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Talibã proíbe mulheres de viajar sem acompanhante homem

Desde sua chegada ao poder em agosto, os talibãs adotaram várias restrições às mulheres e meninas, apesar das promessas inicias de que o regime seria menos rígido que o anterior (1996-2001)

"Vemos cada dia um pouco mais quem os talibãs são de verdade, quais os seus pontos de vista para os direitos das mulheres. E é uma imagem muito, muito sombria", declarou à AFP Heather Barr, da ONG Human Rights Watch (AFP/AFP)
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AFP

Publicado em 26 de dezembro de 2021 às 16h38.

Última atualização em 26 de dezembro de 2021 às 16h39.

O regime Talibã anunciou neste domingo (26) que as mulheres que desejam viajar longas distâncias devem estar acompanhadas por um homem de sua família imediata, um novo sinal do endurecimento do regime, apesar de suas promessas iniciais.

A recomendação, divulgada pelo ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício e que circula nas redes sociais, também pede aos motoristas que aceitem mulheres em seus veículos apenas se elas usarem o "véu islâmico".

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"As mulheres que viajam mais de 45 milhas (72 km) não podem fazer a viagem se não estiverem acompanhadas por um parente próximo", declarou à AFP o porta-voz do ministério, Sadeq Akif Muhajir, antes de explicar que o acompanhante deve ser um homem.

Desde sua chegada ao poder em agosto, os talibãs adotaram várias restrições às mulheres e meninas, apesar das promessas inicias de que o regime seria menos rígido que o anterior (1996-2001).

Durante seu primeiro governo, os talibãs obrigaram as mulheres a usar a burca. Elas só tinham permissão para sair de casa acompanhadas por um homem e eram impedidas de trabalhar ou estudar.

Quando retornaram ao poder em agosto, o movimento Talibã, que precisa do reconhecimento da comunidade internacional e de ajuda humanitária, afirmou que seria mais aberto que durante o regime anterior.

"Vemos cada dia um pouco mais quem os talibãs são de verdade, quais os seus pontos de vista para os direitos das mulheres. E é uma imagem muito, muito sombria", declarou à AFP Heather Barr, da ONG Human Rights Watch.

Prisioneiras

"Esta nova ordem vai mais longe na direção de transformar as mulheres em prisioneiras ", acrescentou Barr.

O ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício anunciou outras medidas, como por exemplo a proibição de ouvir música nos veículos.

Não está claro no momento até que ponto as recomendações serão implementadas, mas no sábado combatentes talibãs instalaram barreiras em alguns pontos da capital, Cabul, para informar os motoristas.

A diretriz foi divulgada poucas semanas depois de o ministério solicitar aos canais de televisão do país que não exibam "novelas com mulheres", além de exigir que as jornalistas usem o "véu islâmico" diante das câmeras.

O Talibã não explicou o que considera "véu islâmico", se apenas um lenço na cabeça ou se deve cobrir o rosto, pois a maioria das mulheres afegãs usa roupas que cobrem muito mais.

Ao mesmo tempo, o regime apresenta sinais no sentido contrário. Em várias províncias, as autoridades locais aceitaram abrir as escolas para as meninas, embora muitas delas ainda não possam frequentar as aulas.

No início de dezembro, um decreto em nome do líder supremo do movimento Talibã, o mulá Hibatullah Akhundzada, pediu ao governo para cumprir os direitos das mulheres, mas sem mencionar o direito à educação.

O respeito dos direitos das mulheres é uma das condições impostas pelos doadores internacionais para o retorno da ajuda humanitária ao Afeganistão.

O país, um dos mais pobres do mundo, está à beira do colapso econômico. A ONU alertou para a proximidade de uma "avalanche de fome", por considerar que 22 dos quase de 40 milhões de afegãos podem sofrer uma falta "aguda" de alimentos no inverno (hemisfério norte, verão no Brasil).

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