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Eletrificação será mais rápida no campo, diz presidente da Volvo CE

Luiz Marcelo Daniel avalia que a empresa deverá atingir as metas de venda de elétricos no Brasil até 2030

Luiz Marcelo Daniel, presidente da Volvo CE na América Latina: carregadeira elétrica de grande porte chega em 2025 (Volvo CE/Divulgação)

Luiz Marcelo Daniel, presidente da Volvo CE na América Latina: carregadeira elétrica de grande porte chega em 2025 (Volvo CE/Divulgação)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de macroeconomia

Publicado em 23 de maio de 2024 às 06h00.

O uso de veículos elétricos de trabalho deverá avançar mais rapidamente nas fazendas do que nas ruas, avalia Luiz Marcelo Daniel, presidente da Volvo CE na América Latina. Ele diz que instalar estruturas de recarga nas propriedades é mais fácil do que em centenas de postos pelas ruas e estradas. Assim, os novos tratores e carregadeiras elétricas terão operação mais fácil do que os carros movidos a energia.

A Volvo CE é a divisão da montadora sueca dedicada a máquinas de construção e movimentação de cargas, muito usadas no agro. A empresa lançou no Brasil dois modelos elétricos de carregadeiras de pequeno porte e planeja oferecer um modelo maior no mercado já em 2025.  

Quais são os principais entraves para o avanço de máquinas e veículos elétricos no campo?

Eu partiria da estrutura existente para manter a frota que está lá hoje. Para girar essa frota, é necessário manter reservatórios de diesel suficientemente grandes, em uma localização distante dos pontos de distribuição. Caminhões grandes, como os dos postos de gasolina, são chamados às propriedades para abastecer os tanques. Parte da frota atende à legislação Euro 6, que funciona com diesel e amônia. O diesel precisa ser misturado com amônia, então é preciso ter dois tanques. E manter tudo isso em uma estrutura protegida, respeitar o prazo de validade do diesel. Se houver algo lá dentro do tanque, não dá para abastecer, tem de esperar zerar. Aí só é possível chamar o entregador na hora certa e, se ele não puder entregar naquele momento e você estiver em produção, imagine o tamanho do problema.

Mas há a questão de que parte das fazendas do país ainda não recebe energia elétrica em quantidade adequada. Como enfrentar isso?

Eu concordo que existe um desafio hoje em relação à infraestrutura elétrica, mas as maiores unidades de produção da commodity agrícola, numa relação de 80/20, têm acesso à energia e condições de carregar as máquinas. Você tem de ter eletricidade para a casa, para os outros equipamentos, para a administração, para dar conforto aos operadores. É mais tranquilo administrar uma rede elétrica para suprir o maquinário do que ter de lidar com as questões envolvendo o diesel. Então vejo uma possibilidade de acelerar o uso de energia. Máquinas de construção são mais fáceis de carregar a partir de uma estrutura privada do que uma grande frota de automóveis, que exigem uma rede de postos públicos e privados para suprir as necessidades dos clientes, como o carregamento em viagens.

Quais são as metas da empresa nessa área?

Temos a ambição no Grupo Volvo de chegar a 2030 com 35% das unidades produzidas sendo elétricas ou sem pegada de carbono. Ela é plenamente atingível no contexto brasileiro, em razão das aplicações. A agricultura no Brasil tem um peso um pouco maior do que em outros mercados. E, até 2040, será net zero. Ou hidrogênio, ou bateria, ou cabo.

O que tem ouvido dos clientes sobre os modelos elétricos?

Vejo um interesse muito grande. Eles dizem: “Estou vendo aqui uma máquina elétrica compacta, mas quando vai chegar a máquina grande, que é a que eu uso?”. Essa é a pergunta que a gente mais ouve. A produção da carregadeira L120, que a gente mostrou na feira M&T Expo [realizada em São Paulo em abril], se inicia no primeiro trimestre do próximo ano. A essa altura, no segundo trimestre de 2025, já estaremos distribuindo esse novo modelo. A pauta obviamente é importante também para outros segmentos. Temos um cliente que tem uma pedreira em Portugal que está no processo de teste da máquina e instalou painéis solares para suprir a pedreira e também levar [rede elétrica] para o grid.

Quais são as perspectivas de mercado neste momento?

Entre os argumentos de compra, há a renovação de frota e, em alguns casos, crescimento de frota. Há equipamentos com quatro, cinco anos que já poderiam ser trocados por outros que teriam maior produtividade. Vejo muitas consultas e alguns negócios fechando. Dados da Abimaq mostram que o primeiro trimestre para as máquinas agrícolas foi bem complicado. Em máquinas de construção, houve uma queda de 14,6% no primeiro trimestre de 2024 ante o de 2023. Mas ainda trabalhamos com um número de crescimento para este ano. Se você olha janeiro contra janeiro, depois janeiro e fevereiro contra janeiro e fevereiro, e depois o trimestre todo, o número com que começamos o ano é diferente do de agora. Estamos reduzindo o gap. A tendência é ver, em abril, em vez de 14,6%, 11 ou 12 [% de queda]. Ou seja, está havendo um crescimento.

Que fatores ajudam, e quais atrapalham o cenário?

A gente vê pautas políticas sendo discutidas, a questão dos conflitos [internacionais] traz alguma preocupação devido ao movimento nas pautas de exportação. Mas vejo a velocidade aumentando. No ano passado, o custo de tomar um empréstimo estava bem mais elevado do que neste ano. E o Fed [banco central americano] sinalizou uma manutenção de taxa de juro. Não adianta você contar que daqui a pouco vai reduzir mais tantos pontos percentuais. Então a gente vê razão para compra, uma aceleração e uma perspectiva de crescimento, embora discreto, em relação a 2023. Alguma coisa em torno de cinco pontos percentuais.

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