ESG

Raízes negras: uma jornada para conhecer a potência das favelas, de Estocolmo a Johanesburgo

De volta ao Brasil, Celso Athayde reflete sobre as distintas estéticas associadas à desigualdade social, e celebra a transformação de Vinicius, seu filho

Johanesburgo, África do Sul: a cultura das favelas une os países emergentes (Frédéric Soltan / Colaborador/Getty Images)

Johanesburgo, África do Sul: a cultura das favelas une os países emergentes (Frédéric Soltan / Colaborador/Getty Images)

Celso Athayde
Celso Athayde

CEO da Favela Holding

Publicado em 29 de maio de 2024 às 09h16.

Última atualização em 29 de maio de 2024 às 09h18.

Em primeiro lugar, quero agradecer a cada um de vocês que acompanharam essa jornada de conferências por 20 dias. Não serei redundante, mas não posso deixar de reforçar a importância desse momento tanto para mim quanto para as favelas, uma vez que terão pela primeira vez a presença de suas ideias na conferência do G20.

A primeira fase dessas viagens confirmou que a existência das favelas, ou mesmo a existência de pobreza, não é uma exclusividade de países emergentes. Elas podem se apresentar com estéticas distintas, mas estão lá, demarcando claramente quem são os abastados e os ferrados do lugar. Por isso, é fundamental ouvir essas vozes no cenário internacional, especialmente no G20, pois é uma forma de olhar para os mesmos problemas sob perspectivas muito distintas.

Essa viagem teve um outro importante sentido a partir do momento em que a realizei, na companhia do meu filho, Vinicius. Um jovem preto, de 24 anos, formado em economia na Ibmec, mas que passou a entender um outro sentido na vida, descobriu novos códigos e disparou muitos gatilhos que são impossíveis de explicar; só vivendo para entender essa relação com nossa identidade negra e a conexão com nossas raízes. Essas questões apareceram sempre em todas as conferências, seja na voz dos negros que migraram ou dos pretos locais.

Minha passagem por Maputo, em Moçambique, e Joanesburgo, na África do Sul, foram reveladoras. A parte rica estava lá, com hotéis de 6 estrelas, e a favela também estava lá. Na Europa, participei de projetos sociais importantes, de jovens muito carentes, como em Bruxelas, na Bélgica, ou Estocolmo, na Suécia, onde inclusive existem bairros que os Correios não entram por conta da violência, desmistificando a ideia de que favelas são exclusivas de países pobres, mostrando que até na Europa há áreas similares.

As CUFAs locais estão fazendo um trabalho incrível e digno de prêmios internacionais pela capilaridade que ainda vai aumentar. Mas o importante é registrar que não queremos mais favelas; ao contrário, queremos projetos de governo que zerem o déficit habitacional o mais rápido possível.

Não houve uma conferência que se destacou, cada uma foi importante a partir da realidade de cada local. No Congo, por exemplo, a conferência foi realizada em plena tentativa de golpe no país, a ponto de eu ser deportado com meu filho e levado para a Etiópia. No entanto, a conferência foi um sucesso e realizada no dia seguinte sem a nossa presença.

Na África Central foi tenso exatamente porque o país está em guerra e se encontra sob missão da ONU, mesmo assim o evento foi de uma qualidade que não perdeu para nenhum país da Europa. Essas conferências serviram para entender o quanto essas sociedades devem estar conectadas, e a CUFA se propõe a ser um elo de colaboração entre elas.

Mas quero falar um pouco sobre como meu filho reagiu a esse encontro com sua identidade. Aliás, ele não precisa de papai falando por ele, fala tu, filhão!

“Obrigado por ceder esse espaço, pai. Sempre admiro sua capacidade de dividir os espaços e valorizar aqueles que estão ao seu redor. Mas falando agora sobre essa ‘turnê’ da primeira fase da IFC20, gostaria de dizer que a CUFA mais uma vez mostrou a potência daqueles que muitas vezes a gente não espera. Quem diria que sairíamos do Brasil para o Cazaquistão, por exemplo, e encontraríamos dezenas de pessoas ansiosas para nos receber, ansiosas para fazer parte de uma agenda global das favelas. Quem diria que iríamos à República Centro-Africana, um país que muitas pessoas nem sabem que existe, e seríamos recebidos com uma enorme festa no aeroporto, pessoas que, em meio às dificuldades, não se abalaram e fizeram uma enorme conferência! Quem diria que, ao chegar na África do Sul, veríamos tanta riqueza. Às vezes parece óbvio, mas para nós, pretos que viemos do Brasil, ver um lugar onde todos se parecem conosco parece um simples conto de fadas, principalmente se esse lugar for tão desenvolvido quanto as maiores metrópoles do mundo. Essa viagem pelos mais de 10 países que percorremos com a IFC20 foi perfeita de ponta a ponta, mas me conectar com a minha raiz, a nossa raiz, isso não tem preço! Obrigado, pai.”

Obrigado, filho. Obrigado a Deus por me proporcionar essa oportunidade de poder trazer meu filho para combater a pobreza em todas as suas formas, independente do país. De junto com ele trazer luz para reforçar a necessidade de que essas vozes sejam ouvidas e incluídas no G20.
Obrigado por ver que, há 27 anos, começava uma história tão difícil de uma organização que carregava a favela no nome e assumia todos os impactos negativos que essa expressão impunha. Mas uma organização que abriu caminho sempre e hoje, mais uma vez, mostra para as organizações que trabalham em favelas no mundo que, se os problemas são globais, então precisamos fazer com que as soluções também sejam.

Ou dividimos as riquezas globais com os favelados do mundo, uma vez que eles produzem para aumentá-las, ou vamos dividir as consequências da miséria que a elite mundial sempre alimentou. Essa é a mensagem que eu deixo para o G20.

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