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A Humanidade enfrenta um risco "sem precedentes" de atingir pontos de inflexão que podem desencadear um efeito dominó de catástrofes planetárias irreversíveis, adverte um relatório científico de mais de 400 páginas, divulgado nesta quarta-feira, 6, elaborado por  cerca de 200 pesquisadores. 

A publicação da pesquisa Global Tipping Points Report 2023 (o Relatório de Pontos de Inflexão Globais) coincide com a cúpula da ONU sobre o clima (COP28) em Dubai, em um ano que está quebrando todos os recordes de temperatura.

Muitos dos 26 pontos de inflexão mencionados no relatório, como o derretimento das calotas de gelo, estão relacionados com a dinâmica do aquecimento global, bem como com atividades humanas como a destruição da Floresta Amazônica, que poderiam levar a Terra à beira do abismo.

O documento, feito com o apoio da Bezos Earth Fund, adverte que cinco desses processos parecem estar atingindo seu limite, como o derretimento do gelo, que ameaça causar um aumento catastrófico no nível do mar, ou a morte em massa de recifes de coral tropicais. Alguns deles podem até ter começado uma transformação irreversível.

A gestão de uma catástrofe humanitária causada por cruzar qualquer um desses pontos de inflexão poderia, por outro lado, desviar a atenção da necessidade de evitar os outros, criando um "círculo vicioso" de fome, deslocamento populacional e conflitos, adverte o relatório.

Tim Lenton, especialista em sistemas terrestres da Universidade de Exeter, que liderou o relatório, disse à AFP que esses pontos de inflexão representam uma "ameaça para a Humanidade de uma magnitude sem precedentes".

Mas nem tudo são más notícias. O estudo também detalha uma série de pontos de inflexão positivos - como o desenvolvimento de veículos elétricos, energias renováveis e a adoção de dietas vegetarianas - que poderiam equilibrar a balança para o lado positivo.

"Imagine-se deitado numa cadeira inclinada para trás, naquele ponto de equilíbrio em que um leve empurrão pode fazer uma grande diferença", disse Lenton. "Você pode acabar deitado de costas no chão ou, se tiver sorte, de pé novamente".

À beira do abismo

Uma das preocupações principais é saber se as calotas de gelo da Antártica Ocidental e da Groenlândia vão derreter. Se isso acontecer, o nível do mar pode aumentar em dois metros até 2100, expondo cerca de 500 milhões de pessoas ao risco de inundações costeiras frequentes.

A camada de gelo da Groenlândia tem diminuído a tal ritmo que talvez já seja tarde demais para reverter o processo.

"Já passamos do ponto de inflexão ou isso pode parar de diminuir? Ninguém tem certeza", apontou Lenton.

Os outros três pontos de inflexão mais preocupantes, devido ao seu potencial imediato, são a morte dos recifes de coral tropicais, o derretimento do permafrost (solo que passa todo o ano congelado e que cobre 25% da superfície terrestre do Hemisfério Norte) e uma corrente oceânica chamada Giro Subpolar do Atlântico Norte.

Outro ponto de inflexão oceânico é a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês), um amplo sistema que regula a transferência global de calor dos trópicos para o Hemisfério Norte.

Segundo o relatório, seria verossímil - embora improvável - que a Amoc entrasse em colapso neste século. Essa mudança desestabilizadora poderia fazer com que extensas regiões recebam muito menos chuva, o que potencialmente reduziria pela metade a área global onde se cultiva trigo e milho, indica o documento.

"Se isso acontecer, de repente haverá uma crise alimentar global e uma crise de água semelhante, pois os monções nos trópicos praticamente desaparecerão na Índia e na África Ocidental. Isso será uma catástrofe humanitária", afirmou Lenton.

Riscos 'terríveis'

O especialista comparou o estudo ao dos avaliadores de riscos que analisam um novo avião. O colapso da Amoc seria como detectar algo que poderia fazer com que o avião "caísse do céu", disse.

Os autores pedem que os pontos de inflexão sejam incluídos no balanço mundial debatido nas negociações da COP28 e nos objetivos nacionais de combate às mudanças climáticas.

Sarah Das, cientista da Woods Hole Oceanographic Institution, dos Estados Unidos, que não participou do relatório, observou que os dados agora estão "claros como água".

"Os riscos de a Humanidade ultrapassar esses pontos de inflexão [...] são terríveis, e o impacto nas vidas humanas, potencialmente aterrorizante", concluiu.

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