Acompanhe:
seloRevista Exame

“O Brasil será mais privado”, diz Salim Mattar

Para o homem das privatizações do governo, seria possível vender todas as 134 estatais até 2022. Falta combinar com o Congresso — e convencer o presidente

Modo escuro

Continua após a publicidade
SALIM MATTAR: o secretário diz que não há recursos para o que chamou de Plano Marshall (Cristiano Mariz/Exame)

SALIM MATTAR: o secretário diz que não há recursos para o que chamou de Plano Marshall (Cristiano Mariz/Exame)

A
André Jankavski

Publicado em 12 de setembro de 2019 às, 05h46.

Última atualização em 12 de setembro de 2019 às, 10h20.

O secretário de desestatização e desinvestimento do Ministério da Economia, José Salim Mattar Júnior, criou o hábito de meditar todos os dias nos últimos tempos.

Mas, neste ano, a prática ganhou ares de obrigação. Isso porque ele deixou de lado a presidência do conselho de administração da Localiza, maior empresa de locação de veículos da América Latina, para trabalhar pela primeira vez no setor público e ser o principal responsável pelas privatizações do governo de Jair Bolsonaro.

Mattar ainda não se acostumou à conhecida lentidão do Estado, mas mesmo assim acredita que seja possível chegar próximo da meta de 1 trilhão de reais em privatizações criada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. “Ao deixarmos o governo em algum momento no futuro, o país será mais privado do que público”, afirma Mattar. Mas há desafios para a agenda de privatização: a crise global, a obtenção de apoio no Congresso e o engajamento político do presidente.

Qual a sua análise sobre o andamento das privatizações?

Um pouco de cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto o ministro Paulo Guedes vêm repetindo a importância de que o mercado tenha mais liberdade e que a competição seja mais saudável. O Estado tem de sair do mundo empresarial e focar o que é necessário, que é cuidar da qualidade de vida do cidadão. Não tem de produzir chip, vender combustível ou distribuir gás. Esse não é o papel do Estado.

Durante a campanha, o próprio ministro Guedes prometeu privatizações rápidas até para zerar o déficit público no primeiro ano. Os processos não estão lentos?

São mais de 130 estatais e algumas são mais fáceis de ser privatizadas, outras são discutíveis e algumas são mais difíceis. No primeiro semestre, nosso foco foi a reforma da Previdência. Mas, enquanto a reforma era tocada, fazíamos o planejamento com todo o cuidado. É necessário ser cuidadoso, pois estamos zelando pelo dinheiro do cidadão e também precisamos ter o melhor resultado possível de cada empresa. Aí é que se toma a decisão se determinada empresa precisa ser vendida, capitalizada ou passar por uma fusão.

Depois da reforma da Previdência, é possível dizer que as privatizações ganharão protagonismo?

O governo tem muitas agendas prioritárias, então é impossível dizer qual é a mais urgente. Claro que, no início, a reforma da Previdência era a prioridade. Hoje, há várias: reforma tributária, pacto federativo, entrada do Brasil na OCDE, além do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. A privatização também entra nisso. Precisamos de mais Brasil e de menos Brasília. Todas são prioritárias, mas é o tempo que vai dar a urgência de cada uma.

Porém, nenhuma das joias da coroa, como a Petrobras, entrou na conta. A intenção é privatizá-las?

Temos 17 ativos estatais à venda hoje e temos joias da coroa, sim. A Eletrobras não é uma? Ela pode se transformar em uma das maiores corporações brasileiras. É uma empresa espetacular, que teve problemas causados por administrações pouco eficazes, mas que tem um portfólio de produtos incrível em transmissão e geração de energia. O mercado ainda não percebeu isso. Os Correios são uma empresa de mais de 300 anos. Sua reputação ficou manchada pelo mensalão, mas pela idade e pelo serviço prestado tem de ser considerada uma joia.

As empresas deficitárias atraem a atenção dos investidores?

Existe uma demanda para todas as empresas que estão no PPI, o Programa de Parcerias de Investimentos, como Dataprev, Serpro, Telebras, Correios, Casa da Moeda e Lotex. Todas. Antes de divulgarmos as privatizações, tivemos o cuidado de ir ao mercado e verificamos que existem interessados nacionais e internacionais. E por quê? Esses ativos na mão do governo não são bem gerenciados. O governo, por sua própria natureza, não é um bom gestor de empresas. O mundo privado é muito ágil em comparação ao setor público, que é muito lento. A iniciativa privada toma risco sem tanta burocracia quanto o Estado, que tem um arcabouço legal a ser cumprido.

O mercado financeiro teme que uma crise política possa diminuir o apetite dos investidores por estatais. O senhor concorda?

Essa preocupação do mercado não procede. Na hora em que entramos no PPI, o conselho dá a permissão de privatizar as empresas. O presidente da República é o presidente do conselho do PPI. Ou seja, passou dali, acabou o risco político. O que existe é o risco global e também as oscilações do mercado. A crise entre os Estados Unidos e a China, por exemplo, fez as bolsas de valores do mundo inteiro responder. Isso é o mercado. Quem espera um mercado tranquilo e sereno não conhece como funciona.

Uma crise global é vista como inevitável por muitos economistas. Isso afetará as privatizações?

Está sobrando dinheiro no mundo. Atualmente, existem investidores com 1,5 trilhão de dólares procurando onde investir. E as melhores taxas de retorno estão nos países emergentes. O melhor país ocidental em desenvolvimento é o Brasil. Aqui falta infraestrutura e temos um estilo de vida ocidental, o que facilita para os investidores.

O ministro Paulo Guedes disse que quer privatizar todas as empresas da União. Isso é factível?

Temos o objetivo de vender todas as estatais. Existem algumas que os políticos e o próprio mercado acreditam que serão mais difíceis de privatizar. Mas a sociedade entende que o governo está fazendo o que havia prometido. E algo que sempre se fala é a questão dos empregos, mas os próprios números das privatizações mostram que é uma mentira. A Vale do Rio Doce tinha cerca de 17 000 colaboradores quando foi privatizada. Hoje, tem mais de 70 000. A Embraer saiu de aproximadamente 9 000 para 20 000. É uma falácia dizer que os empregos acabam com a privatização. A iniciativa privada é mais pujante.

A resistência do Congresso não pode ser um empecilho?

As privatizações serão mais fáceis de passar do que as reformas. Os parlamentares atuais estão muito mais sensatos. É só pegar a reforma da Previdência, que foi aprovada com mais de 370 votos. Ao deixarmos o governo em algum momento no futuro, o país será mais privado do que público. O sucesso do meu mandato em particular será o fechamento da minha secretaria.

O senhor acha que consegue cumprir essa meta até o fim deste governo?

Acredito que sim. E é claro que algumas empresas poderão continuar sendo públicas. O governo e a própria sociedade ditarão quais ativos serão mantidos. Mas o legado que vamos deixar é que elas serão administradas com a melhor governança possível. Um exemplo para nós é a Codelco, maior empresa de cobre chileno, que é uma estatal muito bem gerida.

Rede de transmissão da Eletrobras: para o secretário, a estatal é uma “joia da coroa” | Cesar Diniz/Pulsar Imagens

O senhor teve dificuldade para se adaptar à atuação no setor público?

Faço meditação há muito tempo e isso ajuda. Sou um ente da iniciativa privada que está no governo. Aqui, as coisas são muito lentas. Precisamos reduzir este Estado obeso, que inferniza a vida do cidadão e do empresário.

Mas há empresas que se aproveitaram desse Estado generoso em benefício próprio. Como vê isso?

O capitalismo de compadrio está com os dias contados. O correto é fazer uma abertura gradual sem colocar em risco a indústria nacional. As tarifas de importação estão caindo e o Brasil começa a ter uma taxa de juro civilizada, assim como a inflação. Daqui a pouco vem uma reforma tributária e nossos impostos também ficarão mais civilizados. Esses empresários já perceberam isso e compreenderam que o tempo de compadrio acabou.

Como abrir a economia sem que haja uma quebradeira de empresas menos eficientes?

Não acredito que elas vão quebrar. O empresário é inteligente e sabe driblar situações. Assim como no passado já lidou com inflação e juros altos, a abertura do mercado será mais um momento difícil a ser enfrentado.

Últimas Notícias

Ver mais
EDF, Matrix Energy e Fundo Phoenix entregaram proposta pela Emae
Economia

EDF, Matrix Energy e Fundo Phoenix entregaram proposta pela Emae

Há 21 horas

Tarcísio planeja leilão da linha 1-Azul do Metrô em 2025
Brasil

Tarcísio planeja leilão da linha 1-Azul do Metrô em 2025

Há 6 dias

Privatização da Sabesp: governo Tarcísio deve anunciar detalhes da desestatização nesta semana
Brasil

Privatização da Sabesp: governo Tarcísio deve anunciar detalhes da desestatização nesta semana

Há uma semana

Encontrados os 261 móveis do Palácio da Alvorada que Lula disse terem sido levados por Bolsonaro
Brasil

Encontrados os 261 móveis do Palácio da Alvorada que Lula disse terem sido levados por Bolsonaro

Há 3 semanas

Continua após a publicidade
icon

Branded contents

Ver mais

Conteúdos de marca produzidos pelo time de EXAME Solutions

Exame.com

Acompanhe as últimas notícias e atualizações, aqui na Exame.

Leia mais