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John Gray não é um autor propriamente fácil, tampouco uma unanimidade. Tipicamente, o filósofo aparece associado ao pessimismo, quase tangenciando o niilismo, por causa das críticas contundentes ao humanismo e à ilusão de que a história percorre uma trajetória de progresso constante e linear. Poderíamos, sim, caminhar de maneira monotônica nos campos do progresso técnico e científico, mas sem nenhuma garantia de mesmo comportamento no campo moral. Neste, teríamos uma dinâmica mais cíclica, como as marés, de idas e vindas — a tortura, por exemplo, poderia ser banida em determinada época e recuperada adiante.

Ao reconhecer as limitações humanas, podemos nos livrar da angústia contemporânea, adotando uma perspectiva mais contemplativa do mundo. Poderíamos reconhecer, assim, a beleza da vida em si e o mistério mágico do Universo. Estaríamos, para usar uma expressão de Nietzsche, “além do bem e do mal”, ou vivendo admirados um “misticismo sem deus”, ideia do pensador Fritz Mauthner resgatada por Gray no livro O Silêncio dos Animais — há uma serenidade bela no silêncio exclusivo aos animais.

Em seu mais novo livro, The New Leviathans: Thoughts After Liberalism, Gray recupera o original de Thomas Hobbes­ para apontar uma importante contradição contemporânea: em vez da ditadura imposta pelo monstro do Estado, a democracia liberal produziu outros leviatãs, interessados em determinar, como “engenheiros de almas”, nossos discursos, modo de pensar e de viver. Estaríamos condenados, de um lado, pela esquerda identitária e, de outro, pela direita ultraconservadora.

É curioso como deve-se obedecer também a uma cartilha pronta nas finanças. A Faria Lima e o Leblon, normalmente críticos do capitalismo woke, obedecem a criteriosa rigidez de pensamento, discurso e até mesmo indumentária. Na máxima conhecida do groupthinking, é preferível errar com todo mundo do que acertar sozinho.

O investidor tenta diversificar entre uma gama de fundos de ações e, no final do dia, mesmo sem saber, acaba se expondo a uma carteira com enorme intersecção. Tem-se a sensação de quase um conluio, tácito ou formal, entre os principais gestores.

Estamos em novembro e agora começa a temporada de publicação de relatórios de perspectivas de investimento para 2024. Alguém publica o primeiro preço-alvo para o Ibovespa — alguma coisa como CDI projetado, mais um prêmio de risco de mercado, ali entre cinco e dez pontos percentuais para cima. Potencial de valorização mais perto de 15% se você estiver mais pessimista; mais próximo de 30% se o otimismo prevalecer. Então, ancoramos toda a rua naquele primeiro número, com uma margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos (intelectualmente, sempre para menos).

A dinâmica se repete para as ações individuais, sempre contemplando retornos projetados bem-comportados, graduais e lineares, como se os movimentos pudessem ser antecipados por distribuições gaussianas devidamente documentadas nos livros-texto.

Pelo menos dois problemas emergem daí

Quando você cede às tentações do groupthinking, adere ao pensamento de consenso. Além da obviedade lógica de que o consenso pode estar errado, há um elemento típico dos mercados razoavelmente eficientes: as leituras de consenso estão embutidas nos preços dos ativos. Ou seja, seu desempenho vai ser dado pelo retorno médio do mercado ajustado pelo risco. Se você quer retornos extraordinários, não vai poder montar posições ordinárias. É uma tautologia. Estar com a manada oferece o conforto da proteção e do menor risco de ser capturado por um predador. Mas a grama pisada pelo coletivo é menos verde.

A segunda questão, talvez mais grave, é que a crença em trajetórias de mercados e ativos financeiros de maneira gradual, linear e bem-comportada não resiste à observação empírica. Se seu modelo mental não está alinhado à realidade, a culpa não é da realidade, embora boa parte dos analistas insista em transformar suas planilhas de Excel em camas de Procusto.

A evolução dos mercados no último mês é exemplo emblemático do argumento. Há poucas semanas, a preocupação com a trajetória das taxas de juro de mercado no exterior e com a evolução das contas públicas brasileiras disparava um elevado grau de aversão a risco. Ninguém queria saber das ações ou dos juros longos brasileiros. O barata-voa levou os índices de ações ao vermelho em 2023, enquanto o juro real de longo prazo ultrapassou a barreira dos 6%.

Então, quando parecia afastada a hipótese do famigerado rali de fim de ano, a economia americana deu sinais de desaceleração. A expectativa pelo tão sonhado “Fed pivot” empurrou ativos de risco pelo mundo. Com juros menores por lá, todo o resto fica mais atrativo. Ao cenário externo mais amigável, se somaram a aprovação da reforma tributária no Senado e a inesperada desaceleração da inflação medida pelo IPCA.

Num intervalo de apenas duas semanas, o Ibovespa subiu quase 9%, para seu maior patamar do ano. Para muitos, a falta de gradualismo e a intensidade do movimento de novembro foram surpreendentes. Ocorre que essa é normalmente a tendência. Poucos dias fazem toda a diferença, mesmo em trajetórias de longo prazo.

Ao longo dos últimos 20 anos, o Ibovespa acumula uma alta de 541%. Se retirarmos as dez maiores altas diárias desse longo intervalo, a alta cai para 142%. É simplesmente impressionante o impacto de apenas poucos pregões. Se refizermos o exercício para o S&P 500, teremos um avanço total de 317% (em dólar) e de 191% se tirarmos apenas dez pregões. Andamos em saltos, e poucos dias mudam tudo. No final, o caráter aparentemente surpreendente da expressiva valorização em tão pouco tempo é apenas a obediência a uma tradição.

Num mundo errático e de movimentos muito rápidos e intensos, só resta a alternativa de continuar alocado, em especial se podemos comprar ótimos ativos por preços atraentes, exatamente como é o caso brasileiro. Estômago de avestruz ajuda a ler John Gray e a ganhar dinheiro em bolsa. Ambas as atitudes valem a pena no final.

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