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Fundação cuida, revisa e divulga o legado de Nelson Mandela

A fundação que leva o nome do líder divulgou uma correção importante na biografia oficial do ex-presidente sul-africano


	Nelson Mandela: seu pai, Nkosi Mphakanyiswa Mandela, não morreu em 1927 como se diz na autobiografia publicada do antigo líder, mas três anos mais tarde
 (Paul Gilham/Getty Images)

Nelson Mandela: seu pai, Nkosi Mphakanyiswa Mandela, não morreu em 1927 como se diz na autobiografia publicada do antigo líder, mas três anos mais tarde (Paul Gilham/Getty Images)

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Da Redação

Publicado em 28 de dezembro de 2013 às 10h02.

Johanesburgo - No último dia 20 de dezembro, 15 dias depois da morte de Nelson Mandela, a fundação que leva seu nome divulgou uma correção importante na biografia oficial do ex-presidente sul-africano sobre a morte de seu pai e seu treinamento militar com o Mossad.

Seu pai, Nkosi Mphakanyiswa Mandela, não morreu em 1927 como se diz na autobiografia publicada do antigo líder, "Um Longo Caminho para a Liberdade", mas três anos mais tarde, quando Mandela tinha 12 anos e não nove.

"As provas históricas mostram que (a morte do pai) deve ter acontecido em 1930, já que esta informação se encontra tanto no manuscrito original de "Um Longo Caminho" que ele escreveu ainda preso em Robben Island e em um documento escrito por ele em 1963", esclareceu a fundação.

Um dia depois, a instituição emitia outro comunicado explicando que, apesar das informações aparecidas recentemente em Israel sobre o suposto treinamento militar de Mandela com agentes do Mossad em 1963, não existem no arquivo privado do ex-presidente provas sobre esse contato com agentes israelenses.

Com estas duas correções, a Fundação Mandela reafirmava seu papel de guarda e gerente do legado do antigo ativista contra o apartheid, um papel que a transformou, com a convalescença e a morte do ex-mandatário, em um ator central e privilegiado da vida pública sul-africana.

"Um de nossos objetivos é divulgar a história do homem, manter seu significado e mostrar como influiu na vida dos demais", disse à Agência Efe Selo Hatang, diretor-geral da fundação.

Criada em 1999, após Mandela deixar a presidência da África do Sul, para que o estadista retirado pudesse "completar os projetos que tinha no coração, mas não pôde fazer" - nas palavras de Hatang -, a fundação se dedicou à luta contra a aids e à construção de escolas e clínicas, especialmente em zonas rurais.

A dedicação aos empenhos de Mandela abriu passagem com o tempo a outra prioridade: "a memória, o diálogo e o trabalho com o legado" do mito, como se explica em seu site.

Em outras palavras: a cuidar, fixar e dar esplendor à herança política e moral do pai da democracia sul-africana.

Hatang exerceu nos últimos meses o papel de anfitrião de dezenas de atos na sede do bairro de Houghton, a poucos metros da casa na qual Mandela morreu no último dia 5 de dezembro.

A fundação foi, desde que Madiba - como era conhecido popularmente em seu país - foi hospitalizado em estado grave em junho, um local de reunião de amigos, camaradas e parentes que aproveitavam inaugurações e anúncios para desejar-lhe saúde, compartilhar lembranças e revelar os pequenos detalhes sobre sua situação que tanto esperavam os jornalistas.

O evento mais relevante na nova missão da fundação foi a inauguração, em 18 de novembro deste ano, das novas instalações do Centro Memorial Nelson Mandela.

Situados no porão do recinto, os arquivos do centro guardam documentos como a ata de condenação à prisão perpétua de Mandela, que data de 1964 e é parte de um imenso arquivo que já começou a ser digitalizado e a poder ser consultado de forma gratuita no site da instituição.

Mas o espaço mais rutilante das novas instalações é o escritório que Mandela ocupou na fundação, intacto desde que entrou nele pela última vez o que preso político mais célebre da História.

Perante a impossibilidade de visitar um agonizante Nelson Mandela, o Centro Memorial, e principalmente seu velho escritório, foram palco de homenagens ao ex-presidente por personalidades de todo o mundo em passagem pela África do Sul.

Falecido o herói, o diretor-geral e sua equipe deverão aguçar sua imaginação para manter-se no topo, e contribuir assim para que "seu legado viva sempre", como diz Hatang.

"Não podemos permitir-nos algo como as Bibliotecas Presidenciais dos Estados Unidos, porque não temos nem os recursos nem o espaço, mas podemos manter os valores e a herança", explicou à Efe Verne Harris, diretor de pesquisa da fundação.

Harris concorda com Hatang ao não limitar a missão de memória à figura de Mandela e estendê-la a todas as pessoas e aspectos da luta contra a segregação.

Harris reivindica o papel da instituição na lembrança dos líderes antiapartheid, negros que não seguiram Mandela, como Robert Sobukwe, a quem a fundação dedicou uma exposição em 2011, e tenta lançar luz sobre questões incômodas da história recente da África do Sul.

"Não falamos da guerra civil (entre a população negra) que se viveu em alguns lugares nos anos 80, que o assassinato passou a ser uma forma de demonstrar o compromisso com a luta, das mulheres que foram oprimidas dentro da mesma resistência", admitiu Harris.

"Temos que ocupar-nos das coisas difíceis", concluiu sobre os desafios morais que, segundo sua opinião, a África do Sul deve enfrentar, com o legado de Mandela e a ajuda de sua pujante fundação. EFE

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