Entre os maiores grupos empresariais, a recuperação é desigual

A receita dos grandes grupos empresariais do país cresceu 1,7% no ano passado. Mas a recuperação foi bem diferente entre os diversos setores da economia
 (Luciana Whitaker/Pulsar Imagens/Divulgação)
(Luciana Whitaker/Pulsar Imagens/Divulgação)
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Daniela Rocha

Publicado em 20/08/2018 às 17:14.

Última atualização em 20/08/2018 às 19:34.

A economia brasileira começou a se recuperar no ano passado após um biênio negativo. Mas, além de tímida, a retomada foi desigual entre os setores. É esse cenário que está refletido no ranking dos 200 maiores grupos empresariais privados de MELHORES E MAIORES. Na média, a receita dos conglomerados aumentou 1,7% no ano passado, enquanto o produto interno bruto cresceu 1%. A análise dos números mostra que empresas de energia e do agronegócio puxaram a expansão, enquanto o segmento de construção continuou encolhendo.

Segundo um levantamento da Fipecafi, fundação ligada à Universidade de São Paulo responsável pelos dados de -MELHORES E MAIORES, 15% dos maiores grupos do país fazem parte do setor de energia. Os grupos que mais cresceram foram a comercializadora Nova Energia, a chinesa State Grid e a italiana Enel. “Fatores específicos de cada uma dessas empresas explicam a expansão acima da média”, diz Adriano Pires, especialista no setor e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. A Nova Energia, que atua no mercado livre de energia, fechou novos contratos de comercialização no ano passado, por preços mais altos, e isso explica o faturamento 216% maior, de 820 milhões de dólares. A State Grid tem duas subsidiárias no Brasil. Uma fechou em 2017 a compra da CPFL. A outra, que atua na área de transmissão e está construindo linhas da Usina de Belo Monte, faturou 976 milhões de dólares em 2017, um crescimento de 130%. A Enel, por sua vez, fechou a aquisição da Companhia Energética de Goiás em 2017. Neste ano, comprou 73% da Eletropaulo por 5,5 bilhões de reais e tornou-se a principal distribuidora de energia do Brasil.

Já a maior companhia privada de energia do país é a Raízen, com faturamento de 25 bilhões de dólares no ano passado. Fruto da fusão da brasileira Cosan com a anglo-holandesa Shell, a Raízen ganhou dinheiro nos diferentes segmentos em que atua: distribuição de combustíveis, produção de etanol e venda de gás (por meio da subsidiária Comgás). “Na área de combustíveis, a Raízen tem uma estratégia comercial eficiente, de priorizar cidades do interior e regiões em que haja menos concorrência. Com isso, conseguiu ganhar mercado da BR Distribuidora e do Grupo Ultra”, afirma Gabriel Francisco, analista da empresa de investimentos XP. A melhora nos resultados do segmento de gás se deve à recuperação da economia, que elevou a demanda.

Vale: a mineradora passou da quarta para a terceira posição entre os maiores grupos | Germano Lüders

Outro destaque no ranking é a Vale. A mineradora passou da quarta para a terceira posição entre os maiores grupos do país, com uma receita de 33 bilhões de dólares. Além disso, é dona do segundo maior lucro, de 5 bilhões de dólares. O resultado foi beneficiado por ganhos de eficiência e, especialmente, pelo aumento do preço do minério de ferro no mercado internacional. O levantamento mostra ainda que os grandes bancos mantiveram posições de destaque. O Bradesco é o maior grupo nacional, com um faturamento de 66 bilhões de dólares, seguido pelo Itaú.

As instituições financeiras também estão entre os grupos com os lucros mais elevados. Nessa lista, o Itaú aparece na liderança, o Bradesco fica em terceiro e o Santander em quinto (veja quadro abaixo). “Os bancos conseguiram aumentar a rentabilidade principalmente devido à redução da inadimplência e à elevação do crédito para pessoas físicas”, diz António Bernardo, presidente da consultoria Roland Berger no Brasil. De forma geral, o lucro das grandes empresas do país cresceu mais do que as receitas. O motivo, segundo os especialistas, é o fato de elas terem cortado custos e investido para elevar a produtividade em 2015 e 2016, para fazer frente à recessão. No ano passado, colheram os frutos.

Um setor que não conseguiu se recuperar é o da construção. A queda dos investimentos públicos em infraestrutura e as investigações da Operação Lava-Jato tiraram muitas empreiteiras da lista das maiores companhias do país: em 2017, sobrou apenas a Camargo Corrêa, que perdeu 13 posições no ranking depois de seu faturamento cair cerca de 10% de 2016 para 2017, para 3,2 bilhões de dólares.

As incorporadoras também continuam perdendo receita, já que a demanda por imóveis vem crescendo lentamente, em razão do desemprego ainda alto e da falta de fôlego da economia. No ano passado, apenas MRV e Cyrela figuraram entre os maiores grupos brasileiros, e a receita da Cyrela caiu 19%. Os analistas esperam que o PIB tenha uma expansão um pouco maior neste ano e um crescimento mais alentado em 2019. Se a expectativa se confirmar, e o próximo governo não decepcionar, é possível que mais setores tenham resultados melhores daqui para a frente.