O custo implícito do reajuste do Bolsa Família
ARTIGO: Reajuste de 15% custará R$ 22 bilhões em 2027 e pode elevar déficit, inflação e pressão sobre os juros, segundo cálculos de Gesner Oliveira


Gesner Oliveira
Ex-presidente da Sabesp (2007-11), é professor da Eaesp-FGV e sócio da GO Associados
Publicado em 3 de outubro de 2026 às 08:00.
Última atualização em 3 de outubro de 2026 às 09:40.
RESUMO +
A poucos dias do primeiro turno, o governo anunciou reajuste de 15% no Bolsa Família, com alta do benefício médio de R$ 675 para R$ 777 e alcance de 19,3 milhões de famílias. A medida custará R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027, enquanto o relatório fiscal elevou a projeção de déficit primário de 2026 para R$ 80,9 bilhões.
A poucos dias do primeiro turno, o governo anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família e afirma ter encontrado espaço para financiá-lo. Mas o relatório fiscal divulgado em seguida mostra uma conta mais apertada, não mais folgada: a projeção de déficit primário para 2026 passou de R$ 52 bilhões para R$ 80,9 bilhões. O benefício médio sobe de R$ 675 para R$ 777, e o piso, de R$ 600 para R$ 691, alcançando 19,3 milhões de famílias. Não há dúvidas sobre a relevância histórica do programa no combate à pobreza e à desigualdade. A questão é como sustentar o impacto nas contas e por que anunciá-lo agora, às vésperas da eleição.
O reajuste custa R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027 - e não constava da proposta orçamentária enviada ao Congresso há poucas semanas. Criar uma despesa desta magnitude por fora da peça que o próprio governo acabara de encaminhar fragiliza a âncora fiscal e a credibilidade do arcabouço. Regra que se ajusta à conveniência deixa de ser regra.
Para justificar o aumento, o governo aponta revisões para baixo nas projeções de gastos com Previdência, remuneração de servidores, Benefício de Prestação Continuada, subsídios e outras despesas. Essas reduções, porém, não produziram uma folga no conjunto das contas. Em relação à avaliação anterior, as despesas obrigatórias subiram R$ 4,1 bilhões e a despesa primária total avançou R$ 22,1 bilhões, para R$ 2,67 trilhões. No mesmo período, a receita líquida recuou R$ 6,8 bilhões. Mesmo após as deduções permitidas para o cálculo da meta, a projeção ficou R$ 13,6 bilhões abaixo do limite inferior, fixado em zero, levando o governo a anunciar um contingenciamento no mesmo valor. A distância em relação ao centro da meta é de R$ 47,9 bilhões. Diante desses números, não basta afirmar que há espaço fiscal: é preciso mostrar onde está a compensação.
A conta aparece nos números. Tudo o mais constante, o déficit primário do Governo Central de 2027 piora em 0,15 ponto percentual do PIB, saltando de 0,38% para 0,54% do PIB; em 2026, a deterioração é de 0,04 ponto. No fim do dia, é dinheiro que terá de sair de algum lugar: mais impostos, menos investimento ou mais dívida.
Há ainda o efeito sobre os preços. Aplicando multiplicadores fiscais consagrados na literatura especializada e a sensibilidade da inflação ao nível de atividade, apesar de o estímulo adicionar cerca de 0,2 p.p. ao crescimento do PIB em 2027, pressiona a inflação em cerca de 0,1 ponto. Parece pouco, mas incide sobre um ambiente já adverso: o IPCA projetado pelo mercado para 2026 é de 4,9%, acima do teto da meta, com a Selic atualmente em 13,75%. E para 2027 a inflação esperada já está quase no limite deste teto, em 4,3%. Não restam dúvidas de que a medida é mais um entrave ao Banco Central na condução da política monetária.
Como se não bastasse, o reajuste foi anunciado a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais. É difícil não enxergar aí mais estratégia eleitoral do que política social. Valorizar de fato o Bolsa Família seria blindá-lo do calendário da urna: previsível, orçado e sustentável.
Amparar quem mais precisa é dever do Estado. Fazê-lo após o envio do Orçamento ao Congresso e no tempo da eleição, porém, transforma política social em ativo de campanha - e cobra o preço na credibilidade fiscal e no combate à inflação, que prejudica justamente os mais pobres, a quem o programa supostamente deveria proteger.
'Perguntas frequentes'
Quanto será o reajuste do Bolsa Família? +
O Bolsa Família terá reajuste de 15%, com aumento do benefício médio de R$ 675 para R$ 777 e do piso de R$ 600 para R$ 691. A medida alcançará 19,3 milhões de famílias.
Quanto custará o aumento do Bolsa Família? +
O reajuste custará R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027. A despesa não constava da proposta orçamentária enviada pelo governo ao Congresso poucas semanas antes do anúncio.
O governo tem espaço fiscal para aumentar o Bolsa Família? +
O governo afirma ter encontrado espaço fiscal após revisar para baixo algumas projeções de despesas. Segundo o relatório fiscal, porém, as despesas obrigatórias subiram R$ 4,1 bilhões, a despesa primária total avançou R$ 22,1 bilhões e a receita líquida recuou R$ 6,8 bilhões.
Como o reajuste afeta o déficit primário? +
Segundo os cálculos apresentados no texto, o déficit primário do Governo Central de 2027 passa de 0,38% para 0,54% do PIB, uma piora de 0,15 ponto percentual. Em 2026, a deterioração estimada é de 0,04 ponto percentual.
Qual é o impacto estimado do reajuste sobre o PIB e a inflação? +
Segundo a aplicação de multiplicadores fiscais citada no texto, o estímulo pode acrescentar cerca de 0,2 ponto percentual ao crescimento do PIB em 2027 e pressionar a inflação em aproximadamente 0,1 ponto. O mercado projeta IPCA de 4,9% em 2026 e de 4,3% em 2027, conforme os dados apresentados na matéria.
Por que o momento do anúncio do reajuste é criticado? +
O texto critica o anúncio por ter ocorrido a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais e depois do envio da proposta orçamentária ao Congresso. Segundo a análise, o calendário levanta dúvidas sobre a motivação eleitoral da medida e sobre sua sustentabilidade fiscal.
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Gesner Oliveira
Ex-presidente da Sabesp (2007-11), é professor da Eaesp-FGV e sócio da GO AssociadosEconomista, sócio da GO Associados e professor da FGV, onde coordena o Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais. Doutor em economia pela Universidade da Califórnia em Berkeley, foi presidente do Cade e da Sabesp
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