudo uma frivolidade sem sentido). Júnior e sua mulher, a também filha de magnata Abby Aldrich, tornaram-se ávidos colecionadores. Júnior era apaixonado por porcelana. Gastou, ao longo da vida, mais de 10 milhões de dólares na compra de vasos e estátuas. Quando a coleção do banqueiro JP Morgan foi colocada à venda, Júnior escreveu ao pai pedindo sua permissão para fazer um lance (o velho Rockefeller deu o dinheiro). Abby, por sua vez, comprava de tudo. Mas foi desenvolvendo um gosto por arte moderna, na época ainda tida por muitos como coisa de europeus malucos. No esquema adotado pelo casal, Júnior financiava as compras de todo tipo de obra, mas Abby era obrigada a usar o próprio dinheiro para colecionar os “modernos”, que o marido detestava.

Fossem eles simples colecionadores ricaços, a história terminaria aqui. Mas, escreve Loebl, o casal Rockefeller tinha outro traço em comum. O pai de Abby Aldrich também havia sido retratado pela imprensa como vilão capitalista — e ter tido pais vistos como “ricos e maus” incutiu em ambos uma hipertrofiada noção de dever cívico. Era de esperar, portanto, que sua paixão pela arte não fosse se resumir a cômodos repletos de obras em mansões da família. A maior contribuição dos Rockefeller, escreve, “foi ensinar à América que a arte (...) não é um assunto exclusivo da elite, mas pode ser amada, compreendida e mesmo adquirida por qualquer um”. No fim dos anos 20, Abby Aldrich e duas amigas criaram um museu dedicado à arte moderna, o primeiro de sua categoria em Nova York. Nascia, ali, o MoMA, hoje uma das maiores atrações turísticas da cidade. Um tanto contrariado, seu antimoderno marido cedeu o terreno de sua casa para a construção de um jardim de esculturas do museu.


A comparação entre os Rockefeller e os Médici tem lá seus problemas. Enquanto a família florentina fazia encomendas diretas aos artistas e os apadrinhava, os Rockefeller compravam obras de arte por meio de negociantes. Não eram, portanto, mecenas. E, embora sua imensa fortuna tenha sido fundamental, os Rockefeller se destacaram justamente pela capacidade de se envolver — trabalhar, em suma — para que seus projetos artísticos saíssem do papel. Abby assumiu a presidência do MoMA em 1933, quatro anos após sua fundação (e fechava anualmente os buracos no orçamento do museu).

Seu marido financiou sozinho e liderou a construção do Rockefeller Center, nos anos 30. Anos antes, ele já havia tocado a construção da igreja gótica Riverside Church, no norte de Manhattan. Finalmente, nos anos 50, um grupo de nova-iorquinos liderado por John Rockefeller III, neto do fundador da Standard Oil, construiu o Lincoln Center, um complexo de casas de espetáculos que sedia a Ópera e a Orquestra Filarmônica de Nova York. Ele coordenou pessoalmente o projeto e doou, em sigilo, 11,5 milhões de dólares para que parasse de pé.

Num artigo recente, o colunista do Financial Times Michael Skapinker perguntou: “Por que os titãs dos negócios precisam ‘devolver’ algo à sociedade?” A premissa, argumenta ele, é que esses empresários roubaram algo da sociedade para chegar aonde chegaram e que, portanto, alguma hora têm de devolver. Os impostos e os empregos gerados por uma empresa não são o bastante? Não, e por duas razões, escreve Skapinker.

Grandes empresários sabem que o mercado não resolve todos os problemas e que o dinheiro de seus impostos não vai voltar, por exemplo, na forma de museus com seus nomes — por mais impostos que paguem. Há, aí, o motor principal da filantropia: o desejo de construir um legado, algo que vá além do dinheiro conquistado numa vida dedicada aos negócios. Ao se comprometer a doar boa parte de sua fortuna, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, disse que muitos grandes empresários são mais lembrados hoje em dia pelos efeitos de suas ações filantrópicas que pelas companhias que fundaram. A história dos Rockefeller mostra que ter um punhado de descendentes trabalhando para transformar uma fortuna num legado também ajuda.

Acompanhe tudo sobre:Edição 0983EmpresáriosFilantropiagestao-de-negociosMetrópoles globaisNova York

Mais de Revista Exame

Melhores do ESG: os destaques do ano em energia

ESG na essência

Melhores do ESG: os destaques do ano em telecomunicações, tecnologia e mídia

Conheça o castelo na França exclusivo para convidados da Moët & Chandon

Mais na Exame