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Remy Sharp
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No começo dos anos 1970, o panorama do agronegócio no Brasil era bem diferente do atual. Até o termo que se tornou referência para definir o setor, derivado do agribusiness americano, era praticamente desconhecido no campo e nas cidades. Por causa de fatores como a intensa industrialização que predominava na economia nacional e o rápido processo de urbanização, a agropecuária carregava resquícios dos anos 1950 e 1960, como as baixas mecanização e produtividade. O cultivo da soja ainda era inexpressivo há 50 anos, e a produção de grãos e carnes não atendia sequer o mercado de consumo interno de maneira satisfatória.

O cenário atual é bem diferente. Em 2022, o agronegócio respondeu por 24,8% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Em cifras, foram cerca de 2,4 trilhões de reais injetados na economia por toda a cadeia agropecuária no ano passado, incluindo insumos, produção e serviços ligados ao setor, como venda de máquinas agrícolas, seguros e outros.

Em quase cinco décadas, a colheita de grãos cresceu 577%, saltando dos 46,9 milhões de toneladas colhidas na safra 1976/1977 para os 317,6 milhões de toneladas estimadas para a safra atual (2022/2023), em novo recorde de produção. Sozinha, a soja deverá atingir até o fim de 2023 uma produção de 154,6 milhões de toneladas, 23,1% mais do que na safra anterior. Os números são da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Mais da metade dessa produção vem das cooperativas, algumas delas gigantes do setor, como a Coamo, do Paraná, e a ­Comigo, de Goiás. “O forte da produção agrícola brasileira está dentro do sistema cooperativo, sendo que 71% dos agricultores ligados às ­cooperativas têm perfil familiar”, diz o presidente do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), Márcio Lopes de Freitas.

O desempenho do campo se reflete em toda a economia nacional, em um círculo virtuoso de desenvolvimento e crescimento das empresas relacionadas ao setor. Em 2022, a receita líquida das 73 companhias agropecuárias analisadas por ­MELHORES E MAIORES somou 544,7 bilhões de reais, 34,4% mais do que o resultado registrado no ano anterior — 405,1 bilhões de reais. O lucro líquido foi de 42 bilhões de ­reais; e a margem líquida, de 7,72%.

Centro de armazenagem da SLC: a empresa registra crescimento expressivo e lidera ranking setorial

A SLC Agrícola manteve a liderança no ranking setorial, com receita líquida apresentada de 7,3 bilhões de reais no ano passado, 3 bilhões de reais a mais do que a receita registrada em 2021. A companhia, com sede em Porto Alegre, possui cerca de 670.000 hectares de área plantada de algodão, milho e soja em 22 unidades de produção, que estão espalhadas por sete estados. Os negócios também abrangem a criação de gado, produção e comércio de sementes.

Os efeitos sociais do agronegócio

O lucro líquido da SLC nesta edição foi de 1,3 bilhão de reais, e os ativos totais da companhia gaúcha somaram 14,8 bilhões de reais, mais do que o dobro dos ativos da segunda colocada: a 3Tentos Agroindustrial, cujos ativos atingiram 6 bilhões de reais em 2022, e cujo lucro líquido registrado foi de 571,1 milhões de reais.

“Os números falam por si. Seja pela produção de riquezas, seja pela geração de empregos, o agronegócio é fundamental para a economia brasileira”, resume André Guillaumon, CEO da BrasilAgro, empresa especializada em compra e venda de propriedades rurais, produção de alimentos, fibras e bioenegia. Ele tem razão. No primeiro trimestre deste ano, o agronegócio era responsável por 28 milhões de empregos, cerca de 27% do total de postos de trabalho no país, segundo dados da CNA.

“Esse número de empregos gerados no campo inclui o trabalho de subsistência, por exemplo, o pequeno sitiante”, explica o zootecnista Bruno Lucchi, diretor-técnico da CNA, referindo-se à importância do trabalho agrícola para a geração de renda da população. A posição é compartilhada pelo coordenador-geral de políticas públicas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), José Garcia Gasques, que cita o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBPA) brasileira, que neste ano deve superar 1,1 trilhão de reais. O VBPA é o faturamento recebido pelos produtores em suas propriedades.

“O agronegócio tem efeitos sociais importantes. Isso ocorre devido à sua contribuição para a geração de renda e emprego”, diz Gasques, que destaca a integração do agro com outros setores da economia, como indústria e serviços. “Essa integração com outras atividades reforça a importância do setor na economia nacional”, explica.

O crescimento segue além das porteiras e contribui não apenas para o desenvolvimento rural mas também para o urbano. Ao longo dos últimos 50 anos, cidades inteiras nasceram e se desenvolveram com a ajuda de produtores desbravadores no Centro-Oeste, e hoje são centros importantes do agronegócio, como Sorriso, Lucas do Rio Verde e Sinop, todas em Mato Grosso.

“Municípios que nasceram com a força do agro hoje são polos regionais de serviços. O dinheiro do produtor rural que fica na região ajuda no desenvolvimento das localidades e resulta em benefícios como construção de aeroportos, abertura de universidades etc.”, diz Lucchi, que também cita o caso do Vale do São Francisco. Municípios como Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), que se destacam pela produção e exportação de frutas, possuem indicadores econômicos e sociais melhores do que de outras cidades do mesmo porte na Região Nordeste. “O agronegócio foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento do interior do país”, diz o diretor da CNA.

As frutas produzidas no Vale do São Francisco, com as commodities agrícolas de outras regiões, contribuem para que a produção brasileira ganhe escala no mercado externo. O Brasil hoje é o segundo maior exportador de alimentos do mundo, com 7,4% do total do mercado internacional, perdendo apenas para os Estados Unidos, segundo a CNA.

O resultado se reflete na balança comercial: os números da CNA mostram que quase metade das exportações brasileiras em 2022 (47,6%) correspondeu a produtos agropecuários, totalizando 159 bilhões de dólares em divisas. “É um setor muito resiliente, que garante a segurança alimentar do país e gera excedentes para alimentar o mundo”, diz Lucchi.

Nesses quase 50 anos, a área de produção no território nacional, segundo a CNA, cresceu 110%, passando de 37,3 milhões de hectares de áreas cultivadas, em 1976, para os atuais 78,2 milhões de hectares. O salto em produtividade foi ainda maior, de 1,3 tonelada por hectare anual, em meados da década de 1970, para as 4,1 toneladas por hectare produzidas hoje, um incremento de 223%. O empreendedorismo dos produtores aliado às inovações tecnológicas tornou possível colher mais produtos em áreas menores.

“A agropecuária brasileira é exemplo mundial de inovação e sustentabilidade. Somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo, capazes de produzir de duas a três safras na mesma área, por meio de muita ciência, tecnologia e inovação”, explica Renata Bueno Miranda, secretária de Inovação do Ministério da Agricultura. A melhoria na conectividade e o advento do 5G no campo abrem novas oportunidades em termos de produção agrícola. “Estudos mostram que uma elevação de 23% para 50% das áreas do território brasileiro cobertas por internet permitirá um aumento de 50 bilhões de reais no valor bruto da produção”, diz Miranda.

O desafio da armazenagem de grãos

Os desafios são proporcionais às oportunidades. Entre eles, os problemas de armazenamento e logística. Atualmente, a capacidade estática de armazenagem no país é de cerca de 188 milhões de toneladas de grãos. Com a perspectiva de mais uma safra recorde superior a 317 milhões de toneladas, o Brasil acumula um déficit de mais de 128 milhões de toneladas de espaço em armazéns para estocagem adequada das colheitas — quase 30% da produção total. A Região Centro-Oeste, que concentra a maior produção de grãos do país, é a que mais sofre com o problema de estocagem.

Vista aérea de Sinop, em Mato Grosso: a receita do agronegócio levou o desenvolvimento a cidades do Centro-Oeste

“Com isso, a maior parte da produção precisa ser retirada da fazenda logo após a colheita, pressionando o sistema logístico e gerando perdas ao país”, afirma Piero Abbondi, CEO da Kepler Weber, líder na América Latina em soluções pós-colheita para beneficiamento, armazenagem de grãos e movimentação de granéis. A empresa, que possui unidades industriais em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul, ficou em terceiro lugar nesta edição do ranking setorial agro de MELHORES E MAIORES, com receita líquida de 1,8 bilhão de reais no ano passado.

“Esse fato reforça a importância de ampliar a capacidade de armazenagem de grãos no país, para que tenhamos maior segurança alimentar e possamos operar com estoques reguladores em nossa logística de produção”, diz Abbondi. Levantamento feito pela Cogo Inteligência em Agronegócio, a pedido da Kepler Weber, mostrou que o Brasil deve perder 30,5 bilhões de reais, em 2023, em deságios na venda de soja e milho. “As causas dessas perdas bilionárias são, entre outras, a forte pressão de venda no momento da colheita, fatores logísticos, custos elevados de frete e portos com problemas de carga”, diz Abbondi.

A guerra na Ucrânia expôs a dependência do Brasil em relação aos fertilizantes importados, grande parte deles da Rússia. Para contornar o problema, empresas investem na produção nacional. Em 2022, a Verde Agritech, empresa de fertilizantes potássicos, anunciou aporte de 275 milhões de reais no aumento da produção para se consolidar como alternativa à dependência, dos produtores rurais, do cloreto de potássio importado. O investimento vai permitir um salto de 3 milhões para 13 milhões de toneladas de fertilizantes produzidas por ano. “Há uma demanda global crescente por mais alimentos, e nossas inovações, criadas por meio de parcerias com universidades do Brasil e do exterior, unem o melhor da natureza e da tecnologia para colaborar com uma agricultura mais saudável, produtiva e sustentável”, comenta Cristiano Veloso, fundador e CEO da Verde Agritech.

Sustentabilidade, aliás, tornou-se obrigação em um mercado interno e externo bastante exigente em relação às boas práticas ambientais. O sucesso do agronegócio, hoje e no futuro, está diretamente ligado à proteção do meio ambiente e ao uso racional dos recursos naturais. “É natural que o consumidor queira saber onde e como está sendo produzido aquilo. É uma discussão de que ficamos um pouco distantes nos últimos anos. A partir de agora, teremos de comunicar melhor e, com isso, abriremos novos mercados”, diz Guillaumon, da BrasilAgro.


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