Quando a dúvida vira tarifa: o turismo diante da reforma tributária
ARTIGO: Faltam três meses para a reforma tributária e o turismo ainda não sabe quanto imposto vai cobrar


Fábio Godinho
Ex-CEO da CVC e da Webjet
Publicado em 10 de outubro de 2026 às 09:00.
RESUMO +
A reforma tributária do turismo pode elevar em cerca de 25% o preço das passagens aéreas a partir de 2027, segundo estimativas da associação do setor aéreo IATA e da companhia aérea LATAM, enquanto a carga sobre diárias pode chegar a 16,7%. A CBS entra em vigor em 1º de janeiro, ainda sem alíquota definida, e distribuidores de hospedagem temem tributação em cascata.
No Hotel Trends Conference, maior evento de hotelaria do país, que reuniu em São Paulo cerca de 600 das principais lideranças do setor, mediei o primeiro painel dedicado à aviação na história do evento. Estavam comigo Jerome Cadier, CEO da LATAM Brasil, Mateus Pongeluppi, CCO da GOL, e Vagner Ricardo, head de Global Aviation Market & Airline Business da Embraer. A pauta era conectividade aérea, mas o tema que atravessou o palco e os corredores, com direito a um painel próprio sobre os desafios de 2027, foi outro: ninguém sabe como a reforma tributária vai funcionar na prática para quem vende viagem.
O calendário explica a apreensão. A CBS, contribuição federal que substitui PIS e Cofins, começa a ser cobrada em 1º de janeiro, e a alíquota de referência ainda não foi definida. O Tribunal de Contas da União tem até 30 de outubro para concluir o cálculo, já depois das eleições, e o Senado tem até 15 de dezembro para fixá-la por resolução. O setor entra no quarto trimestre, quando orça o ano seguinte e negocia tarifas com empresas e distribuidores, sem o número que define o preço de venda.
Na aviação, a reforma deve elevar o preço da passagem em cerca de 25%, segundo estimativas da IATA e da própria LATAM, além de criar dois preços distintos para o mesmo bilhete. A empresa que envia um funcionário a trabalho vai recuperar como crédito o imposto pago, enquanto a família que compra o mesmo assento, no mesmo voo, paga o tributo inteiro e não recupera nada. Para ela, os 25% chegam direto ao preço. As rotas entre os grandes centros, que concentram cerca de 85% do tráfego doméstico, ficaram sem redução de alíquota, de modo que o aumento atinge o passageiro de lazer sem amortecedor.
Isso acontece quando as companhias já enfrentam outra pressão. No painel, Cadier contou que a LATAM paga hoje 70% mais pelo combustível do que em janeiro e que o segundo trimestre fechou no negativo. Com essa alta, o combustível, que costumava representar entre 30% e 35% do custo de uma companhia aérea, já responde por cerca de 45%. Pongeluppi relatou cenário semelhante na GOL. Com a margem comprimida, sobra pouco espaço para absorver imposto, e o repasse tende a ir para a tarifa.
Na hotelaria, o desenho é outro e a conta é mais pesada. O setor conquistou no Congresso uma redução de 40% na alíquota, mas a lei proibiu que qualquer comprador de hospedagem, pessoa física ou empresa, recupere o imposto pago. Hoje, somando o ISS municipal, de 2% a 5%, ao PIS e à Cofins no regime cumulativo, a carga sobre a diária fica entre 5,65% e 8,65%. Com a reforma plenamente implantada, passará a algo entre 15,9% e 16,7%, a depender da alíquota de referência. A carga pode praticamente dobrar ou quase triplicar, dependendo do ponto de partida, ao longo de uma transição que começa em 2027 e só se completa em 2033, e como ninguém recupera esse valor, cada ponto percentual vira preço final, inclusive na viagem corporativa.
O ponto menos discutido, e talvez o mais sério, está no caminho entre o hotel e o hóspede. Boa parte das diárias vendidas no Brasil e no mundo não vai direto do hotel para quem se hospeda. No meio existem empresas B2B, como a Hotelbeds e a HotelDO, que compram quartos diretamente dos hotéis e os revendem a agências de viagem, online ou físicas, e a plataformas de distribuição, que por sua vez vendem ao cliente final, seja ele de lazer ou corporativo. Esse elo intermediário é um negócio de escala e já atrai o mercado de capitais. A Hotelbeds, controlada pela HBX Group, conecta cerca de 250 mil hotéis a aproximadamente 60 mil distribuidores, e a HBX estreou na bolsa espanhola em fevereiro de 2025, avaliada em perto de 2,9 bilhões de euros. No Brasil, a HotelDO soma 10 mil agências de viagens ativas e pertence ao grupo Despegar, dono da Decolar, comprado pela Prosus por US$ 1,7 bilhão em operação anunciada em dezembro de 2024.
A lei tratou as agências de turismo com cuidado: elas pagam imposto apenas sobre a própria margem, deduzindo o que repassam aos fornecedores intermediados. Acontece que essa cadeia raramente se limita a uma agência entre o hotel e o cliente. Muitos intermediários compram a diária em nome próprio e a revendem com preço próprio, às vezes em dois ou três elos sucessivos. Se esse modelo for enquadrado como revenda de hospedagem, e não como agenciamento, cada elo compra sem poder recuperar o imposto e volta a pagá-lo sobre o valor cheio na venda seguinte. O tributo passa a incidir sobre tributo, e a alíquota efetiva que chega ao cliente pode ficar bem acima do dobro da atual.
Tenho conversado com as principais lideranças das redes hoteleiras e dos grandes distribuidores, e nenhuma delas sabe dizer com segurança como essa conta vai fechar. O mercado ainda não tem uma leitura consolidada sobre onde termina o agenciamento e começa a revenda, e é exatamente essa fronteira que vai definir o preço da diária em 2027.
A dúvida já aparece nos números do próprio setor. O estudo Orçamentos Hoteleiros 2027, apresentado no evento pela Noctua e pelo Hotelier News, mostra hotéis projetando quase 10% a mais de receita por quarto disponível no próximo ano. A pesquisa foi a campo em julho e agosto, e o imposto ainda não estava na planilha de ninguém. Do lado da demanda, o economista Guilherme Dietze, presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, mostrou no mesmo evento que 82% das famílias das capitais estão endividadas e que o juro médio ao consumidor chega a 64% ao ano.
Além de toda essa complicação, 2027 deve ser um ano duro do ponto de vista macroeconômico, seja qual for o presidente eleito, em função do ajuste fiscal que será necessário. O Boletim Focus, do Banco Central, projeta crescimento de 1,43% do PIB no próximo ano, cerca de 24% abaixo dos 1,88% esperados para 2026 e quase 40% abaixo dos 2,3% registrados em 2025. Com a economia perdendo ritmo ano a ano, a situação fica ainda mais crítica para um setor que depende do orçamento das famílias.
Presidi uma companhia aérea, uma das maiores redes de hotéis e resorts do Brasil e um dos maiores grupos de distribuição de turismo da América Latina, e de todos esses lugares a lição é a mesma: os elos dessa cadeia não se ajustam de forma independente. Se o consumidor viajar menos, o efeito não para no hotel. Aeronave é ativo caro e móvel, e quando a procura cai numa rota, a companhia leva o avião para onde ele rende mais. A cidade servida por um voo diário perde a frequência, que dificilmente volta na temporada seguinte, e o prejuízo passa a ser do destino inteiro, com emprego e renda junto.
Ainda há tempo de corrigir o desenho, mas a janela é curta. Até dezembro, a regulamentação pode deixar claro que quem apenas distribui a diária paga imposto sobre a própria margem, qualquer que seja o formato do contrato, mesmo que essa margem já esteja bastante apertada diante das dificuldades macroeconômicas do país. Assim, o setor pode chegar a janeiro com preço calculado em vez de estimado. Se isso não acontecer, a dúvida vira tarifa, e a conta cai sobre a família que viaja de férias, a mesma que enche hotel em feriado, sustenta destinos fora das capitais e hoje já faz malabarismo para caber a viagem no orçamento.
'Perguntas frequentes'
Quanto a reforma tributária pode aumentar o preço das passagens aéreas? +
A reforma tributária pode elevar o preço das passagens aéreas em cerca de 25%, segundo estimativas da IATA e da LATAM. As rotas entre grandes centros, responsáveis por aproximadamente 85% do tráfego doméstico, ficaram sem redução de alíquota.
Por que o passageiro de lazer pode pagar mais imposto na passagem? +
O passageiro de lazer não poderá recuperar o imposto pago e, por isso, tende a receber integralmente o aumento no preço da passagem. Já uma empresa que compra o mesmo bilhete para uma viagem de trabalho poderá aproveitar o valor como crédito tributário.
Quanto pode subir a carga tributária sobre as diárias de hotéis? +
A carga sobre as diárias, hoje entre 5,65% e 8,65%, pode passar para algo entre 15,9% e 16,7% após a implantação completa da reforma. O valor exato dependerá da alíquota de referência, e nenhum comprador de hospedagem poderá recuperar o imposto pago.
Como a reforma pode provocar tributação em cascata na hospedagem? +
A tributação em cascata pode ocorrer se empresas que compram diárias em nome próprio forem enquadradas como revendedoras de hospedagem. Nesse caso, cada intermediário poderá comprar sem recuperar o imposto e pagar novamente o tributo sobre o valor total da venda seguinte.
Quando a alíquota da CBS será definida? +
O Tribunal de Contas da União tem até 30 de outubro para concluir o cálculo da alíquota de referência, e o Senado tem até 15 de dezembro para fixá-la por resolução. A CBS, contribuição federal que substituirá PIS e Cofins, começa a ser cobrada em 1º de janeiro.
Qual é a projeção para a economia e a receita dos hotéis em 2027? +
O estudo Orçamentos Hoteleiros 2027, da Noctua e do Hotelier News, mostra hotéis projetando quase 10% de alta na receita por quarto disponível, ainda sem considerar o novo imposto. Já o Boletim Focus, do Banco Central, projeta crescimento de 1,43% do PIB em 2027, abaixo dos 1,88% esperados para 2026.
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Fábio Godinho
Ex-CEO da CVC e da WebjetExecutivo com mais de 20 anos de experiência no setor de turismo. Foi presidente de companhia aérea, de redes de hotéis e de companhias de distribuição de produtos turísticos. Atualmente, atua como conselheiro
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