hero_Na Amazônia profunda, a Swarovski busca valor além do brilho dos cristais

Caio Palazzo/Reprodução

selo
ESG

Na Amazônia profunda, a Swarovski busca valor além do brilho dos cristais

A Fundação, braço filantrópico da companhia, completa 10 anos e celebra a atuação em um dos maiores rios da Amazônia

selo
ESG

Na Amazônia profunda, a Swarovski busca valor além do brilho dos cristais

A Fundação, braço filantrópico da companhia, completa 10 anos e celebra a atuação em um dos maiores rios da Amazônia

Caio Palazzo/Reprodução

Modo escuro

Por Fernanda Bastos

Publicado em 01/07/2023, às 11:40.

Última atualização em 09/08/2023, às 16:13.

A joia da educação

Do rio Purus, na Amazônia. 

Austrália, Áustria, Brasil, China, EUA, Índia, Tailândia e Uganda. Esses são os países que contam, atualmente, com o projeto Escola d’Água (Swarovski Waterschool, em inglês). Por volta dos anos 2000, na Áustria, a Fundação Swarovski, frente filantrópica da marca de cristais, criava um programa pensado para atender estruturas locais, mas logo se expandiu para lidar às demandas globais ligadas à infraestrutura de água potável, lixo e saneamento básico nas regiões de grandes rios, como é o caso do rio Ganges, na Índia, e o rio Yangtzé, na China e, do rio Amazonas, no Brasil. “A Swarovski tem a água como um aspecto fundamental na sua criação, e por isso é um tema tão importante. É dessa visão que nasce o projeto Escola d’Água”, diz Jakhya Rahman-Corey, diretora da Swarovski Foundation, em entrevista exclusiva para a EXAME ESG

No caso do Brasil, navegar pela imensidão das águas do rio Piagaçu-Purus, também conhecido apenas como rio Purus, coloca em perspectiva a grandeza da Amazônia profunda, que são as regiões amazônicas de difícil acesso. Por se tratar de localidades mais distantes, muitas comunidades tradicionais da região – como as indígenas, quilombolas e ribeirinhas – têm dificuldade para acessar a infraestrutura de saneamento básico, como banheiros, e, principalmente, estruturas ligadas à água potável, como filtros e estruturas de armazenamento de água. 

E foi pensando nessa necessidade que a Fundação Swarovski, conta com uma parceria com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) na região dos estados do Amazonas e do Pará desde 2016. “O objetivo é cuidar de quem cuida da Amazônia por meio da conservação do território. Para que assim, nós consigamos manter a Amazônia viva para todos e por todos”, afirmou Valcléia Solidade, superintendente de desenvolvimento sustentável da FAS. 

O fundador da marca de jóias, Daniel Swarovski, revolucionou a maneira de estabelecer o negócio em 1895. Na abertura da primeira fábrica da Swarovski em Wattens, município austríaco, a organização utilizava a água que descia a montanha para o corte dos cristais enquanto, os riachos eram responsáveis por fornecer energia limpa por meio da energia hidrelétrica. 

Segundo Rahman-Corey, Daniel acreditava que não era possível alcançar sucesso sem pensar nas pessoas, este foi um dos legados deixados pelo fundador que são abraçados pela organização. “Não podemos apenas pensar nas comunidades locais. Somos uma comunidade global. A filantropia se encaixa como uma extensão do valor do negócio”, comentou Rahman-Corey. 

Caio Palazzo/Reprodução

Caio Palazzo/Reprodução

Como a Escola d’Água está estruturada

A Fundação Swarovski escolhe parceiros com atuação em cada localidade que o projeto está inserido. Com isso, o projeto busca capacitar crianças e jovens de oito a 18 anos para lidar com a água por meio da educação, que é o eixo principal da ação. A parte de infraestrutura, como a construção dos banheiros nas escolas, vem depois que a frente educativa já foi aplicada e está bem fundamentada. 

Assim, os alunos da Escola d’Água se tornam embaixadores de assuntos como acesso à água e proteção da natureza – influenciando as famílias e comunidades. Como é o caso de Samara Geovana, ativista ambiental que, mora em uma região banhada pelos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns e, hoje, cursa ciências biológicas na UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará) por influência do projeto Escola d’Água. 

Geovana comenta que não tinha a visão de proteção da natureza. “Eu tinha 12 anos quando comecei a participar do projeto, fui crescendo com esse novo olhar e levando tudo isso para dentro de casa de diversas formas. Assim, a minha ligação com a proteção aconteceu a partir do projeto, com ele, comecei a me envolver em lutas e debates sobre a educação ambiental”, afirmou Geovana. “Escolhi ciências biológicas justamente porque eu quero continuar nessa área ambiental e nessa luta pela proteção do meio ambiente”. 

Geovana é apenas uma das muitas jovens impactadas pelo projeto. De acordo com a companhia Swarovski, a Escola d’Água conta com mais de 750.000 alunos, 15.000 professores engajados, e envolveu mais de 2.500 escolas globalmente. Em 2021, por exemplo, o projeto contou com mais de 21.500 alunos formados e 166.000 alunos adicionais e membros da comunidade impactados ao redor do mundo – mesmo com as restrições da pandemia.

“O projeto Waterschool faz parte do Programa de Educação para Sustentabilidade (PES) que busca melhorar a oferta e a qualidade do ensino formal e complementar em aldeias e comunidades na Amazônia. Este projeto, portanto, permite buscar melhores infraestruturas de acesso à água segura em escolas, comunidades e aldeias, e também oferece material didático e treinamento sobre o tema da água, envolvendo a conservação, manejo, uso e tratamento”, disse Solidade. 

Caio Palazzo/Reprodução

Caio Palazzo/Reprodução

A realidade brasileira e o desafio do saneamento

Segundo o ranking do Instituto Trata Brasil, que tem como embasamento alguns dados de 2021 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, no Brasil, 100 milhões de pessoas não têm rede de esgoto, enquanto que para 35 milhões de brasileiros falta água potável. Lembrando que o estudo considerou apenas os 100 municípios brasileiros mais populosos, a situação deve-se agravar em regiões mais remotas do país. 

Então, a Fundação trabalha ou tem iniciado a atuação em quase vinte comunidades – dentre elas, as comunidades Boas Novas, Jari, Tuiué e Santa Luzia do Jari – que fazem parte da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) na região. Para Solidade, prosperidade para os povos tradicionais significa ter acesso aos estudos, água potável e saneamento – detalhes que são essenciais para a qualidade de vida. “O conceito de prosperidade para as populações tradicionais é diferente”, afirmou. 

Pela Amazônia ser uma região de várzea, ou seja, ser uma região onde a vegetação é inundada pelas cheias dos rios em determinados períodos do ano, discutir saneamento pode ser um desafio. Quando se trata de lixo, por exemplo, alguns moradores de comunidades comentaram que – antes da ação local do projeto Escola d’Água –  existiam duas saídas: jogar o lixo no rio próximo ou queimar os resíduos em uma região um pouco mais afastada. O projeto também implementou um protótipo de coleta e separação e conscientização sobre o lixo para reciclagem, onde a ideia é vender os resíduos e criar um fundo onde a comunidade possa utilizar do dinheiro obtido para implementar melhorias.

Por conta da falta de saneamento, um dos grandes problemas entre as crianças das comunidades é a diarreia, por causa da ingestão de água contaminada. Raquel Luna, coordenadora do projeto Escola d'Água no Amazonas, explica que não adianta dar infraestrutura para a escola se a necessidade da comunidade é outra. “Para dar os próximos passos, precisamos oferecer a base. Nós formamos professores mas para não perder o aluno, precisamos endereçar a questão da desidratação e outros problemas que as comunidades passam no dia a dia”, disse 

Veja também

Gotas do saber, rios de mudança

Sarah Miguel, comenta que o início do projeto na comunidade Boas Novas foi uma alegria, porque gerou maior engajamento por parte da comunidade. “Antes existia muita infecção e saber como cuidar e ter consciência, reunir a comunidade para apresentar aos pais os sonhos, foi muito importante”, afirmou Sarah Miguel, professora do projeto Escola d’Água na comunidade Boas Novas, ao longo do rio Purus. 

Porém, segundo a moradora Inês Brasil da Silva, um dos poços providenciados pelo projeto para a comunidade Santa Luzia –  que foi sorteado há alguns anos atrás – não estava funcionando. Estava entupido e, por isso, não havia condições adequadas para usar o equipamento. Ela disse que deram o prazo de mais de 100 dias para arrumar. Para isso, eles estavam usando uma placa solar para levar água para as casas. Mas, a mesma comunidade contava com um biodigestor com uma bactéria específica capaz de comer o material biológico para a água sair tratada. 

“Se a gente fosse esperar a prefeitura, nós iríamos ficar aqui olhando, a Swarovski veio e ajudou. A outra escola estava com bosta de morcego, sem água e agora temos até água que é quase mineral. Você acredita que a água que vem do rio tá ali? [Aponta para o filtro de água da escola]”, disse Renato Santana da Silva, morador da comunidade Tuiué. A comunidade conta com dois banheiros na escola construída pela Fundação. 

Com “Gotas do saber, rios de mudança” como mote, a formação da Escola d’Água conta com quatro módulos: Água e eu, água e a escola, água e a comunidade e, por fim, água e o planeta. Segundo a Fundação, em 2022, a região amazônica contou com 105 professores capacitados para atuar com a iniciativa, já neste ano 130 professores foram formados. 

E a expectativa é que esse número continue a aumentar. Levando em consideração o histórico da organização, a Fundação Swarovski já impactou 2 milhões de pessoas em 93 países através de 85 parcerias – é importante ressaltar que a atuação está alinhada com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) 4 e 8 que, respectivamente, fazem alusão a educação de qualidade e trabalho decente e crescimento econômico. “Já vi muitos projetos que chegam com uma receita pronta, e ao tentar implementar uma ideia que deu certo em outro lugar, simplesmente não funciona. É preciso pensar localmente”, concluiu Luna.

Em uma das atividades com as crianças, Raquel Luna usou garrafas PET com terra, galhos e água, para ensinar a diferença entre o solo coberto e o solo descoberto (sem galhos e plantas). No solo protegido, quando chove, a água sai mais limpa. Mas, quando chove onde não tem capim ou floresta, forma-se um lodo capaz de causar erosão. 

Em outras palavras, o ambiente sem mata na beira do rio, perde a cobertura terrestre pela chuva – já onde tem floresta, ela é capaz de pegar a água da chuva e a levá-la para baixo da terra, na cacimba. O que resulta em água de melhor qualidade. A atividade é um dos exemplos práticos ensinados para as classes participantes da Escola d’Água e demonstra  como não desmatar e proteger a natureza são detalhes essenciais para a manutenção do meio ambiente e qualidade de vida dos povos tradicionais.

Caio Palazzo/Reprodução

Caio Palazzo/Reprodução

Compartilhe este artigo

Tópicos relacionados

Créditos

Fernanda Bastos

Fernanda Bastos

Repórter de ESG

Graduada em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, entrou na EXAME como trainee do programa Imersão EXAME em 2022 e hoje atua como Repórter de ESG. Atuou também nas áreas de assessoria de imprensa e social media.

Veja também

Brasil terá demanda crescente de energia até 2026, diz relatório da IEA
Um conteúdo Esfera Brasil

Brasil terá demanda crescente de energia até 2026, diz relatório da IEA

Vox Capital começa a captar fundo de R$ 200 milhões e estrutura nova unidade para questões do clima
seloNegócios

Vox Capital começa a captar fundo de R$ 200 milhões e estrutura nova unidade para questões do clima

Como o Google usará satélites e inteligência artificial para rastrear vazamentos de metano
ESG

Como o Google usará satélites e inteligência artificial para rastrear vazamentos de metano

Rio Open 2024: como o maior torneio de tênis da América Latina vai neutralizar suas emissões 
Um conteúdo Bússola

Rio Open 2024: como o maior torneio de tênis da América Latina vai neutralizar suas emissões 

Continua após a publicidade