Trabalhando após os 70 anos: o oposto dos sonhos dos aposentados chilenos

Oito a cada dez novos pensionistas no Chile não conseguem autofinanciar uma pensão acima da linha da pobreza, de acordo com um relatório da Fundação Sol

Santiago — Carmen Aránguiz tem 71 anos e procura emprego, embora tenha se aposentado em 2010, pois a aposentadoria é tão baixa que a obriga buscar trabalhos temporários para complementar a renda. Como ela, milhares de chilenos vivem longe do que foi sonhado para a terceira idade, resultado de um sistema altamente criticado.

Em novembro, a aposentadoria média paga pelos Administradores de Fundos de Pensão (AFP), as empresas privadas que gerem pensões no Chile, foi de 221 dólares (904 reais) para mulheres e 384 dólares (1.572 reais) para homens.

“Eu tenho que pagar todos os meses por água, eletricidade, gás, comida, combustível. E o que eu recebo não é suficiente para tudo isso”, disse Aránguiz, que recebe cerca de 258 dólares (1.056 reais) por mês.

Depois de mais de 20 anos contribuindo como assistente e professora de um centro educacional em Peñalolén, município da periferia de Santiago, essa idosa ativa alterna trabalhos de assistência à infância nos que deveriam ser seus “anos dourados” há quase uma década.

Com os protestos que lotam as ruas da capital chilena desde 18 de outubro, Aránguiz perdeu parte da renda e agora espera que em março, com o início de um novo curso no país, o telefone toque novamente.

O surto social no Chile, a maior crise desde o retorno à democracia em 1990, fez da reforma do sistema previdenciário – que já era alvo de debate há anos – uma de suas maiores reivindicações.

Modelo questionado

No Chile, vigora um modelo de aposentadoria de capitalização. Todo trabalhador no país é obrigado a contribuir com 10% do salário mensal para um fundo de pensão pessoal, que é disponibilizado quando a pessoa se aposenta e é gerenciado por uma das sete AFPs, as administradoras de fundos.

Essas empresas privadas investem no mercado de capitais para rentabilizar os fundos, com os quais obtêm lucros milionários: entre janeiro e setembro deste ano, foram 511 milhões de dólares.

A participação do Estado nesse modelo é por meio do chamado Pilar Solidário, uma contribuição complementar para pessoas que não têm acesso a uma pensão e para os que recebem pensões mais baixas.

Mesmo assim, oito a cada dez novos pensionistas no Chile nem conseguem autofinanciar uma pensão acima da linha da pobreza, de acordo com um relatório da Fundação Sol.

O gerente geral da Associação AFP, Fernando Larraín, afirmou à agência EFE que “o foco nas empresas de administração de pensões está errado, tem que estar na melhoria das pensões”.

Segundo Larraín, para aumentar os salários é preciso “aumentar as taxas de poupança, aumentar a idade da aposentadoria e o número de trabalhadores que contribuem”.

Antes do debate sobre uma possível distribuição dos benefícios das AFPs entre os colaboradores, ele enfatizou que “isso não resolveria o problema” porque “eles apenas arrecadariam cerca de 12 dólares por mês por pessoa”.

“Sejamos claros e responsáveis: o slogan que deve nos motivar é ‘Melhores pensões’ e não ‘Não + AFP'”, disse o diretor, que afirmou que “o governo não quis fazer mudanças quando apropriado, mas ainda há muito espaço de manobra”.

Em 4 de dezembro, o Senado chileno aprovou um projeto de lei que envolverá um aumento gradual nas contribuições do Estado para reduzir as pensões em até 50%, o que beneficiará cerca de 1,6 milhão de aposentados.

Para o economista da Fundação Sol Marco Kremerman, a reforma é “absolutamente insuficiente, apenas um remendo que dá trégua aos aposentados não contribuintes”.

O especialista disse que o sistema de contas individuais “falhou porque não garantiu pensões decentes para os chilenos”. Ele defende um sistema de distribuição total, previdência social e não de contas individuais.

O espelho dos “anos dourados”

Cecilia Parraguirre, que está prestes a completar 68 anos, trabalha 45 horas por semana na central telefônica de um hospital no centro de Santiago.

Quando se aposentou, sete anos atrás, ficou surpresa com o valor da sua pensão: 170.000 pesos (220 dólares) em comparação aos 550.000 (714 dólares) que ganhou como vendedora de seguros, ou seja, uma taxa de reposição de 31%.

“Tive a esperança de que, com uma boa quantia de dinheiro acumulada, minha aposentadoria seria decente”, desabafou.

No entanto, a aposentadoria dourada foi uma miragem, já que ela teve de pedir empréstimos por motivos de saúde e não conseguiu bancar os estudos universitários das duas filhas. “A saúde não vai me permitir continuar trabalhando. Não sei o que vou fazer… comer menos?”, lamentou.

Da mesma forma, Aránguiz também imaginou viver os últimos anos de uma maneira muito diferente: “Eu nunca pensei que estaria trabalhando. Eu me imaginei cercada por minhas netas e amigas, sendo voluntária em algum lugar que pudesse ser útil”.

“Eu sempre disse que vou trabalhar até não poder mais, mas talvez eu precise recorrer à família, apesar de querer ser forte e digna até o fim”, comentou.

No Brasil, a capitalização é defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. No modelo, grosso modo, os trabalhadores contribuem para uma conta individual, que bancará os benefícios no futuro. O governo também pode contribuir com parte das contribuições, como acontece no Chile.

A equipe econômica de Guedes tentou emplacar no Brasil uma autorização para criar o regime de capitalização na proposta de reforma da Previdência. A reforma foi aprovada neste ano no Congresso Nacional, mas o item sobre a capitalização foi uma das primeiras baixas e foi retirado do texto ainda durante as discussões na Câmara dos Deputados. Guedes afirmou desde então que “não desistimos de ir na direção da capitalização”.

Segundo o ministro, a reforma atual garante apenas um período de tempo — cerca de 20 anos — até que o Brasil precise novamente mexer em suas regras de aposentadoria e pensão. “É uma ideia boa, importante. Valeu a luta, mesmo que não tenha avançado”, afirmou em agosto.

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