Conheça os fundos 'abutres', detentores da dívida argentina

Os chamados fundos abutres são propriedade de poderosos magnatas com destreza magistral para fazer dinheiro com países e empresas em crise
Dívida argentina: fundos abutres ganharam o litígio na Justiça americana para receber o valor da dívida (Bloomberg)
Dívida argentina: fundos abutres ganharam o litígio na Justiça americana para receber o valor da dívida (Bloomberg)
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Natalia KiddPublicado em 24/06/2014 às 10:30.

Buenos Aires - Os chamados fundos abutres, que ganharam da Argentina um milionário litígio na Justiça americana para receber integralmente o valor da dívida de bônus em moratória compradas a preço de lixo, são propriedade de poderosos magnatas com destreza magistral para fazer dinheiro com países e empresas em crise.

Os querelantes, acusados pela Argentina de extorsão e com os quais agora deverá se sentar para negociar para evitar uma moratória com os credores da parte reestruturada da dívida, compraram bônus em moratória do país sul-americano há quatro anos com o objetivo de concretizar nos tribunais um negócio milionário.

Compraram em 2008 títulos da moratória em 2001 por um valor nominal de US$ 428 milhões, mas na realidade pagaram por esses papéis, considerados 'lixo' no mundo financeiro, muito menos do que isso, cerca de US$ 0,30 ou 0,40 para cada US$ 1 nominal do título, segundo o governo argentino.

Esses papéis foram adquiridos de investidores que se recusaram a aceitar a proposta de reestruturação de dívida de 2005, quando os títulos da dívida pública que caíram em moratória no final de 2001 foram renegociados.

Naquela troca a Argentina conseguiu uma remissão da dívida de 65% sobre o capital original e uma adesão de 75% do total dos credores. Ela foi reaberta em 2010, operação que atingiu 92,5% de adesão dos credores à renegociação.

Os que rejeitaram esses refinanciamentos são tecnicamente denominados 'holdouts', com uma dívida a seu favor, entre capital e juros, avaliada em US$ 15 bilhões, segundo dados do governo argentino.

São credores individuais e institucionais de Alemanha, Japão, Estados Unidos, Itália - neste caso milhares de aposentados - e também da Argentina.

Desse grupo, os fundos de investimento especulativos representam apenas 1%, mas têm sentença favorável para cobrar US$ 1,5 bilhão, entre capital e juros, mas são os mais beligerantes, com poder de fogo suficiente para contratar poderosos escritórios de advogados e montar um lobby, com tempo suficiente para esperar pela carniça.

Mais da metade do montante reclamado está nas mãos do fundo de investimento NML Capital, controlado por Elliot Management Corporation, conglomerado fundado em 1977 em Nova York com um capital inicial de US$ 1 milhão e que hoje tem ativos de US$ 23 bilhões.

O grupo, majoritariamente dedicado aos negócios financeiros, já tinha feito jogadas semelhantes com a Argentina, comprando bônus em moratória de Peru e Congo.

Já a Elliot é propriedade de Paul Singer, um milionário, advogado de profissão, de tendência conservadora, que financiou campanhas políticas de republicanos como Mitt Romney e Rudy Giuliani, tem fama de filantropo e é membro do conselho da administração da Escola de Medicina de Harvard.

Singer é criador da American Task Force Argentina (Afta), que faz lobby entre juízes, legisladores e meios de comunicação para convencê-los de seus argumentos no litígio entabulado contra a Argentina nos tribunais de Nova York.

Em sua batalha contra a Argentina, a NML Capital conseguiu, entre outras coisas, embargar em 2012 a fragata Liberdade, embarcação da Marinha argentina, enquanto estava ancorada em um porto de Gana.

Outro dos fundos querelantes é o EM, de propriedade do magnata Kenneth Dart, residente nas Ilhas Cayman, famoso por ganhar um julgamento do Brasil após comprar bônus 'lixo' aqui e por ser o dono da maior fabricante de copos térmicos dos Estados Unidos, cuja filial na Argentina foi denunciada em 2013 pelo Fisco por supostas superfaturações e fuga de divisas.

Outro dos grandes querelantes que a Argentina tem é o fundo Aurelius, de Mark Brodsky, também magnata e advogado como Singer, e que já trabalhou no mesmíssimo NML.

Brodsky foi batizado de 'Exterminador' pelo jornal britânico 'Independent' devido à pouca flexibilidade como credor e pela fama de fazer suculentos negócios comprando bônus de empresas em crise para depois permutá-los por ações e voltar a ser seu dono.

Além desses três grandes 'abutres' que espreitam a Argentina, há outros 44 'passarinhos' que, como os fundos de investimento, também estão no litígio, um verdadeiro bando de aves de rapina.