Leandro da Silva Hiebl, CEO da AgilFix: “O desafio é fazer o cliente testar pela primeira vez” (Divulgação)
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Publicado em 2 de maio de 2026 às 08h00.
A alta do plástico colocou pressão sobre uma engrenagem básica da logística: o filme stretch, usado para estabilizar cargas e descartado a cada uso. Com a matéria-prima mais cara e volátil, empresas passaram a rever um insumo até então tratado como trivial — abrindo espaço para alternativas que reduzam custo e dependência.
A Agilfix, criada em 2016, aposta em uma alternativa ao material: uma cinta reutilizável para amarração de cargas. A proposta é substituir o filme descartável por um sistema que pode ser usado repetidas vezes na operação logística.
O crescimento vem dos impactos da guerra no Irã e a crise no Estreito de Ormuz no custo do plástico. O preço da matéria-prima subiu 60%, segundo estimativa da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).
“Com esse cenário, nossa projeção de faturamento passou de R$ 4,4 milhões para até R$ 6 milhões em 2026, caso a alta do plástico se mantenha”, afirma Leandro da Silva Hiebl, CEO da AgilFix.
A Agilfix nasceu, em 2016, a partir da experiência do fundador na indústria e de uma insatisfação comum a muitos profissionais técnicos: gerar valor para grandes empresas sem participar diretamente dos resultados.
Foi quando decidiu criar uma solução própria. A ideia surgiu após conhecer um modelo de amarração de cargas utilizado no exterior, mas que nunca tinha visto nas fábricas que já trabalhou.
Diferentemente do modelo tradicional, que é descartado após o uso, a cinta aposta no reuso como principal diferencial. “Trocamos o plástico que é usado uma vez e jogado fora por uma cinta que pode ser utilizada por anos”, diz.
“Começamos importando um produto que já existia lá fora, mas logo percebemos que ele não se adaptava bem à realidade daqui”, diz.
O produto utilizava o velcro para prender as partes, que acumulava sujeira e perdia eficiência rapidamente. “Se não guardar de forma organizada, ele cola em tudo, vira um problema. Em poucos meses vimos que não ia funcionar como solução escalável”, afirma.
Desenvolveu, então, um produto próprio: uma cinta reutilizável para amarração de cargas, que utilizava presilhas para aderir a cada ponta da cinta.O produto é composto por uma cinta que também utiliza plástico na produção, mas que tem acabamento em tramas e utiliza outros materiais, como alumínio. O sistema inclui presilhas, responsáveis pelo travamento da carga. O resultado é um material que se assemelha ao cinto de segurança, com resistência e durabilidade.
A proposta combina redução de custos operacionais com menor geração de resíduos, atendendo tanto à demanda financeira dos clientes quanto às metas ambientais das companhias.
Logo que lançou o produto, a Agilfix fechou contrato com uma grande indústria, o que ajudou a validar a solução e trouxe escala desde o primeiro momento. Mas o efeito colateral veio rápido.
“Nosso primeiro cliente já foi uma empresa grande, então a gente se empolgou. Mas depois veio o choque de realidade: não foi tão fácil conquistar os próximos”, afirma o fundador.
A expansão, então, desacelerou e mudou de perfil. Nos anos seguintes, a Agilfix apostou em empresas de médio e pequeno porte. A estratégia abriu um caminho menos óbvio: o crescimento via mobilidade de profissionais. “Muitos gerentes e coordenadores que usaram o produto em empresas menores depois foram para grandes e nos chamaram para implementar lá também”, diz.
A empresa construiu uma base inicial apoiada em indicação e uso real. Com o crescimento, a Agilfix começou a estruturar a área comercial e ampliar os canais de aquisição. Entraram investimentos em marketing digital e novos formatos, como a locação do produto.
A lógica segue a mesma: reduzir a barreira de entrada. “Quem tem contato com o produto não volta atrás. O desafio sempre foi fazer o cliente testar pela primeira vez”, diz.
Por mais que as cintas sejam reutilizáveis, o fluxo de compras é constante, já que a maioria das empresas começa a implementar a solução de maneira gradual e outras começam a crescer.
A Agilfix já vendeu mais de 700 mil cinta. A empresa estima que evitou o descarte de até 12 mil toneladas de plástico.Em 2025, a Agilfix fechou o ano com um faturamento de R$ 3,8 milhões. Em 2026, o crescimento deve ser impulsionado pelo aumento do preço do plástico – podendo chegar a R$ 6 milhões.
“Nas últimas semanas, já observamos um crescimento de cerca de 35%”, diz Hiebl.
Em 2020, durante a pandemia, o plástico também subiu – momento em que a empresa também cresceu. Neste ano, aproveitaram o cenário para atrair os clientes de forma ativa.
A empresa apostou em campanhas de e-mail marketing e comunicação digital para alertar sobre o risco de aumento de preços e até de escassez do plástico. O movimento reaqueceu negociações que estavam paradas e trouxe novos clientes. “Tinha muito orçamento morno que voltou a andar quando o preço do stretch começou a subir”, diz.
Parte desse avanço vem da conversão de clientes que antes hesitavam pela relação de custo-benefício. “Quando o plástico sobe, o retorno do investimento fica muito mais rápido, e isso destrava a decisão de compra”, afirma Hiebl.
Cada conjunto necessário para amarração de uma carga tem valor médio em torno de R$ 70. Na comparação, o filme stretch custa menos por aplicação — cerca de R$ 7 por uso —, porém é descartado após cada operação.
“Dependendo do volume de movimentação, o retorno pode acontecer em poucos meses — ou até semanas, em operações de alto giro”, diz.
Além do aumento da demanda, a empresa também se beneficia de uma estrutura produtiva preparada para escalar. Hoje, a Agilfix tem capacidade para produzir cerca de 35 mil cintas por mês em um único turno — praticamente o dobro do volume atual de vendas.
Para sustentar o crescimento, a companhia mantém estoque suficiente de plástico para alguns meses, reduzindo a exposição às oscilações de preço da matéria-prima.
“Estamos preparados para atender esse pico de demanda sem perder competitividade”, diz Hiebl. “Quando o plástico sobe, nosso custo não acompanha na mesma proporção, já que temos outros componentes na composição.”
A Agilfix também aposta em novas frentes de crescimento ao diversificar o modelo de negócios. Uma das novidades é a locação das cintas, em vez da venda direta.
Nesse formato, a empresa assume o investimento inicial e o cliente passa a pagar uma mensalidade, já com redução imediata de custos operacionais.
“A locação permite que o cliente teste na prática, sem risco e sem compromisso inicial alto”, diz Silva. “A locação vira uma porta de entrada — quando o cliente vê o resultado, ele quer ter o produto”, complementa.
Outra frente está no desenvolvimento de novos produtos para a cadeia logística, aproveitando a base de clientes construída ao longo dos anos. A empresa estuda parcerias e soluções complementares, como alternativas mais sustentáveis para componentes usados na amarração de cargas.
A ideia é ampliar o portfólio dentro do mesmo nicho, mantendo o foco em eficiência operacional e redução de impacto ambiental. “Conhecemos bem a dor do cliente e queremos resolver mais etapas da operação logística”, diz.
A Agilfix também passou a oferecer manutenção das cintas para prolongar a vida útil do produto. Em casos de avaria, o material pode ser reparado e voltar ao uso, em vez de ser descartado. “Muitas vezes é um dano pontual, com conserto simples e baixo custo”, afirma Silva.