Jogadores do Santos durante atividade no Centro de Treinamento Rei Pelé, na Baixada Santista. (Reprodução / Santos FC) (Reprodução / Santos FC)
Redator na Exame
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 15h34.
RESUMO | O governo federal firmou um acordo de concessão onerosa de 20 anos com o Santos para a regularização do CT Rei Pelé, encerrando uma disputa judicial e investigações do Ministério Público Federal que ameaçavam tirar o terreno das mãos do clube.
O Santos evitou um dos maiores desastres patrimoniais de sua história recente. O governo federal e a diretoria santista firmaram nesta quinta-feira, 1º, um acordo oficial para a regularização do Centro de Treinamento Rei Pelé, área de aproximadamente 39 mil metros quadrados utilizada pelo clube desde fevereiro de 1996 e que pertence à União.
O termo estabelece a cessão onerosa do imóvel pelo prazo de 20 anos, prorrogável por igual período. Pelas diretrizes do contrato, o clube pagará mensalmente a quantia de R$ 145.167,42, valor que será corrigido periodicamente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Além disso, o pacote do acordo inclui o reconhecimento pelo clube de uma dívida retroativa de cerca de R$ 23 milhões referente ao período anterior de utilização do imóvel, com previsão de quitação parcelada em 120 meses.
A formalização do acordo ocorre após meses de forte turbulência e ameaças de perda do patrimônio. A manutenção do terreno chegou a ser alvo de um procedimento apuratório instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF), motivado por declarações públicas de dirigentes que indicavam manobras nos bastidores para adiar editais de leilão e beneficiar o clube frente a eventuais concorrentes.
O MPF também havia apontado uma série de incertezas jurídicas no processo de alienação anterior — incluindo divergências sobre o valor de mercado do imóvel (avaliado atualmente em R$ 79,76 milhões, já englobando as benfeitorias feitas pelo clube) e conflitos sobre o ressarcimento de melhorias estruturais executadas pelo Santos ao longo das décadas. Diante da pressão institucional, a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) suspendeu a disputa pública em julho a pedido dos procuradores, abrindo caminho para a solução consensual mediada pela Advocacia-Geral da União (AGU).
Segundo dados divulgados pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, a contraprestação financeira totaliza cerca de R$ 34,84 milhões ao longo dos primeiros 20 anos de contrato, somada ao passivo pretérito de R$ 23 milhões.
Além do pagamento regular das parcelas de uso e da dívida antiga, o Santos assumiu obrigações estritas de conservação do imóvel, bem como o cumprimento integral de exigências ambientais, urbanísticas, tributárias e administrativas. A SPU manterá a fiscalização contínua do bem, garantindo a preservação da propriedade pública enquanto assegura a estabilidade estrutural para a formação de atletas do clube.
Enquanto o noticiário esportivo debate alternativas de gestão e o alívio recente com a regularização de concessões patrimoniais, a realidade contábil do Santos revela um cenário de extrema vulnerabilidade. Os dados apresentados pelo Conselho Fiscal aos conselheiros do clube mostram um déficit contábil 62% superior ao orçado e um endividamento total que já gravita entre R$ 1,19 bilhão e R$ 1,24 bilhão, dependendo da leitura de passivos de longo prazo.
Apesar de ter registrado uma alta nas receitas do período — que alcançaram R$ 126 milhões, superando a projeção inicial de R$ 91 milhões —, a máquina de despesas do clube operou em patamares altos para o atual momento do clube. Os custos operacionais atingiram R$ 165 milhões, somados a quase R$ 18 milhões em despesas diversas, empurrando o balanço trimestral para um prejuízo de R$ 119,6 milhões.
O principal motor do desequilíbrio financeiro reside nos compromissos com o departamento de futebol. Os gastos mensais do clube com o elenco aproximam-se da marca de R$ 30 milhões, divididos entre salários em CTPS (R$ 14,2 milhões em maio) e obrigações expressivas com direitos de imagem (R$ 15,1 milhões no mesmo mês). Essa pressão gerou histórico recente de atrasos de até dois meses na folha e repasses pendentes, obrigando a diretoria a recorrer a manobras de caixa para estancar a crise.
Para cobrir os buracos operacionais, a gestão do presidente Marcelo Teixeira ampliou os empréstimos de curto prazo para R$ 77,7 milhões e realizou a antecipação de R$ 20,1 milhões em recebíveis futuros com a MLD Capital. O Conselho Fiscal emitiu alertas sobre o risco estrutural dessa estratégia, que compromete receitas de trimestres futuros e sufoca a liquidez do clube — agravada pela perda da Certidão Negativa de Débitos (CND) em virtude de parcelamentos tributários pendentes.
Um dos pontos mais críticos levantados pelo colegiado fiscal diz respeito ao tratamento contábil dado aos contratos de exploração de imagem do atacante Neymar, cujos pagamentos são direcionados à NR Sports, empresa administrada pelos pais do atleta.
Segundo o documento oficial, a contabilidade do clube não apresentou clareza suficiente para mensurar a composição integral e a distribuição exata da dívida entre o Passivo Circulante (curto prazo) e o Passivo Não Circulante (longo prazo). A falta de transparência e conciliação sobre esses montantes impede que os conselheiros avaliem o real impacto dos compromissos vinculados ao astro na saúde financeira de longo prazo do Alvinegro Praiano.
O governo federal firmou um contrato de cessão onerosa de 20 anos, garantindo a permanência do Santos no terreno que utiliza desde 1996.
O clube desembolsará uma mensalidade de R$ 145.167,42, corrigida pelo IPCA.
O Santos reconheceu um passivo pretérito de cerca de R$ 23 milhões, que será pago parcelado em 120 meses.
A área havia sido colocada em leilão pela União, mas o processo foi suspenso após questionamentos do Ministério Público Federal sobre a transparência do edital e a segurança jurídica do negócio.