Na disputa das "techfins", Dotz reforça as armas para avançar em crédito

Otávio Araujo, CFO da empresa, conta em entrevista à EXAME Invest quais os próximos passos após a aquisição da startup Noverde no começo do mês
Dotz reforça a aposta no modelo de super app para que o cliente faça o maior número de operações na sua plataforma (Divulgação/Dotz)
Dotz reforça a aposta no modelo de super app para que o cliente faça o maior número de operações na sua plataforma (Divulgação/Dotz)
Por Marcelo SakatePublicado em 21/04/2022 10:54 | Última atualização em 21/04/2022 12:30Tempo de Leitura: 4 min de leitura

O mercado de bancos digitais e empresas que operam plataformas integradas de e-commerce e serviços financeiros é um dos mais efervescentes da economia. O objetivo é atrair o consumidor para que ele realize o maior número de transações "dentro de casa", rentabilizando a operação. Para a Dotz (DOTZ3), chegou a hora de acelerar o ganho de escala na frente da concessão de crédito. Para tanto, a companhia adquiriu no início do mês a Noverde, uma startup que desenvolve soluções de crédito para pessoas físicas por meio de parcerias B2B2C.

"Ter a capacidade de uma plataforma altamente escalável dentro do segmento de crédito é algo muito importante. A Noverde completa esse pacote de produtos e soluções que estamos construindo", disse Otávio Araujo, CFO (executivo-chefe financeiro) da Dotz, à EXAME Invest sobre os próximos passos da companhia.

Segundo o executivo, a Noverde desenvolveu e possui uma expertise em toda a jornada da concessão de crédito, desde o onboarding até a modelagem de risco e, posteriormente, a etapa de cobrança. Já atendeu mais de 200 mil clientes desde a sua fundação em 2016, com NPS (Net Promoter Score, métrica de satisfação do cliente) de 88%. O capital para o crédito é levantado no mercado por meio de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

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Na frente de techfin, a Dotz já oferece crédito por meio de parceiros como o Banco do Brasil (BBAS3) e o BV.

Além disso, já existiam produtos como a conta digital e soluções como a capacidade de o cliente pagar contas com a sua moeda virtual, denominada justamente dotz, que também pode ser utilizada como colateral (garantia) para a tomada de empréstimos. Há três anos, a empresa tem utilizado os dados transacionais dos clientes para calcular um score de crédito, avaliando o seu perfil de risco.

O negócio com a Noverde também faz parte de um dos objetivos principais do IPO (oferta pública inicial) da companhia há quase um ano, em maio de 2021: se capitalizar para acelerar o crescimento por meio de M&A (fusões & aquisições).

"Procuramos trazer times bons, de profissionais alinhados com a nossa cultura, tecnologia que faça sentido com o nosso modelo de negócios e um produto que já esteja rodando e que possa nos levar para outro patamar", disse Araujo. Segundo ele, seja com produto complementar ao que já fazem ou algo novo para a empresa.

A Noverde conta com um time de cerca de 100 profissionais, dos quais 70 nas áreas de tecnologia, crédito e cobrança, as que mais interessam à Dotz, segundo o executivo. O negócio foi avaliado em R$ 49 milhões, dos quais R$ 35,7 milhões em um primeiro momento por uma participação de 49,96% da startup de crédito.

A Dotz parte de uma base de 52 milhões de clientes no pilar de sua estratégia de loyalty, construída ao longo de mais de uma década, o que acarreta um custo de aquisição de cliente (CAC) dos mais baixos desse mercado.

A estratégia é mirar a base mais qualificada de clientes ativos e executar a venda cruzada — cross sell — tanto de produtos pelo marketplace como de serviços financeiros digitais — a techfin.

No fim, o objetivo é aumentar o ARPU (a receita média por cliente, na sigla em inglês), que ficou em R$ 776 em 12 meses em 2021 para usuários com quatro produtos da empresa.

No quarto trimestre do ano passado, o ARPU da Dotz cresceu 47% na comparação com o mesmo período de 2021, o que, na avaliação do executivo, sinaliza que a estratégia está funcionando. O desafio é acelerar ainda mais.

No modelo de techfin, a análise e a concessão de crédito fica a cargo de instituições parceiras, e não da Dotz, evitando que a empresa tenha que assumir o risco em uma área que não é de sua expertise.

A negócio com a Noverde foi avaliada como "estrategicamente positiva" por analistas de Equity Research do Credit Suisse. "Nós vemos a aquisição como chave para reduzir o time to market da Dotz e, especialmente, para trazer um time com experiência em operações de crédito", avaliaram os analistas por ocasião da transação.

As ações da Dotz acumulam valorização de 28% em 2022 em uma tendência de recuperação, mas ainda estão 74% abaixo do preço de estreia no IPO em maio de 2021.