ESG

Favela sim! CUFA provoca o IBGE, que assume a expressão favela oficialmente

“Estamos longe de acabar com o preconceito contra as favelas, seus moradores, mas hoje conquistamos muitos avanços”, escreve Celso Athayde

IBGE deixará de usar a expressão "aglomerados subnormais" para se referir a favelas

IBGE deixará de usar a expressão "aglomerados subnormais" para se referir a favelas

Celso Athayde
Celso Athayde

CEO da Favela Holding

Publicado em 10 de novembro de 2023 às 06h43.

Quando eu era mais jovem, morando na minha eterna Favela do Sapo, em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, tinha dificuldades de entender por que a favela, e sobretudo o termo que batiza os nossos territórios, vinha acompanhado de tanto estigma.  Já que havia muita gente trabalhadora, de luta e com muita capacidade de se reinventar para driblar as dificuldades apresentadas nesses territórios. Eu achava injusto. Se por um lado havia uma desvantagem econômica, a relação afetiva e honestidade eram e são valores inegociáveis nas favelas, exceto quando falamos dos delinquentes, que aliás, tê-los não é uma prerrogativa da favela.  Todo canto tem um lote.  

Daí as pessoas nos chamavam de moradores de comunidades carentes. Quem me conhece sabe que isso virou minha causa de vida. Parece pouco, mas não é.  Sempre acreditei que nos chamar de carentes é reforçar estrategicamente ou ingenuamente esse estigma e essa dependência psicológica. 

Sempre acreditei na potência desses moradores, na potência dos meus pais e meus pares.  Baixa renda não pode ser sinônimo de carência. E quando criamos a nossa organização social, eu perguntei para as pessoas qual deveria ser o nome. E, pasmem, nenhuma sugestão carregava a expressão favela, apesar de sermos todos favelados. Então eu sugeri: tem que ser CUFA - Central Única das Favelas. Alguns torceram o nariz, outros franziram a testa e alguns desaconselharam mesmo.  Pois sabiam que ao carregar esse nome, os caminhos seriam ainda mais desafiadores. Então tive certeza: é esse o nome!

Nenhuma ONG tinha ousado, e começava ali a nossa saga para mudar uma narrativa, para então mudar a realidade. Estamos longe de acabar com o preconceito contra as favelas, seus moradores e a expressão. Mas hoje já conquistamos muitos avanços.  Mesmo as ONGs de favelas que não carregaram a favela nos seus nomes, hoje, fazem projetos com nome de favela e empresas também fazem. Isso é um avanço para a mudança desse estigma.

Mas um dos maiores desafios simbólicos era convencer o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas - a parar de classificar as favelas como aglomerados subnormais, em seus dados e estudos. Por razões óbvias. Afinal, quem nasce nesse lugar seria chamado do que?

Mas a nossa vitória começou a ser desenhada há 15 anos, quando criamos o instituto Data Favela, que fundei junto com Renato Meirelles. A partir de então, passamos a contribuir com importantes informações e mostramos para a sociedade, empresas e governos a potência dessas pessoas. Mas foi neste ano de 2023, que o IBGE nos convidou para, junto com a CUFA, assumirmos a realização do Censo 2023, em parceria com eles.

Claro que aceitamos, lançamos o programa Favela no Mapa, e invadimos as favelas brasileiras. Foi nesse momento, que discutimos com o IBGE sobre a mudança do nome. Claro que o instituto tinha receio de embarcar na nossa demanda e receber um não das favelas. Foi aí que surgiu a ideia de um seminário em Brasília com a participação de todos os atores da sociedade. Preto Zezé, secretário da CUFA, abriu o seminário, a presidente nacional da CUFA, Kalyne Lima, qualificou essa questão e Renato Meirelles fechou.

Claro que não precisamos do IBGE para legitimar nossas expressões. Mas por outro lado, é importante que o instituto esteja alinhado com a população que está sendo pesquisada. O resultado está aí. Está saindo o tal do Aglomerado Subnormal e entrando a favela.

Importante dizer que não queremos mais favelas, ao contrário. Queremos desenvolvimento e queremos que as pessoas vivam em espaços físicos decentes. Mas não queremos nomes que suavizem e mascarem a nossa realidade.

Aplausos para o IBGE, que ouviu as pessoas e a sociedade como um todo. E aplausos para as favelas, que continuam enaltecendo suas potências sem ignorar a existência das suas carências.

Celso Athayde é CEO da Favela Holding e fundador da CUFA

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