Revista Exame
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A derrapada da Tesla: o que está por trás da forte queda da empresa de Musk?

Desde o início de 2022, a montadora perdeu 70% do valor de mercado

Fábrica da Tesla na China: em três meses, o valor das ações da montadora caiu 59%. (VCG/VCG/Getty Images)

Fábrica da Tesla na China: em três meses, o valor das ações da montadora caiu 59%. (VCG/VCG/Getty Images)

E
Esha Day

19 de janeiro de 2023, 06h00

Até muito recentemente, os carros mais caros da Tesla tinham uma configuração chamada “modo ridículo”, que usava o motor elétrico de alto torque desses veículos para obter uma aceleração super-rápida. No ano passado, “modo ridículo” também foi uma descrição adequada do preço das ações da Tesla — só que no sentido contrário.

De cerca de 1,2 trilhão de dólares no início de 2022, o valor de mercado da empresa caiu mais de 70%, ou seja, para 340 bilhões de dólares. Apesar da queda brusca, o valor atual ainda a torna, de longe, a montadora mais valiosa do mundo. Ford Motor, General Motors, ­Stellantis e Toyota valem aproximadamente a mesma quantia todas juntas.

Mas outra maneira de olhar a situação é pensar que o valor de mercado perdido pela Tesla nos últimos meses (algo como 860 bilhões de dólares) é o dobro do valor de mercado das quatro montadoras somadas. Além disso, o CEO Elon Musk fez história ao perder mais dinheiro na fortuna pessoal do que qualquer outro ser humano.

Sede do Twitter em São Francisco, nos Estados Unidos: distração de Musk (Tayfun Coskun/Getty Images)

A explicação mais óbvia é que a ação da Tesla é especialmente de alto crescimento e alta especulação num mercado que impulsionou essas empresas em 2020 e 2021 antes de se voltar contra elas abruptamente em 2022, quando as taxas de juro subiram e o mercado de ações caiu de maneira generalizada. Musk apontou para essa dinâmica num post no ­Twitter em meados de dezembro. (Mais sobre os tuítes a seguir.) Ele disse que, quando as pessoas podem ganhar taxas mais altas sem risco, elas tendem a movimentar dinheiro “de ações para dinheiro vivo”.

No entanto, o declínio da Tesla é notável mesmo entre as ações de tecnologia anteriormente efervescentes. Em 2022, a ação teve o pior desempenho no NYSE FANG+ Index, um indicador de dez grandes empresas de tecnologia incluindo Amazon, Apple e Meta. Esse índice caiu cerca de 40% em relação ao ano passado, o que ainda é muito menor do que a queda da Tesla. As ações da montadora foram amplamente negociadas em linha com outras grandes ações de tecnologia no ano passado até por volta de setembro, e então divergiram drasticamente. Nos últimos três meses, a Tesla caiu 59%, em comparação com uma perda de 6,7% do FANG+ e um aumento de 6,7% do S&P 500.

O restante da explicação é o que Mark Stoeckle, CEO da Adams Funds, que detém ações da Tesla, chama de “um coquetel de desgraças”. Como líder, Musk deu a qualquer investidor nervoso com a avaliação valorizada da Tesla muitas manchetes para justificar a venda.

Elon Musk: quase 40 bilhões de dólares em ações da Tesla vendidos desde 2021 (Patrick Pleul/Getty Images)

A montadora, contudo, está lidando com novos desafios. Vamos começar com as aventuras de Musk no Twitter — tanto como assíduo usuário da plataforma de mídia social quanto como, agora, proprietário. O primeiro golpe veio em novembro de 2021, quando ele fez uma enquete no Twitter perguntando se deveria vender 10% de sua participação na Tesla. Os entrevistados disseram que sim. Em dois meses, Musk vendeu 16 bilhões de dólares em ações da Tesla. As coisas pioraram rapidamente em 2022, depois que ele anunciou sua intenção de adquirir o Twitter.

Depois de tentar escapar do acordo, Musk finalmente teve de seguir em frente. O tempo todo, os investidores da Tesla se preocupavam com a necessidade de ele vender ainda mais sua participação na montadora para pagar pelo Twitter. Além disso, a plataforma digital estava tirando a atenção de Musk aos problemas da Tesla.

Musk já vendeu quase 40 bilhões de dólares em ações da Tesla desde o final de 2021. E, embora recentemente ele tenha dito que não tem planos de tão cedo vender mais ações, o mercado quase sempre não gosta da ideia de uma venda interna da empresa, considerando isso um sinal de baixa confiança.

Ao mesmo tempo, Musk provocou inúmeras controvérsias sociais e políticas desde que assumiu o Twitter, com tuítes troladores e mudanças repentinas nas políticas de moderação. O caótico show secundário do Twitter é importante porque a personalidade de Musk está intimamente associada à Tesla. “Muito dano foi causado à marca e à história, e o fluxo de notícias pode permanecer negativo sobre Elon Musk por um tempo”, diz Catherine Faddis, gerente sênior de port­fólio da Fernwood Investment Management.

A maioria dos investidores da Tesla provavelmente está mais focada no negócio de veículos elétricos — e a empresa simplesmente vem enfrentando um alto nível de expectativas. Afinal, essa é uma ação que subiu mais de 1.100% em 2020 e 2021. Enquanto analistas esperam, em média, que a receita da GM ou da Ford se expanda a um ritmo de porcentagens de simplesmente um dígito nos próximos cinco anos, para a Tesla eles modelam um salto médio de 25% a cada ano.

Essa tese começou a apresentar algumas rachaduras, depois que as entregas de veículos da empresa não atenderam às expectativas dos analistas por três trimestres consecutivos. A última falha foi relatada em 2 de janeiro, levando as ações ao nível mais baixo desde agosto de 2020. A Tesla ainda apresentou um aumento anual de 40% ao estabelecer um recorde trimestral, mas para muitos foi uma decepção relativa, que indica uma nova realidade para a indústria de veículos elétricos, bem como para a Tesla.

Economistas alertam para uma possível recessão global em 2023. Enquanto isso, a alta inflação no ano passado e o aumento do custo de financiamento de veí­culos estão levando os consumidores a adiar os planos de compra de veículos caros, e os carros elétricos costumam ser mais caros do que os movidos a gasolina.

A Tesla raramente oferece descontos, mas recentemente deu aos clientes nos Estados Unidos um desconto de fim de ano de 7.500 dólares para estimular as vendas. Também cortou preços e a produção na China. “Nossa suposição para esse argumento é de que o crescimento ano a ano [embora permaneça impressionante no geral] provavelmente diminuirá a cada ano daqui para a frente”, escreveu Ryan Brinkman, analista do JPMorgan Chase, em uma nota aos clientes após o lançamento do último relatório de vendas trimestrais da Tesla.

Fábrica da Ford nos EUA: concorrente da Tesla apostam alto em carros elétricos (Rober Solsona/Getty Images)

Uma desaceleração econômica será responsável por parte disso, mas Brinkman também aponta para a crescente ameaça da concorrência. As montadoras mais antigas podem ter se atrasado para o jogo do carro elétrico, mas estão planejando inundar o mercado com uma série de veículos elétricos nos próximos anos. Um relatório da S&P Global Mobility em novembro descobriu que a participação da Tesla nas vendas de veículos elétricos deve cair para menos de 20% até 2025, dos dominantes 79% em 2020.

Os otimistas podem apontar que o mercado de veículos elétricos ainda está crescendo rápido o suficiente para a Tesla vender mais carros, mesmo que a participação dela caia. Por enquanto, a empresa ainda é sinônimo de veículos elétricos para um contingente enorme de motoristas de carros convencionais, com motor a combustão. Potenciais concorrentes, como a gigantesca indústria automobilística japonesa, têm demorado a apostar de fato na direção dos carros elétricos.

“A atual história de crescimento da Tesla é positiva e, embora tenhamos visto uma grande queda no preço das ações da empresa, não vimos nenhum declínio material nas operações”, diz Brian Mulberry, gerente de portfólio de clientes da Zacks Investment Management. “As estimativas de vendas ainda estão estáveis, as margens estão melhorando, e os ganhos estão crescendo.”

Como mostra a história da ­Tesla no mercado altista, a ação é sensível à psicologia do mercado. Entre as grandes ações relacionadas à tecnologia, ela é mais parecida com a Meta, que caiu 64% no ano passado. Ambas as empresas enfrentam problemas específicos — no caso da Meta, a queda na receita de mídia social e o foco do CEO Mark Zuckerberg no metaverso —, além de um forte ceticismo geral entre os investidores. Eles estão menos dispostos a dar uma trégua aos gestores de hoje com base na esperança de crescimento no futuro distante. Isso pode novamente mudar rapidamente, caso os dados econômicos e os resultados da Tesla melhorem.

Stoeckle, da Adams Funds, diz que as ações da Tesla ainda não são baratas, mesmo com esses preços. Continua sendo a aposta de um otimista. “É importante não esperar simplesmente que uma queda considerável no preço de uma ação signifique que ela seja atraente — tantas ações em 2022 foram reavaliadas e mereciam ser”, diz ele. “Há questões suficientes sobre as operações da Tesla — demanda da China, corte de preços, boa concorrência —, o que torna difícil declarar que a avaliação atual está correta.”