As ferramentas digitais que tornam a educação mais democrática e centrada no aluno

A pandemia acentuou a desigualdade na educação, mas trouxe um alento: mostrou a importância de ferramentas digitais que podem ajudar a criar um ensino menos massificado e mais centrado no aluno
 (Jung Yeon-je/AFP)
(Jung Yeon-je/AFP)
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Carlos Rydlewski Publicado em 12/02/2021 às 08:00.

O real impacto da pandemia na área da educação só poderá ser aferido após a retomada das aulas presenciais. Com o retorno gradual das atividades escolares, espera-se que o nível de aprendizagem alcançado em 2020 e o estado emocional de alunos e professores possam ser avaliados com mais precisão. Desde já, contudo, observam os especialistas, um efeito colateral da covid-19 no setor emerge com nitidez: a desigualdade educacional, que se encontrava em queda ao longo dos últimos 40 anos no Brasil, recrudesceu nestes tempos pandêmicos.

Um estudo realizado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social), por exemplo, aponta que, nesse período, os estudantes pobres foram até 633% mais prejudicados pela falta de oferta de atividades escolares do que seus pares mais ricos — o cálculo levou em conta a diferença entre as atividades escolares diponibilizadas para os alunos de baixa renda e para os de alta renda.

 

Conclusões dessa natureza — e magnitude — abundam de fontes variadas. Isso vale para o Brasil e vale também para o mundo. Uma estimativa da Organização das Nações Unidas indica que 1,3 bilhão de crianças e adolescentes em todo o planeta (90% da população estudantil) foram afetados pelo fechamento das escolas. O agravante é que 40% dos países não conseguiram apoiar os alunos em situação de risco. Isso resultou em estragos que alcançam a aprendizagem, a convivência social, a nutrição (no caso dos “sem-merenda”), a saúde mental e, eventual­mente, desemboca em abusos contra jovens, vítimas da violência doméstica.

Dados como esses só fazem inflar a complexidade dos desafios da educação, notadamente em países como o Brasil, cujo desempenho pífio nesse segmento é notório. Há, contudo, um sem-número de lições preciosas que podem ser extraídas desse caos. Durante a emergência da pandemia, por exemplo, bits e bytes atuaram como molas propulsoras — por vezes, tábuas de salvação — para garantir a atividade escolar. Especialistas apontam que essa digitalização forçada das salas de aula, ainda que revestida de desequilíbrios formidáveis, desmantelou uma barreira histórica existente no setor. “Ela quebrou a resistência da maior parte dos professores ao uso de recursos digitais no processo de aprendizagem”, diz Lúcia ­Dellagnelo, presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb).

É isso o que demonstra um conjunto de pesquisas realizadas em fases distintas da pandemia pelo Instituto Península, de São Paulo. Em uma delas, feita entre abril e maio, boa parte desses profissionais das redes pública e privada mostrou-se à beira do pânico. Metade (55%) estava preocupada com a saúde mental. No total, 75% afirmaram não ter recebido nenhum tipo de apoio emocional, embora 55% desejassem tal suporte. Além disso, 83% se sentiam “pouco” ou “nada” preparados para encarar o ensino virtual. Nove em cada dez professores jamais tinham dado uma aula remota.

 

Outra enquete, realizada entre julho e agosto, indicou que os níveis de ansiedade se mantinham elevados (67% em abril e maio, ante 64% nesse segundo momento), mas 94% dos docentes passaram a enxergar os recursos digitais como “muito” ou “completamente” importantes para a formação dos alunos. Antes disso, apenas 57% tinham tal percepção.

E por que essa guinada pode ser importante? Para avançar nesse tema é preciso retroceder no tempo. Há 40 anos, o psicólogo e pedagogo americano Benjamin Bloom, da Universidade de Chicago, formulou um dilema que ainda paira, quase insolúvel, sobre os bancos escolares. Ele mostrou que havia um ganho de aprendizagem entre jovens orientados de forma individualizada por tutores. Isso em comparação com turmas de 30 alunos por professor. O problema é que a tutoria individualizada é inviável em termos de escala e custo, dada a estrutura educacional contemporânea voltada para grandes massas.

Sala de aula vazia: o real impacto da pandemia na educação só poderá ser medido após o retorno das atividades (Newton Menezes/FuturaPress)

Pois, há quase uma década, a tecnologia tem sido vista como um instrumento que pode auxiliar na solução desse impasse. Para isso, o que se preconiza é a adoção de um ensino híbrido (blended learning, no jargão). Como o nome indica, ele mantém um pé no mundo dos tijolos, o analógico, e outro no virtual. O conceito distingue-se menos pela plataforma que utiliza e mais pelo horizonte que almeja. “A ideia, aqui, é recorrer às ferramentas digitais para transformar a educação tradicional, baseada na transmissão passiva e massificada de informações, quer online, quer offline, em algo centrado no aluno”, diz Lilian Bacich, líder pedagógica da consultoria Tríade Educacional. “No limite, o que se busca é a tentativa de uma personalização do ensino.” 

Hoje, apontam dados do Cieb, as cinco maiores plataformas digitais do mundo, como edX e Coursera, reúnem informações de mais de 110 milhões de alunos. A extração de dados desse monumental big data permite que sejam conhecidos detalhes do desempenho individual e do conhecimento prévio dos estudantes, além de tornar viável a realização de avaliações com a devolução imediata dos resultados aos docentes. “E a velocidade desse retorno é muito importante”, observa Ricardo Henriques, do Instituto Unibanco. “Os professores não precisam esperar até o fim de um período letivo para ver quem aprendeu ou não as lições. Eles podem fazer avaliações a qualquer instante e, a partir daí, moldar as aulas.”

Dito assim, isso parece o prenúncio de uma baita quebra de paradigma. Toda a teoria sugere que a associação de bits com a alta pedagogia é poderosa e pode ampliar a individualização do ensino, à semelhança do que faziam os velhos tutores. Ocorre que os mesmos técnicos que real­çam a importância do uso de tais dispositivos advertem: a tecnologia pode ser bem útil, mas nem de longe é uma panaceia.

Para um grupo considerável de especialistas, esses limites também se tornaram gritantes na pandemia. “Na maioria dos casos, o que vimos neste período foi a mera transposição do analógico para o digital, mesmo em instituições de elite”, diz Olavo Nogueira Filho, diretor da ONG Todos pela Educação. “As aulas que eram presenciais foram simplesmente filmadas e transmitidas pela internet.” É verdade que essa estratégia não passou de um remendo, mas Lilian Bacich, da Tríade, adverte: “Isso pode parecer inovador, mas é um retrocesso. Com ações desse tipo, só reforçamos um modelo de educação expositiva, algo que está dando errado há muito tempo no país.” Tais práticas ainda causam prejuízos adicionais ao ensino, como a redução do engajamento e a dificuldade de criação de vínculos entre os estudantes e os professores. 

No babélico 2020 escolar, frisam os técnicos, o uso diversificado de meios e materiais didáticos foi mais efetivo tanto para aumentar a eficiência das estratégias digitais quanto para permitir o acesso de estudantes pobres ao conteúdo didático. “A tentativa de empregar somente uma fórmula fracassou”, diz Luiz Garcia, presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). “No fim de abril, constatamos que 40% dos estudantes em diversas áreas não estavam tendo acesso a nenhum tipo de atividade escolar. Em meados de agosto, cinco meses depois, esse número havia caído para 4%. O grande instrumento dessa queda foi a distribuição de material impresso.”

Garcia avalia que os melhores resultados no campo da oferta de conteúdo foram obtidos pelas redes que identificaram com rapidez as vulnerabilidades dos alunos e usaram formas alternativas para alcançá-los. Algo que também incluiu, ainda que em menor escala, o uso do rádio e da TV.

Política de inclusão 

Os pedagogos realçam que outra lição dada pela pandemia, que também veio à tona com a maré alta dos bits e bytes, foi a necessidade de implementação de uma política de inclusão digital voltada para a educação. Mesmo porque, para as massas, os recursos tecnológicos só serão úteis se forem acessados. Para os especialistas, neste início da segunda década do século 21, o ideal seria que esse assunto reverberasse daqui em diante no país com a mesma estridência com que o tema da merenda escolar dominou o debate público — e a ele se impôs — décadas atrás. “A conexão tornou-se um insumo básico”, afirma Lúcia Dellagnelo, do Cieb. “Hoje, ela é tão importante como água no ambiente escolar.”

Dados do Censo Escolar de 2018 indicam que 95% das escolas brasileiras estão ligadas à internet. Essa conexão, entretanto, em geral é restrita à área administrativa das instituições de ensino. Não tem impacto na aprendizagem, portanto. E a execução de um programa que mude tal quadro deveria contemplar três dimensões.

A primeira consistiria na criação de uma política nacional de última milha de banda larga, voltada para os colégios públicos. A segunda seria a transformação dessas escolas em hubs de conectividade, principalmente em regiões carentes. Por fim, o pacote deveria não só abrigar mas privilegiar famílias em situação de vulnerabilidade. “Sem isso, não é possível pensar em modelos de ensino inovadores, nem sequer em um mínimo de igualdade de acesso a um conteúdo adequado aos novos tempos”, diz Henriques, do Instituto Unibanco.

Óbvio que, à primeira vista, não parece razoável manter os pés na realidade do país e, ao mesmo tempo, imaginar mudanças desse quilate. O Censo Escolar (2018) mostra que 16% das 182.000 escolas brasileiras da educação básica (da creche ao ensino médio) não têm banheiros dentro dos prédios. Outras 26% não dispõem de água encanada e 49% estão desligadas das redes de esgoto. A dívida histórica nesse campo é imensa, mas nem sempre ela está associada à falta de recursos. Os desvãos na gestão do sistema são imensos no Brasil.

Em grande medida, foi isso o que constatou um estudo recente do economista Naercio Menezes Filho, do Centro de Gestão e Políticas Públicas, ligado à escola de negócios Insper. O trabalho cotejou a porcentagem de alunos que realizaram atividades escolares durante determinado período da pandemia nas redes públicas do Pará, Ceará e Rio de Janeiro. Os números foram comparados ao total de estudantes com acesso à internet em cada região e à nota de matemática na Prova Brasil, que avalia a qualidade do ensino nas escolas públicas. No cômputo final, 50% dos paraenses fizeram tarefas nesse período, ante 80% dos fluminenses e 90% dos cearenses (que também obtiveram as melhores notas na Prova Brasil).

Escola primária na Itália: 1,3 bilhão de crianças e adolescentes no mundo foram afetados pela pandemia (Marzio Toniolo/Reuters)

Ocorre que as taxas de acesso à web do Ceará são parecidas com as do Pará (ambas de 70%) e bem menores que as do Rio (92%). Em suma, os cearenses se destacaram mesmo não dispondo da melhor infraestrutura ou dos maiores recursos financeiros. “O que explica a diferença de resultado é como a rede está estruturada e é gerida”, diz Menezes Filho, que estuda o setor há duas décadas. “Eu não pensava dessa maneira, mas, com a pandemia, ficou evidente que falta à educação no Brasil um mínimo de gestão. E são coisas simples, primárias, mas que os pequenos colégios em áreas pobres não têm condições de executar.” É por isso que encorpa no setor o debate sobre a criação de um sistema integrado de educação, à semelhança do SUS na saúde, que poderia difundir um padrão gerencial básico, assim como facilitar a troca de informações e experiências entre as redes do país.

Há também um desdobramento da crise sanitária que está sendo comemorado na educação. Em novembro, 72% dos professores ouvidos em uma pesquisa do Instituto Península disseram se sentir valorizados por causa do trabalho executado na pandemia. “Isso é importante porque, sejam quais forem os recursos utilizados, os docentes continuam sendo a chave do processo”, afirma Nogueira Filho, do Todos pela Educação. Ainda assim, é preciso prepará-los para os ­atuais e futuros desafios. No início da crise, em um levantamento realizado pela Undime em parceria com o Conselho Nacional de Secretários de Educação, quatro em cada dez profissionais das redes públicas afirmaram que sentiam dificuldade em lidar com ferramentas digitais.

Não por acaso, em novembro, 54% dos professores disseram que anteviam um futuro de aulas presenciais para o setor. Outros 44% apostaram na adoção do modelo híbrido e 2% acreditavam em um porvir online. “Isso não quer dizer que eles sejam céticos em relação à tecnologia”, diz Heloisa Morel, diretora do Instituto Península, responsável pelo estudo. “Mas mostra que não acreditam em mudanças, pois sabem que boa parte dos alunos das escolas públicas não tem acesso a esses meios.” Além do mais, e diante das dificuldades correntes, 60% consideraram que os estudantes não evoluíram em 2020. Nove em cada dez (91%) apostavam em um alargamento da desigualdade educacional no país. Essa pode ser uma visão dura, mas compatível com o momento. Durante a pandemia, mais do que nunca, estudar foi um privilégio no Brasil. A tarefa que persiste ainda é transformar essa regalia em um direito.