Mercado Imobiliário

A Caixa fechou a torneira do Minha Casa, Minha Vida? Vendas do programa perdem fôlego

Distratos sobem, repasses caem e construtoras apontam rigor da Caixa

Caixa: Uma greve de funcionários do banco atrasou a assinatura de contratos e a liberação de recursos (Agência Brasil/Reprodução)

Caixa: Uma greve de funcionários do banco atrasou a assinatura de contratos e a liberação de recursos (Agência Brasil/Reprodução)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 22 de outubro de 2026 às 07h34.

Última atualização em 23 de outubro de 2026 às 16h22.

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Sete em cada dez imóveis vendidos na cidade de São Paulo em agosto estavam enquadrados no Minha Casa, Minha Vida. O programa segue como motor do mercado, mas passou a vender mais devagar. A velocidade de vendas do segmento caiu de 13% em julho para 11,5% em agosto.

Os dados são do Secovi-SP e foram analisados pelo BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME). Para o banco, a explicação está na Caixa Econômica Federal, que passou a aprovar financiamentos com mais rigor para compradores de baixa renda em meio ao alto endividamento das famílias.

A Caixa responde por cerca de dois terços do crédito habitacional do país e concentra praticamente todos os financiamentos do programa. Quando a análise de crédito fica mais lenta ou mais rígida, a venda na planta trava antes de virar dinheiro no caixa das construtoras.

A velocidade de vendas, ou VSO (vendas sobre oferta), mede quanto do estoque disponível foi vendido no período. É um dos principais termômetros do setor.

O aperto ocorreu em etapas ao longo do terceiro trimestre. Em julho, a Caixa reduziu por dez dias o limite de comprometimento de renda permitido aos clientes, de 30% para 27%. Em setembro, uma greve de 19 dias dos funcionários do banco atrasou a assinatura de contratos e a liberação de recursos.

Em São Paulo, os números de agosto mostram um mercado com oferta crescente e vendas que não acompanham o ritmo. Foram cerca de 10 mil unidades vendidas, alta de 37% em um ano, e 17,8 mil lançadas, avanço de 90%.

Com mais lançamentos do que vendas, o estoque chegou a 98 mil unidades, 51% acima de um ano antes. O MCMV respondeu por 77% dos lançamentos e por 71% das vendas do mês.

A VSO da cidade como um todo ficou em 9,9%, abaixo da registrada um ano antes e em julho. O segmento econômico ainda vende mais rápido do que o médio e alto padrão, cuja VSO é de 7,4%, mas foi o principal freio de agosto, segundo o BTG.

Direcional: setembro quase dobrou julho

A Direcional, uma das maiores construtoras do programa, também sentiu o efeito. Em videoconferência com analistas do Santander, o CEO Ricardo Gontijo apontou a Caixa como o principal motivo para as vendas mais fracas do terceiro trimestre.

Segundo o relatório do banco, publicado nesta terça-feira, 20, a aprovação de crédito demorou mais do que o esperado para se normalizar depois da redução temporária do comprometimento de renda, de 30% para 27%.

A companhia começou o trimestre com vendas fracas em julho, mas o ritmo melhorou mês a mês. Em setembro, as vendas quase dobraram em relação a julho, de acordo com o executivo.

Sem saber como a Caixa iria operar, a Direcional adiou lançamentos. Oito dos dez projetos do trimestre chegaram ao mercado depois de 15 de setembro, com pouco tempo para vender, o que pesou sobre a velocidade de vendas dos lançamentos.

Mesmo com vendas mais fracas, a geração de caixa se manteve sólida, segundo Gontijo, porque reflete principalmente vendas feitas em meses anteriores.

Distratos sobem e repasses caem nas concorrentes

O mesmo movimento apareceu nas prévias de outras construtoras voltadas à baixa renda. Na Tenda, os distratos passaram de R$ 136,2 milhões no terceiro trimestre de 2025 para R$ 292,8 milhões, mais que o dobro.

Os cancelamentos chegaram a 19,4% das vendas brutas, ante 11% um ano antes. A VSO da companhia ficou em 22,8%, abaixo da faixa de 25% a 30% que a própria empresa considera ideal.

A Tenda atribui o resultado a três fatores ligados à Caixa: a greve, a redução temporária do comprometimento de renda e um rigor maior nas entrevistas para concessão de crédito. A companhia trata parte dos efeitos como pontuais.

Na Cury, os distratos subiram 59,3% em um ano, para R$ 358,2 milhões, e passaram a representar 15% das vendas brutas, ante 11% no terceiro trimestre de 2025.

Os repasses, etapa em que o financiamento do cliente é assinado com o banco e o dinheiro chega à construtora, caíram 35,8% frente ao segundo trimestre. Ao mesmo tempo, a Cury ampliou a tabela direta, em que ela própria financia parte do pagamento: a modalidade respondeu por 27,8% das vendas brutas, ante 20,2% na média de 12 meses.

Na MRV, a prévia não detalha os distratos, mas os repasses somaram 7.428 unidades, queda de 16,4% em um ano e de 24,2% ante o segundo trimestre. A companhia estima impacto de cerca de R$ 80 milhões na geração de caixa da incorporação por causa da greve.

Nas vendas, porém, a MRV destoou, com VSO de 25,1%, ante 21,6% um ano antes. Em relatório, o Safra ressalvou que o número foi beneficiado por uma mudança no critério de contabilização das vendas durante a greve.

Estrutural ou temporário?

Para Gontijo, o trimestre não indica uma desaceleração estrutural da demanda. Segundo o relatório do Santander, o executivo avalia que as políticas de crédito da Caixa já estão próximas das praticadas antes da Copa do Mundo, com uma exceção: o Rio de Janeiro.

No Rio, a Caixa está mais conservadora por causa da inadimplência mais alta. A praça representa cerca de 12% das vendas da Direcional, e a companhia já desloca a atuação de áreas suburbanas de menor renda para regiões e produtos mais alinhados aos critérios do banco.

A Direcional tem como meta crescer de 10% a 15% em lançamentos em 2026 e empurrou para o quarto trimestre parte do que planejava lançar no terceiro. Outubro já tem sete projetos no cronograma.

O BTG segue na mesma linha. O banco reconhece que as perspectivas do MCMV pioraram na margem com a Caixa mais seletiva, mas avalia que a demanda continua resiliente, que as condições de compra seguem favoráveis e que há espaço para a concessão de crédito se normalizar.

O próximo teste vem com os balanços completos do terceiro trimestre e com os números de outubro, primeiro mês inteiro após o fim da greve.

O que a Caixa diz

A CAIXA esclarece que as operações de crédito imobiliário são analisadas conforme as políticas e os critérios vigentes do banco, considerando a capacidade de pagamento de cada cliente e as características da operação. A avaliação do endividamento é uma prática permanente, voltada à concessão responsável de crédito e à prevenção do superendividamento, e considera renda, compromissos financeiros e demais informações aplicáveis, não havendo limite de comprometimento de renda de 27%.

A gestão da carteira habitacional e dos recursos destinados ao financiamento imobiliário é realizada de forma contínua, com observância de critérios prudenciais, regulatórios e de sustentabilidade financeira, sem prejuízo ao atendimento dos públicos elegíveis aos programas habitacionais.

A distribuição do orçamento do FGTS é definida pelo Conselho Curador do Fundo e pelo Gestor da Aplicação, papel exercido pelo Ministério das Cidades. À CAIXA, como Agente Operador, cabe alocar os recursos aos agentes financeiros conforme essas diretrizes. Eventuais alterações na distribuição regional do orçamento competem às instâncias responsáveis pela gestão e aplicação dos recursos.

A contratação dos financiamentos é realizada pelos agentes financeiros junto aos mutuários, conforme suas políticas de crédito, que contemplam, entre outros critérios, comprometimento de renda e capacidade de pagamento.

Em 2026, as contratações de crédito imobiliário da CAIXA superam as registradas no mesmo período de 2025, e o resultado do 3º trimestre será divulgado em breve. As contratações permaneceram disponíveis durante o período de greve, apoiadas pela jornada digital habitacional e pela rede de correspondentes parceiros. Pelo fluxo Nato-Digital, compradores e vendedores podem enviar documentos e assinar formulários e contratos eletronicamente.

A CAIXA adota continuamente medidas para assegurar a prestação dos serviços e a manutenção do atendimento. Durante a greve, foram implementadas ações contingenciais para minimizar impactos aos clientes pessoa física e às construtoras e incorporadoras com empreendimentos contratados com o banco, com situações específicas avaliadas conforme as características e a etapa de cada operação.

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