Revista Exame

Eleições na Índia: as razões para o favoritismo de Modi na maior democracia do mundo

A maior democracia do planeta vai às urnas decidir se o premiê terá mais um mandato no comando do país

Narendra Modi: premiê da Índia está no cargo há dez anos e caminha para o terceiro mandato (Noah Seelam/AFP/Getty Images)

Narendra Modi: premiê da Índia está no cargo há dez anos e caminha para o terceiro mandato (Noah Seelam/AFP/Getty Images)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de macroeconomia

Publicado em 25 de abril de 2024 às 06h00.

Última atualização em 26 de abril de 2024 às 12h25.

Nas ruas do centro de Mumbai, sob sol de 30 graus, ambulantes oferecem sucos e sorvetes para refrescar o calor. Nos isopores e barracas, um símbolo se repete: o selo do UPI, espécie de Pix indiano, que permite fazer o pagamento rapidamente pelo celular.

O UPI é um dos símbolos da transformação digital que o país viveu na última década e uma das bandeiras do premiê Narendra Modi. Outra delas é a melhora na infraestrutura. Em um país onde calçadas muitas vezes não existem, houve aumento da rede de estradas e avanço nas ferrovias. Com um pé no digital e outro no mundo físico, Modi caminha para conquistar um terceiro mandato, segundo pesquisas.

Em seus dez anos no poder, o político indiano de 73 anos levou o país de nona para quinta maior economia do mundo, e a expectativa é de que chegue ao terceiro lugar nos próximos anos, na esteira de um grande bônus demográfico — há centenas de milhões de pessoas em idade produtiva — e de reformas econômicas. Mas ainda há muita pobreza a ser superada e questionamentos sobre posturas autoritárias do premiê, que busca priorizar os hindus ante outros grupos étnicos, na visão de críticos.

O desempenho de Modi será avaliado nas urnas: as eleições gerais indianas, as maiores do mundo, são realizadas em abril e maio. Mais de 969 milhões de pessoas estão aptas a votar, em um processo em sete fases. Assim, mais uma vez os indianos poderão chancelar ou não as ações e os discursos de Modi. Ele segue linha parecida à de outros líderes de direita estrangeiros, como Donald Trump e Javier Milei, mas em proporções maiores. Enquanto Trump busca lembrar o auge da América nos anos 1950, Modi e seu partido, o BJP, destacam a Índia como uma civilização milenar, uma das maiores economias do mundo por séculos, antes de ser dominada pelo império britânico. O apelo a esse passado é tão forte que Modi cogita mudar o nome do país de Índia para Bharat, termo usado para nomear a região em textos antigos da tradição hindu.

Após a independência, em 1947, o país foi governado na maior parte do tempo pelo INC (Indian National Congress, ou “Partido do Congresso”), que liderou a luta pela independência e, no poder, buscou implantar ideias socialistas, como um planejamento central da economia e foco na distribuição de renda. A partir dos anos 1990, a Índia passou por um processo de reformas liberais, que aos poucos dinamizaram a economia, ainda sob o comando do INC. O partido, no entanto, foi alvo de várias denúncias de corrupção nos anos 2010, que favoreceram o avanço do BJP e sua vitória nas eleições em 2014. O BJP (Partido do Povo de Bharat, ou Índia), também busca se diferenciar da política tradicional em sua estrutura. “O BJP troca suas lideranças regionais a cada três anos, o que dá espaço para mais gente crescer e mantém as pessoas no partido. Se eu não gosto de um líder, não preciso sair. Basta esperar a próxima votação interna”, conta à EXAME Gautum Ladhar, ex-vice-presidente distrital do BJP no estado de Punjab, no norte da Índia, que atua na campanha deste ano.

Na política indiana, a regra era a de que famílias dominassem as legendas. O maior exemplo disso vem do INC: o primeiro premiê indiano, Jawaharlal Nehru, governou por 17 anos (1947-1964). Depois, sua filha, Indira Gandhi (sem parentesco com Mahatma Gandhi), ficou no comando por 15 anos e, depois de ser assassinada, foi sucedida pelo filho Rajiv Gandhi, morto por um ataque a bomba, em 1991. A mulher de Rajiv, Sonia Gandhi, se tornou líder do INC por mais de 20 anos. Seu filho Rahul Gandhi, de 53 anos, hoje é deputado e uma das principais lideranças da legenda. Para a eleição deste ano, o INC defende novas medidas de proteção social, como uma renda mínima para mulheres pobres e medidas para ampliar proteções a trabalhadores e produtores agrícolas, e se coloca como defensor da democracia. Em alguns estados, candidatos passaram a prometer que o governo pagará a tarifa de energia dos cidadãos. Uma pesquisa feita pela India TV-CNX, no começo de abril, mostrou que a coligação de Modi, NDA, deve levar 399 dos 543 assentos na Lok Sabha, a câmara baixa do Parlamento que define o premiê. A coligação INDIA, que inclui o INC, levaria outros 94. Hoje, a oposição ocupa 172 vagas.

O BJP busca se distanciar das propostas do INC, as quais culpa pelo atraso do país. No poder, Modi adotou uma série de reformas para liberalizar a economia e ampliar o uso de ferramentas digitais. Em 2016, o governo tirou de circulação as notas de 500 e 1.000 rúpias (cerca de 25 e 50 reais na época), para tentar reduzir a corrupção e a sonegação fiscal. Houve uma crise, pois menos de 20% da população tinha conta em banco e podia pagar com cartão. Nos anos seguintes, no entanto, a digitalização avançou muito, puxada por um sistema digital de identificação pessoal, pelo acesso a smartphones e a planos de dados baratos e pelo UPI, que lembra o Pix brasileiro. Outra grande aposta de Modi foi investir em infraestrutura, com a construção de estradas, ferrovias e aeroportos. “No estado de Punjab, a rede de estradas triplicou em dez anos e estão sendo feitas novas vias expressas. Assim, viagens que costumavam levar 10 horas agora levam 5 ou 6. As estradas estão sendo construídas em ritmo rápido, as compensações aos donos dos terrenos estão sendo pagas muito rapidamente, e sem escândalos de corrupção”, conta Ladhar, do BJP. Houve também uma reforma tributária ampla em 2017, similar à que o Brasil aprovou em 2023, que foi acompanhada de uma redução nos impostos corporativos de 28% para 22%.

Durante o mandato de Modi, a Índia se tornou o país mais populoso do mundo, em 2023, com 1,4 bilhão de pessoas, superando a China. Uma comparação entre os dois países com mais habitantes do mundo, e que ainda são vizinhos, é inevitável, e analistas apontam vantagens indianas. Ao passo que a população chinesa envelhece e cresce de modo mais lento, em parte por causa da antiga política de limitar os filhos por casal, a Índia tem um bônus demográfico. Há mais de 610 milhões de jovens com idade entre 18 e 35 anos, enquanto a China tem cerca de 420 milhões nessa mesma faixa, segundo dados da ONU. “Isso significa que eles estão chegando ao ápice da produtividade, renda e gastos, e terão décadas de produção e crescimento dinâmico à frente”, aponta Malcolm Dorson, estrategista-chefe de mercados emergentes na Global X, com base em Nova York.

Outro ponto é que a classe média da Índia é relativamente pequena: centenas de milhões de pessoas ainda não têm carro, internet rápida ou viajam de avião. Na prática, são novos mercados para desenvolver. “O consumo privado per capita superou 2.000 dólares, o que é um ponto de inflexão para economias emergentes, e isso deve seguir crescendo até 8% ao ano nos próximos cinco anos”, diz Dorson. Outra vantagem destacada pelo estrategista é que muitos jovens indianos que foram estudar no exterior estão voltando ao país para aproveitar as novas oportunidades.

Muçulmanos em Mumbai: Modi é criticado por priorizar hindus e reduzir ações para pessoas de outras religiões (Todd Brown/Getty Images)

Embora o grande número de jovens aptos ao trabalho seja uma vantagem, há também um risco. “O governo tem dado ênfase ao desenvolvimento de infraestrutura, mas isso não ajuda a resolver o desemprego, cuja taxa chegou a 5,4% em 2023 e estava em 4,9% em 2014, antes de Modi. Cerca de 16% dos jovens urbanos estão desempregados, por falta de qualificação e de empregos. Se o desemprego conti­nuar dessa forma, haverá revolta entre a juventude”, aponta Girish ­Kumar, editor do jornal Mathrubhumi Daily, de Malappuram, no estado de Querala, sul do país. Outro desafio econômico vem do setor agrícola. Modi tentou fazer reformas para retirar regulações, como a de preços mínimos definidos pelo governo, mas recuou, em 2021, após meses de protestos dos produtores, que bloquea­ram estradas. Outro ponto — e tão ou mais importante — é que a Índia ainda tem profundos problemas sociais a resolver. “As favelas indianas são muito piores que as brasileiras. Eles têm desafios de saneamento e de saúde muito mais complexos do que a China, que vem de uma estrutura melhor em saúde e educação”, diz Vinicius Vieira, professor de relações internacionais na Faap e que estuda o país asiático. 

Um terceiro mandato de Modi também traz o perigo do aumento da discriminação e da violência contra grupos minoritários e da oposição, como cristãos e muçulmanos, afirmam analistas. Os seguidores do Islã são minoria na Índia, mas, em um país tão grande, é como se houvesse um “Brasil” muçulmano ali: são cerca de 200 milhões de fiéis. O BJP é crítico de ações afirmativas para esses grupos, como programas que beneficiam estudantes muçulmanos, e afirma que essas políticas de inclusão deixam a maioria de hindus em desvantagem. Modi defende, ainda, maior igualdade entre os hindus, independentemente das castas de origem, o que aumenta seu apoio entre os mais pobres. O risco, no entanto, é que isso acabe motivando atos de ódio contra muçulmanos, em um país marcado por massacres étnicos nas últimas décadas.

O tema mexe também com uma ferida antiga da Índia: a partição do país após a independência, que levou Paquistão e Bangladesh a se tornarem países autônomos e de maioria muçulmana, enquanto a Índia buscou se consolidar como uma república secular. “O maior desafio encarado pelo país é a discriminação em nome da religião. Esforços para implantar a agenda Hindutva [de prioridade aos hindus] pelo governo Modi estão causando grande preocupação sobre se o secularismo e os valores fundamentais garantidos pela Constituição Indiana serão protegidos”, diz Kumar, do Mathrubhumi ­Daily. Há também acusações de cerceamento à oposição, como operações policiais contra adversários políticos. “Durante o governo Modi, a Índia caiu em quase todos os rankings internacionais de monitoramento da democracia, de transparência e de acesso ao espaço cívico por organizações civis”, aponta Marianna Albuquerque, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa na UFRJ e pesquisadora do Cebri.

O plano de Modi para a Índia se estende por décadas. O regime parlamentarista da Índia não limita reeleições. Em 2022, quando o país completou 75 anos de independência, o premiê e seus ministros passaram a falar que começou o Amrit Kaal, uma era de ouro, prevista pela astrologia tradicional indiana e que se refere aos 25 anos antes de a Índia completar 100 anos como país, em 2047. Essa era de bonança parece estar encaminhada, mas o tempo dirá quanto ela poderá ser sentida nas ruas, pelo povo que agora vai às urnas e paga sorvetes usando o celular.

Acompanhe tudo sobre:1262ÍndiaEleiçõesNarendra Modi

Mais de Revista Exame

Melhores do ESG: os destaques do ano em energia

Melhores do ESG: os destaques do ano em telecomunicações, tecnologia e mídia

ESG na essência

Conheça o castelo na França exclusivo para convidados da Moët & Chandon

Mais na Exame